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Costa procura candidatos ao país que ninguém quer

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YANNIS KOLESIDIS/ EPA

Durante a visita de cerca de uma hora a um campo de refugiados perto de Atenas, o primeiro-ministro cumprimentou, fez perguntas, tirou selfies e explicou ao que vinha. A maior parte dos refugiados nem percebeu bem quem era o homem que os visitou e tentou oferecer-lhes oportunidades noutro lado

Pedro Benevides, enviado da SIC à Grécia

Bad. Very bad. As poucas palavras em inglês que Surayya conhece chegam para descrever a experiência que tem tido no campo de refugiados de Eleonas, às portas de Atenas. Na mão segura um pano de limpar coberto de formigas. "Sobem pela parede, pelas camas, entram pelos ouvidos da minha filha." As cinca crianças que tem junto a si, todas com menos de 4 anos, não são todas dela. Surayya tem três filhos, a irmã mais dois e partilham o mesmo espaço. Por todo o campo, divido em zona familiar, zona para homens e outra para mulheres, os contentores alojam oito pessoas. "O gerente do campo diz-me: se não gosta, vá-se embora." E se pudesse ia. Para a Alemanha, ter com o marido que também fugiu da Síria e já conseguiu chegar ao país com que grande parte dos refugiados sonha todos os dias.

António Costa tem outra proposta para lhes fazer. Um país com vontade e capacidade para receber milhares de refugiados, perto de 9 mil. É isso que vai dizendo a quem o aborda a perguntar o que pode fazer por eles. "Neste momento, temos 1250 lugares imediatamente disponíveis."

Durante a visita de cerca de uma hora, o primeiro-ministro cumprimentou, fez perguntas, tirou selfies e explicou ao que vinha. "Este é um problema europeu e a Europa tem dar resposta a este drama humano, assegurando proteção internacional a todos os que dela carecem, venham do Afeganistão ou da Eritreia, para buscar a paz e uma oportunidade de refazerem as suas vidas."

YANNIS KOLESIDIS/EPA

Para já, Costa não está impressionado com os esforços europeus em matéria de refugiados. "A legislação europeia nem sempre permite responder de forma ágil às necessidades das pessoas.. Por isso levou na bagagem a vontade de agilizar de forma bilateral os mecanismo de acolhimento. Alexis Tsipras agradeceu a solidariedade portuguesa, ele que tem estado debaixo de fogo - também - pela forma como lida com o problema. A Grécia não estava preparada para gerir a onda de milhares e milhares de pessoas que nos últimos meses chegaram ao país que é uma porta para a Europa.

Os últimos números dizem que vão chegando cada vez menos, fruto talvez do acordo UE-Turquia. Mas ainda há mais de 50 mil pessoas retidas na Grécia à espera que abram as fronteiras. E de acordo com a Amnistia Internacional, são refugiados a viver em condições desumanas, nos campos de Lesbos e Chios.

Mas não aqui. Em Eleonas não há tendas, há postos de atendimento médico, há campos de futebol. É considerado um centro de acolhimento modelo. E foi também por isso que o governo grego quis trazer aqui António Costa.

Ahmad, de 26 anos, fugiu das bombas e da guerra da Síria com a mulher, quando descobriram que vinha aí o primeiro filho. Passou por Lesbos e diz que preferia regressar a Alepo do que voltar a viver naquele campo de refugiados. Agora está bem melhor, mas quer sair. "Alemanha, Finlândia, Áustria..." E Portugal? "Portugal não."

YANNIS KOLESIDIS/ EPA

Quase ninguém quer Portugal. A maior parte dos refugiados nem percebeu bem quem era o homem que os visitou e tentou oferecer-lhes oportunidades noutro lado. E Costa passou grande parte do tempo a explicar que não tem meios para ajudá-los a chegar à Alemanha. "Nós temos vontade de os acolher e já mostrámos toda a disponibilidade. Mas não podemos obrigar as pessoas a vir. É natural que quem fez milhares de quilómetros com um país como referência tenha agora dificuldade em reorientar o sue trajeto."

No campo de Eleonas vivem cerca de 1400 pessoas, centenas de crianças. A acompanhar o primeiro-ministro estiveram o ministro dos Negócios Estrangeiros e a ministra da Administração Interna. Constança Urbano de Sousa pegou ao colo uma criança, com quem seguiu o resto da visita de mão dada. A seguir juntaram-se mais crianças, cinco, seis, à volta da ministra. "Se calhar vou ter de levá-las para Lisboa." Não foi preciso. No final, cada uma seguiu para junto das suas famílias, a cantarolar em inglês uma frase popular por aqueles lados: "Open the border!". Abram as fronteiras.