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Manifestação pede demissão de Cameron

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Dan Kitwood / Getty Images

David Cameron confessa que beneficiou de esquemas offshore. Manifestação em Downing Street pede a demissão do primeiro-ministro

Isto não é bem a Islândia. Os banqueiros que estiveram na origem da crise não foram presos, os ministros não caem à mínima sublevação popular, mas David Cameron, primeiro-ministro britânico, está a ser pressionado, quer pela oposição quer pela própria bancada conservadora, a explicar o seu envolvimento na rede de empresas offshore associada à firma de advogados Mossack Fonseca, cujos registos foram recentemente tornados públicos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), do qual o Expresso faz parte.

A semana começou com Downing Street em negação. “É matéria do foro privado do primeiro-ministro e da sua família”, foi tudo o que os jornalistas conseguiram da porta-voz de Cameron na reunião matinal de segunda-feira, menos de doze horas depois de o escândalo ter começado a fazer disparar manchetes por todo o mundo. Em causa está o nível de envolvimento de Cameron – e os potenciais dividendos daí retirados – na empresa Blairmore Holdings, criada pelo seu pai, Ian Cameron, falecido em 2013, e com sede no paraíso fiscal do Panamá.

Cameron admite (tarde) beneficiar de esquemas offshore

No fim da semana Cameron admitiria finalmente ter beneficiado, em cerca de 30 mil libras (37 mil euros), da venda de 5 000 ações que detinha na empresa do pai, poucos meses antes de se ter tornado primeiro-ministro, em 2010. Mas para os seus detratores, tanto nos jornais como no parlamento, o estrago estava feito.

Isto porque não só Cameron demorou uma semana a admitir o seu envolvimento como ainda não está explicado se existem beneficiários de investimentos em companhias isentas do pagamento de impostos no Reino Unido entre os membros da sua família direta e de onde será proveniente o dinheiro que ele vier a herdar, por exemplo, da sua mãe.

Ainda está também por determinar se as 300 mil libras (372 mil euros) que ele herdou do seu pai terão sido resultado de investimentos em paraísos fiscais.

Como escreveu Luke Harding no diário Guardian: “Se ele tivesse logo explicado o que estava em causa tinha salvo a semana: agora tem que enfrentar a pressão popular para se demitir, há casas de jogo a aceitar apostas sobre a possibilidade de uma nova liderança no seu partido ainda este ano, e as pessoas perderam a confiança no seu primeiro-ministro”.

Muitas daquelas que aqui estão à frente de Downing Street poderiam até já a ter perdido antes do lerem o nome de Cameron associado a um escândalo de evasão fiscal – a maioria é claramente apoiante de uma guinada à Esquerda no parlamento – mas há aqueles que, tendo votado no partido conservador a vida toda, se vêm agora “moralmente impedidos de o defenderem”, como diz Dympna Kissinger, de 65 anos. Kissinger “pôde escolher” ficar em casa a cuidar da família enquanto o marido, advogado, trabalhava. Vive confortavelmente numa vivenda em Essex. Sempre viveu. A neta é bailarina com o dinheiro dos avós, porque o bailado não dá dinheiro mas a “a família sempre conseguiu investir no talento”.

São 11h30 da manhã e à volta desta senhora de cabelo branco sedoso que lhe cai sobre os ombros por debaixo de um chapéu de veludo verde escuro estão já cerca de trezentas pessoas que gritam bem alto – algumas palavras de ordem são mesmo referências obscenas ao facto de David Cameron ter simulado atos sexuais com um porco como parte de um ritual num dos clubes de universitários em Oxford. Kissinger encolhe-se um pouco a cada grito. “Eu entendo que as pessoas estejam irritadas e que se munam de todas as armas que têm. Eu própria demorei muito tempo a chegar à conclusão que o atual modelo económico não ajuda a maioria das pessoas: eu não sou a maioria. Eu sou da geração mais sortuda: emprego para a vida e casas baratas. De todos os jovens que aqui estão talvez dez consigam ter casa própria, da forma como os preços estão; os mesmos dez que não terão que pagar propinas; os mesmos dez com famílias como a minha, uma minoria”.

“Estamos a ser roubados duas vezes”

Até ver, David Cameron não cometeu nenhum crime: não é ilegal investir em fundos domiciliados em paraísos fiscais, desde que os lucros seja taxados no país de origem do beneficiário, como Cameron garante ter feito, mas numa altura em que o Reino Unido vive um dos períodos de maior contenção orçamental das últimas décadas, ilegal ou imoral acabam por se tornar sinónimos - pelo menos para os manifestantes.

