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“O Daesh mistura islamismo e fascismo, mas será derrotado”

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António Pedro Ferreira

Andrew Hosken publica livro sobre o Daesh e alerta que este, apesar dos reveses na Síria e no Iraque, permanece uma força temível capaz de exportar o terror para a Europa

Margarida Santos Lopes

Como é que um gangue jiadista criado por um “bêbado e arruaceiro” jordano chamado Abu Musab al-Zarqawi se transformou no “inimigo número um da Humanidade”, suplantando a Al-Qaeda, de Osama bin Laden? “A surpresa é toda a gente se ter surpreendido”, diz Andrew Hosken, autor de “Império do Medo: No interior do estado islâmico” (Ed. Planeta), escrito “para compreender a história deste movimento, a sua selvajaria e os homens cruéis que o criaram.”

O autoproclamado estado islâmico começou como Tawid wa’l Jihad (Monoteísmo e Jihad), “a máquina assassina” criada por Zarqawi num campo de treino, em Herat, no Afeganistão, em 1999. Nasceu com a bênção de Bin Laden, que lhe deu o equivalente a 7000 euros para início de atividade, mas rapidamente se tornou uma organização rival e mais feroz.

Não é apenas um bando terrorista. É um exército convencional com soldados profissionais; um gigantesco aparelho de segurança e espionagem; uma ampla rede de propaganda; uma máfia implacável que trafica petróleo, antiguidades, armas e seres humanos.

“Não fiquei espantado quando, em 2014, o Daesh se apoderou de Mossul e, com esta conquista, mudou o mapa do Médio Oriente”, afirmou Hosken, numa entrevista ao Expresso, em Lisboa, onde veio apresentar o seu livro. “Em 2013, quando estive no Iraque, era visível que o grupo controlava uma grande parte do país, sobretudo a província de Anbar, e que aterrorizava Bagdade.

Nessa altura sabíamos quantos ataques o Daesh fizera, porque o grupo publicava um ‘relatório anual’ no qual pormenorizava todos os atentados com carros armadilhados e todos os assassínios premeditados.”

Do Afeganistão ao Iraque

“Em 2002 [quando saiu do campo em Herat, bombardeado pela NATO e pelos EUA, e fugiu do Afeganistão através do Irão], Zarqawi já dominava um ‘califado’ brutal no Norte do Iraque, onde combatia os curdos”, adiantou Hosken. “As tropas americanas nunca foram o alvo, mas sim a maioria xiita, desprezada como kafir, herege ou apóstata, que ascendeu ao poder após a queda de Saddam. Sunita, salafita e wahabita, Zarqawi sempre quis um califado.

Seguiu à letra um ‘Manual de Selvajaria’, que circula online e preconiza a criação de um vazio político através do terror. Travou uma guerra civil sanguinária durante três anos. Até a Al-Qaeda, preocupada com a ‘imagem da jihad’, se escandalizou com as execuções bárbaras de reféns, os massacres de xiitas e das minorias.”

“Em 2006, depois de matarem Zarqawi, os americanos não valorizaram o seu sucessor, Abu Omar al-Baghdadi — não confundir com Abu Bakr al-Baghdadi — e algo de dramático aconteceu”, salientou Hosken, jornalista da BBC Radio 4. “Abu Omar deu a si próprio o título de califa e proclamou um estado islâmico do Iraque.
Os EUA ignoraram-no, convencidos de que se tratava de um ator. Historicamente, porém, foi um acontecimento crucial, porque chegou ao fim o casamento de conveniência entre Daesh e Al-Qaeda.”

“A morte de Abu Omar, em 2010, criou a ilusão de vitória sobre o Daesh, e as tropas dos EUA retiraram-se pouco depois”, recordou Hosken. “Em maio, o grupo deu a conhecer o seu novo líder, Abu Bakr al-Baghdadi. Assumiu-se abertamente como organização genocida: num só ataque, massacrou 800 yazidis.

Um grupo islamo-fascista

É uma mistura de islamismo e fascismo. Uma amálgama de dois grupos que parecem nada ter em comum mas servem objetivos mútuos. O Daesh é a combinação do que resta do antigo Partido Baas, de Saddam, nacionalista e secular, e do grupo de Zarqawi, que quer impor a sharia ou lei islâmica.”

“O Daesh [no Iraque] é, acima de tudo, uma organização iraquiana ligada ao Baas”, frisou o repórter britânico. “Repare-se nos homens que rodeiam Baghdadi. Foram todos foram membros do Exército e da Polícia de Saddam. Quando conquistam uma cidade, os jiadistas podem entrar com os seus coletes de bombas, mas, depois dos suicidas, vem o pessoal do Baas para estabelecer a lei e ordem através do terror.”

A euforia ilusória dos EUA depois das mortes de Zarqawi e Abu Omar talvez explique a relutância de Andrew Hosken em acreditar nos “peritos em terrorismo e contraterrorismo” americanos que anunciam pesadas derrotas do Daesh, na sequência de ofensivas aéreas e terrestres. Segundo estas fontes, citadas pelo “Washington Post”, o califado encolheu 40% nos últimos seis meses, o que significa menos população a quem extorquir dinheiro; a produção petrolífera, que rendia 500 milhões de dólares anuais, baixou para metade; a queda de receitas da mais rica organização terrorista está a encorajar cada vez mais deserções.

“Pergunto-me se estes peritos são os mesmos que não conseguiram ver os sinais da emergência do Daesh”, ironizou Hosken. “Sabemos apenas que o Daesh perdeu Palmira, com a ajuda dos russos. Perdeu também Kobane, Ramadi, Tikrit e Sinjar. É verdade que tem sofrido desaires significativos, mas perder batalhas não significa perder uma guerra.” O Daesh não precisa de muito território para sobreviver. Continua a recrutar entre os desiludidos do ‘inverno árabe’. É uma organização criminosa com muitos ladrões e assassinos. Continua a extrair petróleo e a contrabandeá-lo para a Turquia. Mesmo que seja derrotado na Síria e Iraque, continua no Afeganistão, no Sinai (Egito), na Líbia.”

A caminho das armas biológicas?

Até que ponto os recentes ataques terroristas na Europa são a reação de uma besta ferida de morte? “A mensagem é: lá porque estão a matar-nos na Síria e Iraque não significa que não possamos matar-vos em Bruxelas ou em Paris”, respondeu Hosken. “Querem passar a ideia de que há um único campo de batalha. Estes atentados revelam uma capacidade extraordinária de nos atacar.”

“É possível derrotá-los como os nazis, que eram uma ameaça muito maior”, concluiu Hosken. “Mas vai levar tempo. A grande questão é saber se depois disso, mantendo-se as condições que levaram ao seu aparecimento — fraturas confessionais, confronto permanente entre sauditas e iranianos, regimes repressivos, corrupção — não irá surgir outro grupo ainda pior, talvez com armas biológicas.”