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Não presta

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Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

A ascensão de desditoso a poderoso não está isenta do dever de desforra de obscuras humilhações. Quando Luiz Inácio da Silva, cognome Lula, subiu ao trono, a notícia não podia deixar o mundo indiferente. As esquerdas precisam de heróis, tanto mais que os heróis que teve acabaram mal. Não interessa que os heróis da direita não tenham acabado melhor, interessa que a esquerda reclama uma superioridade moral que faz dos seus operários virtuosos seres e dos seus políticos inquietos e justíssimos humanistas. E como a espécie humana é toda igual, não espanta que haja uns que querem ser mais iguais do que outros. Lê-se George Orwell, um homem justo e um humanista antes de a palavra se ter desvalorizado, e a história destas ascensões está contada e analisada. O mundo está cheio de Lulas, uns mais importantes do que outros.

Não se pode contar a história brasileira simplificando-a. Reduzindo-a a uma derrota moral da esquerda. Não é esse o nó do problema. As qualidades que fizeram de um homem condenado pelo nascimento e a geografia a uma existência de escravo numa sociedade colonial (e não, ainda não, pós-colonial) Presidente de um dos maiores e mais ricos países do mundo e o chefe do maior partido político brasileiro geram defeitos. Lula corporizou as esperanças e as ilusões de todos os deserdados. Ora, estas manobras não são possíveis. Se Obama não podia ser o redentor da underclass negra americana, Lula não podia ser o Cristo do Corcovado.

Evidentemente, o que Lula fez foi o que se esperaria que fizesse. As qualidades que o ergueram são a outra face da moeda do triunfo. De um lado a coroa de louros, do outro a mão rapace.
Não se chega ao trono sem pedigree dinástico. E depois de lá se chegar, depois dos trabalhos da jornada, da exceção da jornada, ninguém quer sair do trono. Lula, o sindicalista, virou Lula, o caudilho. E Dilma foi o Robin deste Batman, o Medvedev deste Putin.

Lula reinou por ser aquilo que é e deve ter sido, um homem destituído de escrúpulo moral. Não se sobe a pulso, sobe-se a empurrão. Sobre isto ninguém tem dúvidas e é uma qualidade, ou ausência de qualidade, que nenhum sistema judicial poderá cercar e enclausurar. Seria altamente improvável. É altamente óbvia. Dito isto, nem tudo o que Lula fez, no tempo da ascensão e antes da queda, está errado. Na sua visão coletivista, estatista e intelectualmente inadequada e insuficiente do seu Brasil, que herdou estabilizado das mãos de Fernando Henrique Cardoso, Lula acreditava que os grandes empresários e empresas deviam andar a seu mando, que os negócios eram, todos, negócios do Estado, e que no Estado, todo, mandava ele e mandava o partido dele. Acreditava também, no seu conhecimento empírico das leis da finança e da economia, ou do “desenvolvimento”, que entre despedimento e crescimento económico, o primeiro valia mais. Não percebendo que uma população retirada da miséria graças a um sistema de bolsas e subsídios e não de investimento sério e consistente na economia, na qualificação e na tecnologia, na saúde e na educação, e um equilíbrio da dívida pública mantendo-a protegida das garras do grande capital e do peso das matérias-primas, é uma população que mais cedo ou mais tarde regressa à miséria. Ninguém quer que o Brasil se torne uma imensa Venezuela, berço de caudilhos populares, ou a Argentina dos peronismos.

O caso mais interessante destas guerras entre investimento público e privado, foi a que Lula travou com Roger Agnelli, ex-CEO da Vale, uma das maiores companhias brasileiras e mundiais. Por coincidência trágica, Agnelli morreu esta semana, com a família, numa avioneta que se despenhou nos subúrbios de São Paulo. Dilma afastara Agnelli, considerado um gestor moderno e competente, da Vale. A mando de Lula. Agnelli morre na semana em que Lula cai. Porquê? No Brasil, o meio de transporte dos ricos é o helicóptero e o jatinho privado. Com Lula e o PT no poder, nada mudou. Muitos petistas passaram a andar de jatinho mas não foi criada uma rede de transportes públicos, uma rede de comunicações, de infraestruturas, nada. Não foi criado um sistema de saúde público decente. Não foi criado um sistema de educação que resgate as universidades brasileiras e as academias científicas da sua mediocridade e imobilismo.

Passada a glória do Lula da Silva com o cabelo arrumado e a faixa amarela e verde ao peito, a medalha doirada, o que vemos hoje é um homem perseguido como um animal, acossado como um ditador em perigo. Não é um espetáculo digno e a justiça brasileira está à altura, no seu furor persecutório que anula as liberdades e garantias do Estado de direito, do resto das grandes instituições públicas daquela democracia. Não presta muito.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 25 março 2016

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