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Internacional

É preciso ajuda urgente para a cidade onde se morre à fome

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Cidade de Daraya, nos arredores de Damasco

YOUSSEF KARWASHAN/Getty images

Homens precisam sobretudo de comida rica em proteínas, medicamentos e vacinas. As mulheres precisam de produtos de higiene e leite, já que não estão em condições de amamentar. Os habitantes de Daraya, nos arredores de Damasco, estão à beira da morte. A Síria é um problema sem fim

Helena Bento

Jornalista

A notícia, em meados de fevereiro, de que os Estados Unidos e a Rússia tinham finalmente chegado a um acordo para a cessação de hostilidades na Síria foi recebida com satisfação. Mais do que isso, foi recebida com alegria. Ao fim de muitos meses de ataques aéreos diários, a população síria podia finalmente respirar de alívio. Sair de casa com medo de não regressar, ou de ser apanhado numa explosão ao virar da esquina, ou saber que um parente próximo estava soterrado entre os escombros de um edifício que fora pelos ares, deixara de ser, pelo menos durante algum tempo, uma preocupação. Moscovo aceitara que os seus aviões deixassem de bombardear o país a eito com o objetivo de atingir os inimigos de Bashar al-Assad, fiel aliado de Vladimir Putin.

O acordo permitiu ainda que centenas de camiões carregados com alimentos e medicamentos entrassem no país, em direção às localidades cercadas mais afetadas pela fome. Os relatos da situação em Madaya, a cerca de 40 km de Damasco, que davam conta de um cenário de horror na localidade, não permitiram que se continuasse a fingir que não se sabia o que estava a acontecer em algumas cidades sírias. "Vi um rapaz matar gatos e dizer à família que tinha apanhado coelhos. Algumas pessoas revistavam o lixo, outras comiam erva", dizia Hiba Abdel Rahman, um rapaz de 17 anos, à AFP. Uma residente da cidade contava também à BBC que as crianças, com fome, "choravam durante toda a noite", sem que houvesse comida para lhes dar. Madaya, recorde-se, foi tomada por grupos que querem deburrar Bashar al-Assad - como o Ahrar al-Sham e a Frente al-Nusra, braço armado da Al-Qaeda na Síria - e cercada em julho do ano passado pelas tropas governamentais.

A ajuda que chegou ao país permitiu socorrer dezenas de pessoas que se encontravam à beira da morte, mas continua a não ser suficiente para fazer face à situação que se vive noutras cidades, como Daraya, também perto da capital síria. "A cada minuto e a cada hora que passam, as 8.500 pessoas que vivem cercadas na cidade ficam mais próximas de morrer de fome. Precisamos de comida e medicamentos para ajudá-las antes que o impensável aconteça", escreve Lubna Alkanawati, da organização sem fins lucrativos Women Now for Development, num email que nos chega através do grupo Syrian Campaign.

Lubna Alkanawati, que viveu durante dois anos e meio em Ghouta oriental, no leste de Damasco, diz que sabe o que é "passar fome", mas que não há nada que se compare à situação atual de Daraya. "Comparado com Daraya, a nossa situação era quase uma dádiva. Nós plantávamos vegetais para sobreviver e esmagávamos a comida dos animais para misturá-la com água e fazer pão. Mas em Daraya as pessoas não têm nada". Lubna Alkanawati, que falou recentemente com alguns residentes para avaliar as suas necessidades, explica que os homens precisam sobretudo de comida rica em proteínas, medicamentos e vacinas. Já as mulheres precisam de produtos de higiene e leite, já que não estão em condições de amamentar. "A mulher que dirige o nosso centro [na cidade] teve dois abortos por se encontrar subnutrida e não receber cuidados médicos."

O objetivo do seu email é fazer com que as pessoas passem a mensagem, de modo a que os governos de cada país possam agir e evitar a morte destas pessoas, explica Lubna Alkanawati. "Todos nós podemos fazer alguma coisa. Não quero que daqui a umas semanas estejamos todos a chorar ao ver imagens de pessoas que morreram à fome e a dizer – 'Quem me dera que tivéssemos feito alguma coisa para evitar isto'".