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Uma primária decisiva…ou não. Nova Iorque vota hoje

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JEWEL SAMAD/GETTY

Trump e Hillary, os dois favoritos a nível nacional, são também largamente favoritos nas primárias de Nova Iorque. Mas os efeitos dependem dos números em concreto

Luís M. Faria

Jornalista

As primárias norte-americanas às vezes parecem uma longa sucessão de terças-feiras decisivas. Em cada uma das várias “super terças-feiras”, vota uma quantidade de estados de uma vez. Há outras terças-feiras importantes, entre elas a de hoje, onde vota Nova Iorque. Nova Iorque é um estado grande, que atribui muitos delegados: 95 para os republicanos, 247 para os democratas. As regras são diferentes de um lado e de outro, com vantagem para o favorito republicano em relação ao democrata. Trump tem uma possibilidade real de ganhar todos os delegados do seu estado, pois o sistema eleitoral do partido aproxima-se do “winner takes all” (o vencedor leva tudo) sem ser isso de forma absoluta. Os democratas, pelo contrário, atribuem os seus delegados proporcionalmente, o que significa que Hillary Clinton apenas pode aspirar a receber bastante mais delegados do que o seu rival, o senador Bernie Sanders.

A primária em Nova Iorque tem outros aspetos curiosos. Três dos cinco candidatos que ainda estão na corrida podem considerar-se da cidade, embora um deles, Hillary, apenas o seja por adoção: natural de Chicago, ela radicou-se em Nova Iorque após deixar a Casa Branca e fez-se eleger senadora em representação do Estado, cumprindo dois mandatos bem-sucedidos antes de se tornar Secretária de Estado de Barack Obama. A popularidade na cidade é suficientemente alta para a manter dez pontos à frente de Bernie Sanders nas sondagens, apesar de o veterano senador ser natural da cidade, mais precisamente de Brooklyn, que lhe deu o seu acento característico e outras facetas de personalidade. Felizmente para os candidatos democratas, não existe no seu partido nenhuma oposição de fundo aos chamados “valores nova-iorquinos”, como acontece no partido republicano, onde Manhattan é às vezes identificada como a raiz e o centro de toda a podridão que há na América.

As camadas mais religiosas da população deploram Nova Iorque, e Nova Iorque responde-lhes à letra. Entre os candidatos republicanos, Trump tem à partida uma vantagem de cerca de trinta pontos em relação a um dos seus rivais, e um pouco mais do que isso em relação ao outro. Os rivais são o senador Ted Cruz e o governador John Kasich, do Ohio. Um é considerado um perigoso radical, o outro o único republicano “razoável” que permanece na corrida. Nenhum deles terá a menor possibilidade de impedir a esmagadora vitória que Trump deverá obter na sua cidade natal. Note-se que, embora ele seja normalmente associado a Manhattan e aos edifícios vistosos que lá construiu (ou aos quais deixou por o seu nome), as suas origens familiares são em Queens, o distrito popular onde o seu pai, oriundo da Alemanha, construiu um império imobiliário assente na habitação barata – exatamente o contrário do que o seu filho depois faria em Manhattan.

Receio de efeitos “de arrasto”

“É muito importante para Trump ganhar, é muito importante para ele vencer no seu estado natal e obter o maior número de delegados possível”, disse a um jornal Robert Shapiro, professor de ciência política na Universidade de Columbia. Para o multimilionário, está em causa chegar à convenção republicana com a maioria dos delegados eleitorais, a fim de evitar que lhe “roubem” a nomeação, um objetivo mais ou menos declarado de numerosos membros do ‘establishment’ republicano. Para eles, ter Trump como candidato republicano às presidenciais de novembro implica não só perder essa eleição – todas as sondagens dão Hillary bastante à frente num confronto direto com Trump – mas também perder, por arrasto, uma série de eleições para o senado e a câmara dos representantes. Se Trump não conseguir mais do que a maioria relativa dos delegados, muitos destes ficarão livres, após a primeira votação, para apoiar qualquer candidato que entendam. O que cria uma abertura para combinações de última hora entre os barões do partido, no sentido de escolherem um nome que julguem mais viável ara a eleição geral.

Trump já avisou que, se tentarem fazer isso, poderá haver motins, mas o partido respondeu que ele devia conhecer as regras à partida. A forma mais fácil de evitar problemas (na perspetiva dele) é ter simplesmente a maioria absoluta dos delegados. Para esse fim, ele já procedeu a algumas alterações estratégicas no seu dispositivo de campanha, nomeadamente investindo mais em operações no terreno – uma lacuna básica, que o seu rival Ted Cruz tem explorado bem – e afastando, na prática, o seu polémico diretor de campanha, cujo estilo agressivo reflete o do seu candidato em pior, chegando a atingir expressão física, como quando ele agarra pessoas, incluindo jornalistas, ou mesmo as deita ao chão. O facto de Trump ter finalmente começado a gerir a sua campanha de um modo mais parecido com o que é usual sugere que ele próprio acredita finalmente que vai ser designado como candidato republicano. Talvez antes da convenção.

Experiência vs. cansaço

Para Hillary, a questão é um pouco diferente. Embora Sanders tenha ganho em quase todos os últimos estados que votaram, ela tem um tal avanço no número total de delegados que a sua vitória por maioria absoluta, em princípio, está garantida. Mesmo que eventualmente perca algum terreno em delegados eleitos, a sua vantagem em “superdelegados” (i.e. delegados que representam estruturas do partido) é inultrapassável. Os seus problemas terão mais a ver com o que acontece depois. O sucesso inesperado de Sanders pôs em relevo muitos dos handicaps da ex-secretária de Estado, em especial a sua ligação aos bancos e a outros grandes potentados económicos. “Não representamos os interesses de Wall street ou a classe dos bilionários ou a América corporativa”, disse Sanders há dias em Brooklyn. A mensagem ressoa com muitos jovens que se sentem postos à margem do atual sistema económico, e Hillary vai ter de lhes dar resposta.

Uma desvantagem que ela e os democratas têm em relação aos seus rivais é um número total de votantes efetivos substancialmente inferior aos dos republicanos. Isso tem a ver, em parte, com o facto de ser o seu partido que detêm a Casa Branca neste momento. Mas também com uma certa impressão de que Hillary, que reside nas esferas do poder nacional desde 1992, quando o seu marido foi eleito presidente, não é de todo a pessoa ideal para levar a cabo uma renovação. O nome desse sentimento é simples: cansaço. Resta ver se as qualidades únicas de experiência que ela tem bastam para compensar isso. Nova Iorque, hoje, é um bom lugar para começar a perceber até que ponto vai a embalagem.