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Morte de lutador português leva “Guardian” a perguntar: “quantos mais terão de morrer?”

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Tinha 28 anos, dois filhos - um de 7 e outro de 12. Morreu na sequência de um combate de Mixed Martial Arts

d.r.

“Se os participantes das mixed martial arts compreendessem totalmente o que significa perder-se um ente amado, ou lutarem para andar ou alimentarem-se a eles próprios, talvez eles pensassem duas vezes antes de entrarem no ringue”, escreve o presidente de uma associação britânica para lesões cerebrais, num contundente artigo de condenação da luta

A morte de João Carvalho devido a lesões cerebrais - em sequência da sua participação num combate de mixed martial arts (MMA) no passado fim de semana, na Irlanda – leva o diretor da Headway, associação britânica para as lesões cerebrais, a questionar: “Quantos mais jovens terão de morrer antes de as MMA serem banidas?”.

A pergunta faz o título do artigo de opinião publicado esta sexta-feira no “The Guardian”, em que, a propósito da morte do lutador português de 28 anos, Peter McCabe coloca em questão a luta, o negócio e o espetáculo criado em redor.

“As MMA vendem-se como um espetáculo brutal de fazer dinheiro. Quando o objetivo é fazer o adversário render-se pontapeando-o e socando-o de uma forma absurda na cabeça, não é de estranhar quando alguém é fatalmente ferido com uma lesão neurológica fatal”, escreve.

O diretor da Headway começa por referir que, primeiro que tudo, os seus pensamentos estão com a família de João Carvalho. “Todos compreendem a agonia que é para uma família aguardar junto à cama do hospital dos seu entes amados, esperando e rezando para que eles voltem a recuperar a consciência.” Para depois referir que esta não foi a primeira nem será a última morte ocorrida como resultado direto de lesões cerebrais causadas por pancadas deliberadas na cabeça durante combates de MMA.

Desde que a modalidade foi oficializada em 2001, já se tinham registado anteriormente quatro mortes, duas devido a hemorragias cerebrais, uma devido a uma lesão contraída durante um combate e a outra por causas indeterminadas.

Em declarações ao Expresso, o especialista em medicina desportiva Henrique Jones comparou o efeito das pancadas sofridas no MMA ao de “um martelo a bater na cabeça e a abanar o cérebro”, questionando como também é possível que seja autorizado um desporto com regras tão pouco restritivas.

Além do risco da morte imediata nos combates, os lutadores poderão também mais tarde vir a sofrer alzeihmer ou demência como consequência das lutas, referiu ainda Henrique Jones.

No artigo no “The Guardian”, McCabe refere também as indicações de associações, como a Associação Médica Britânica, de que “o efeito cumulativo de repetidas pancadas na cabeça como as sofridas nas lutas de MMA e no boxe podem causar lesões cerebrais permanentes”.

O técnico britânico frisa que “muitos indivíduos são forçados a lutar numa base diária com os efeitos devastadores de lesões cerebrais ocorridas em circunstâncias inevitáveis”. Acrescentando depois que para os familiares destas pessoas é difícil compreender como alguém se coloca de mote próprio numa posição em que poderá vir a morrer ou a ficar diminuído para o resto da vida.

“Se os participantes do MMA compreendessem totalmente o que significa perder-se alguém que se ama ou lutarem para andar ou alimentarem-se a eles próprios, talvez eles pensassem duas vezes antes de entrarem no ringue.”

McCabe chama a atenção para o facto de que se alguém fosse espancado até à morte na rua toda a gente ficaria revoltada e a polícia seria chamada e os atacantes presos, mas no caso do MMA, “como sociedade, nós continuamos sentados e a permitir que audiências paguem dinheiro para assistir à violência em nome do entretenimento”.

Refere ainda que os lutadores recebem apenas uma pequena parte dos lucros. “Chegou o momento de se ligarem os holofotes sobre as finanças do MMA”, concluindo depois com o repto: “Quantos mais jovens terão de morrer antes de nós tomarmos medidas?”.

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