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Internacional

Bernie Sanders pausa campanha em Nova Iorque para ir falar no Vaticano

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NICHOLAS KAMM

Candidato democrata às presidenciais norte-americanas vai participar numa conferência organizada pela Academia Pontifícia de Ciências Sociais para celebrar o 25.º aniversário da encíclica “Centesimus Annus”, escrita pelo Papa João Paulo II sobre os males do capitalismo

Em plena campanha para a próxima etapa das primárias norte-americanas, que se disputa a 19 de abril em Nova Iorque, Bernie Sanders vai ausentar-se durante dois dias para viajar até ao Vaticano, onde esta sexta-feira e sábado participa numa pequena conferência organizada pela Academia Pontifícia de Ciências Sociais para marcar os 25 anos da encíclica "Centesimus Annus", escrita pelo Papa João Paulo II sobre os males do capitalismo.

Francisco não deverá estar presente nessa conferência, que integra 30 convidados, entre eles o Presidente da Bolívia Evo Morales e o homólogo equatoriano Rafael Correa. Em vez disso, o Papa viajará até Lesbos, na Grécia, onde estará este sábado para chamar a atenção para a crise dos refugiados.

O anúncio de Sanders na semana passada, quando disse estar "muito entusiasmado" por ter sido convidado a falar na pequena conferência da Igreja Católica, gerou controvérsia nos Estados Unidos, à partida pelo facto de ser o único candidato às presidenciais norte-americanas convidado a participar no encontro.

O porta-voz do Vaticano Federico Lombardi disse ao "Daily Beast" que não foi o Papa que convidou Sanders pessoalmente. "O convite foi feito em nome da Academia Pontifícia de Ciências Sociais, e não pelo Papa Francisco", declarou. "Não há qualquer expectativa de que o Papa se vá encontrar com o sr. Sanders."

Alimentando a controvérsia, a presidente dessa academia, Margaret Archer, disse à Bloomberg que o senador do Vermont se convidou a ele próprio. "Sanders deu o primeiro passo, por razões óbvias. Pode estar à procura do voto católico mas isto não é o voto católico e ele deve lembrar-se disso e agir em conformidade." Pouco depois, era o chanceler da academia que vinha baralhar mais as contas. "Desminto o que [Archer] disse, não foi assim", declarou o monsenhor Marcelo Sánchez Sorondo. "Isto não é verdade e ela sabe-o. Eu convidei-o com o aval dela."

Sorondo viria mais tarde a retrair os comentários iniciais, sublinhando que o convite não deve ser visto como um apoio formal do Vaticano à candidatura de Sanders. "Não significa qualquer apoio à campanha. Queremos estabelecer um diálogo entre a América do Norte e a América do Sul e pensámos em convidar um político [dos EUA]. O Presidente da Bolívia também vai lá estar. Talvez os outros [candidatos] tivessem interesse mas eles não pediram para vir."

À CNN, Sorondo confirmou ainda que Sanders deu o primeiro passo. "Ele expressou interesse na encíclica do Papa várias vezes e é claro que tem um interesse em estudá-la. [A sua vinda] pode ter impacto [na campanha] mas não estamos a tentar apoiá-la."

Ao jornal norte-americano "National Catholic Reporter", o chanceler da Academia de Ciências Sociais do Vaticano acrescentou que não percebe a controvérsia instalada nos EUA. "Não entendo qual é o problema. Temos dois Presidentes da América Latina e não há qualquer problema. Porque é que é um problema termos convidado um candidato à Casa Branca do vosso país? É um bocado impossível de compreender."

Apesar do burburinho, é indiscutível a proximidade de Sanders ao Papa no que toca a assuntos de disparidade económica e justiça social. Em setembro, o adido de imprensa do Vaticano, o padre Thomas Rosica, entrevistou Sanders para a série "Witness" da televisão Canadian Salt and Light Catholic. Nessa entrevista, o aspirante a candidato democrata para as presidenciais de novembro nos EUA declarou o seu apreço pelo atual líder da Igreja Católica. "Ele surgiu na história no momento certo. Estamos a viver num mundo em que a ganância se tornou, para as pessoas mais ricas, a sua própria religião."

Dentro da campanha de Sanders os problemas são outros, aponta o Politico. Numa altura em que as últimas sondangens de intenção de voto em Nova Iorque preveem a vitória de Hillary Clinton com uma larga vantagem sobre o senador, alguns dos apoiantes de Bernie Sanders estão preocupados com a sua ausência de dois dias.