Os cortes no chamado Subsídio Pessoal de Independência, atribuído as pessoas que necessitam de apoio financeiro, para colmatar, por exemplo, o facto de só poderem trabalhar tempo parcial por sofrerem de qualquer limitação física, deverão afetar mais de 700 mil pessoas, que terão a sua condição reavaliada segundo regras mais restritas. O governo espera poupar com esta reavaliação cerca de 4,4 mil milhões de libras (55 mil milhões de euros) Por comparação, segundo um relatório das autoridades fiscais, citado pelo diário Financial Times, a evasão fiscal custou aos cofres do estado cerca de 4.1 mil milhões de libras (50 mil milhões de euros) no ano de 2013/2014.

Além disso, Cameron havia prometido, na campanha para as legislativas de 2015, que uma das prioridades do seu governo seria “atacar a evasão fiscal, total ou parcial, e controlar os esquemas de ‘controlo e planeamento’ fiscal” quando estes se provassem demasiado danosos para as contas do estado. Para o efeito, o governo prometeu criar um registo público de quem é realmente dono de empresas britânicas. O mesmo tema voltou a ser falado na cimeira do G8, na Irlanda, em 2015 e deverá voltar aos jornais já em junho, quando Londres receber a Cimeira Anti-Corrupção.

“Estes esquemas são desenhados para confundir as pessoas. Mas o que isto significa é que o país está a ser roubado duas vezes: uma via cortes orçamentais absurdos, e outra via evasão fiscal: porque se as pessoas e empresas com grandes fortunas não pagam impostos, o país fica sem fundos para investir na educação, na saúde, nos mais carenciados etc”, diz Neil, um professor primário de Londres, de 50 anos, que não quer dar o seu último nome.

Ray Grange, “do Norte” (Leeds), tem de 57 anos, é decorador e artista plástico, e está um bocadinho mais crente: “Agora, se Cameron cair, as coisas são capazes de ficar mesmo más: o seu substituto será anti-Europa, quase de certeza Boris Johnson, e voltamos ao reinado

dos conservadores ainda mais neoliberais. A única solução para o país é que os Tories se matem nas suas lutas fratricidas , e o país eleja Jeremy Corbyn, ele é o único que pode carregar no ‘reboot’ e recomeçar o país”.

Crachás na lapela com o nome de Corbyn não faltam, nem faltam vozes de apoio ao líder do Labour que se tem mostrado um pouco mais ativo a partir dos bancos da oposição do que no início do seu mandato. Esta semana Corbyn foi uma das vozes a exigir que Cameron viesse ao Parlamento explicar o seu envolvimento na empresa offshore to pai: “Depois ter atacado estes esquemas de evasão fiscal como ‘moralmente condenáveis’, ficou provado que o primeiro-ministro beneficiou precisamente de um investimento do género”.

Mas ao mesmo tempo que as fileiras conservadoras eram despachadas para as televisões e rádios para defender David Cameron, novas, e danosas, revelações sobre os negócios de Ian Cameron iam emergindo: em primeiro lugar, a justificação de David Cameron de que o fundo criado pelo seu pai estava aberto a qualquer investidor acabou por se revelar falso: a brochura emitida pelo fundo refere que o montante mínimo de investimento ronda as 100 mil libras, 150 mil euros. Ficou também a sabe-se esta semana que a Blairmore terá pedido ao escritório de advogados Simmons & Simmons, em 2008, para ser redomiciliada nas ilhas Bermudas ou nas Ilhas Caimão. Na sexta-feira, o canal de televisão Channel 4 dava conta de uma terceira companhia offshore ligado ao pai de Cameron, que, segundo o canal, deteve 5,000 ações num fundo sediado na ilha de Jersey.

Transparência opaca

A manifestação, que contou com mais de mil pessoas, começou em Downing Street e foi desaguar, no meio de alguma violência, à conferencia de primavera dos conservadores onde Cameron pediu, num mea culpa emocionado, que o culpassem apenas a ele pela forma como lidou com a situação e não ao seu partido. Esta segunda feira o governo deverá anunciar a criação de um comité de investigação para analisar a legalidade das transações financeiras das empresas mencionadas nos ficheiros da Mossack Fonseca.

Numa tentativa de convencer o público da transparência dos seus rendimentos, Cameron libertou todas as suas declarações aos impostos dos últimos seis anos mas segundo se lê na edição de hoje do diário Guardian, as boas intenções podem ter-lhe causado ainda mais problemas: na sua declaração de rendimentos consta uma quantia de 200 mil libras (247 mil euros) “oferecida” pela mãe, 100 mil (124 mil euros)de cada vez, para evitar o pagamento de impostos sobre herança (aplicável apenas montantes superiores a 325 mil libras, 403 mil euros , que poderiam ascender a mais de 80 mil libras (100 mil euros).