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Talibãs iniciam a “ofensiva da Primavera”

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Destroços de um autocarro atingido, na segunda-feira, por um talibã suicida, em Jalalabad, no leste do Afeganistão. Morreram pelo menos 12 recrutas do exército

© Parwiz / Reuters

Passado o rigor do inverno, os talibãs prometem mais um “verão quente” no Afeganistão. A ofensiva da primavera começou esta terça-feira, às cinco da manhã

Margarida Mota

Jornalista

É um ritual que se tem repetido nos últimos 15 anos no Afeganistão. Num email enviado a vários órgãos de informação, os talibãs anunciaram, esta terça-feira, a intensificação dos combates após a pausa de inverno. A “ofensiva da primavera” começou às cinco da manhã locais (mais três horas e meia do que em Portugal continental) e passará por ataques em grande escala, apoiados por ataques suicidas e assassínios de comandantes inimigos em centros urbanos.

A campanha — designada “Operação Omari” em homenagem a Mullah Omar, o fundador do movimento que morreu há três anos e cuja morte os “estudantes” encobriram durante dois anos — empregará “todos os meios à nossa disposição para atolar o inimigo numa guerra de desgaste que diminuirá a moral dos invasores estrangeiros e das suas milícias armadas internas”.

A declaração de guerra talibã surge três dias após uma visita não anunciada do secretário de Estado norte-americano ao Afeganistão. John Kerry reafirmou o apoio dos EUA ao Governo de unidade nacional e apelou ao Presidente Ashraf Ghani e ao chefe do Executivo Abdullah Abdullah que coloquem de lado as rivalidades e trabalhem em conjunto.

Sem ministro da Defesa há dois anos

Quase dois anos após as disputadas eleições presidenciais, de que resultou uma espécie de poder partilhado entre os dois principais candidatos — solução mediada pelos EUA —, Ashraf e Abdullah ainda não chegaram a acordo em relação ao nome para ministro da Defesa, por exemplo.

Os talibãs têm-se aproveitado das fragilidades políticas do país. Segundo a NATO, controlam 6% do território e ameaçam um terço.

Na segunda-feira, em Jalalabad (leste), um talibã suicida fez-se explodir numa moto, matando pelo menos 12 recrutas do exército que seguiam num autocarro. Horas antes, num ataque semelhante em Cabul, morreram duas pessoas.

A rebelião talibã intensificou-se após a retirada das tropas de combate internacionais, no final de 2014, que expôs a falta de preparação das forças de segurança afegãs, que passaram a evidenciar elevadas baixas e altas taxas de deserção. Até ao final deste ano, os EUA querem reduzir o seu contingente de 9800 para 5500 militares.

Daesh atua silenciosamente

Em 2015, já sob a liderança de Mullah Akhtar Mansur, os talibãs reconquistaram, durante 15 dias, a cidade de Kunduz (norte), naquela que foi o maior feito militar desde o fim do regime talibã, em 2001.

Na segunda-feira, a CNN noticiou que a estratégica província de Helmand (sul), “pela qual milhares de soldados da NATO morreram a lutar, está mais próxima do que nunca de cair para os talibãs”.

A luta talibã tem-se radicalizado graças também à crescente presença de militantes afetos ao autodenominado Estado Islâmico (Daesh) no Afeganistão. “Ele existe, floresceu e está a expandir-se. Atua silenciosamente e reune força para ações decisivas”, afirmou, no início de abril, Zamir Kabulov, enviado presidencial da Rússia para o Afeganistão, em entrevista ao jornal “Izvestiya”. Para este responsável russo, o Daesh quer usar o país como “trampolim para uma expansão mais ampla”.