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Linhas cruzadas

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Derek Hudson/ Getty

Divulgação de telefonema entre o “senhor Lula” e a “querida Dilma” expôs diferenças dos líderes e incendiou o jogo político. Como dizia Tom Jobim, “o Brasil não é para principiantes”

Por Plínio Fraga*

Lula chama Dilma “querida” e “meu amor”. Dilma chama Lula “senhor”. Esses não são os pontos mais destacados das escutas telefónicas autorizadas pela Justiça que captaram conversas entre a Presidente brasileira, Dilma Rousseff, 68 anos, e o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 70. Mas talvez sejam mais reveladores do que a articulação urdida para que Lula escapasse da jurisdição de Sérgio Moro, titular de juízo de primeira instância, e passasse a responder por alegados crimes ao Supremo Tribunal Federal.

A distância entre os vocativos “querida/meu amor” de Lula e a forma de tratamento “senhor” de Dilma é mais do que linguística. É também política porque revela o tato de um e a dureza do outro; o paternalismo de um e a submissão do outro; a estratégia afetiva de um e o isolamento racional do outro. As duas maiores lideranças do Partido dos Trabalhadores (PT), que ocupa há 14 anos o poder federal no Brasil, acham-se complementares, mas são opostos quase inconciliáveis. Um é paixão, o outro é razão. Um é potência, o outro comedimento. Um é multidão, o outro isolamento; um é do nordeste do sincretismo religioso, o outro formou-se no sul agnóstico.

Dilma nasceu da visão de Lula. Dele se distanciou, mas agora tem a sua sobrevivência a ele novamente atada. As suas linhas estão cruzadas outra vez. Dilma diz que há anos a imprensa tenta intrigá-la com Lula, sem sucesso. Porque a sua afinidade com Lula seria total.
Coube ao juiz Sérgio Moro permitir que o país inteiro bisbilhotasse essa relação. As escutas telefónicas mostram diálogos de pessoas próximas, que se conhecem bem, mas, de algum modo, frios. O brasileiro é cordial, passional, avesso às convenções ou ao formalismo social. A definição é de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), aceite como um dos maiores intérpretes da identidade nacional. Isso é o que complica o Brasil. É um país que necessita de intérpretes.

Diferenças. Lula e Dilma, acham-se complementares, mas são opostos quase inconciliáveis. Lula é o brasileiro cordial que gosta de contar piadas sobre si e os seus. Dilma é de origem búlgara e não tem sentido de humor. O juiz Sérgio Moro (em baixo), escolheu Lula como alvo para demonstrar que ninguém está acima da justiça. Defende que para se angariar apoio popular é preciso saber usar os media

Diferenças. Lula e Dilma, acham-se complementares, mas são opostos quase inconciliáveis. Lula é o brasileiro cordial que gosta de contar piadas sobre si e os seus. Dilma é de origem búlgara e não tem sentido de humor. O juiz Sérgio Moro (em baixo), escolheu Lula como alvo para demonstrar que ninguém está acima da justiça. Defende que para se angariar apoio popular é preciso saber usar os media

fotografias Igo Estrela/Getty; read MAURICIO LIMA/AFP/Getty; Adriano Machado/REUTERS; Paulo Whitaker/REUTERS

Na convenção social brasileira, o respeitoso tratamento de senhor é cada vez mais raro. Impõe distanciamento e hierarquia. As duas conversas entre Dilma e Lula atingem, somadas, pouco mais de dez minutos. Por esses parcos minutos é possível entender a relação entre os dois nos últimos 14 anos. A primeira conversa foi gravada a 4 de março, data em que a Polícia Federal levou Lula a depor coercitivamente. Um ato pirotécnico, classificou o líder petista. A segunda é de 16 de março, horas depois de Lula aceitar tornar-se ministro da Presidente que elegeu com o seu prestígio político. Um ato piromaníaco, classificou a oposição.

Entre o estrondo do fogo de artifício do depoimento e o distúrbio incendiário da nomeação do novo ministro, a barafunda da política brasileira atingiu o seu auge. Vivem-se os Idos de Março — período historicamente propício às conspirações desde a Roma de Júlio César. Nestes dias, as conspirações são vistas dos dois lados da arena política. Os leões da oposição e leões da situação vociferam uns contra os outros. Mas os últimos estão acuados, tornando os seus movimentos mais provocativos. A ascensão de Lula ao posto de ministro da Casa Civil de Dilma, adquirindo a prerrogativa de foro especial que as autoridades dispõem no Brasil, incendiou a arena.

O juiz Sérgio Moro, 43 anos, escolheu Lula como alvo para demonstrar que, numa República, nenhum dos seus está acima da Justiça. Sério, reservado e irónico, Moro cresceu numa família de classe média de Maringá, cidade média do Paraná, no sul do país, de forte imigração europeia. Formou-se em Direito há 12 anos, numa universidade local de prestígio. Em 1996, com 24 anos, passou um concurso público para se tornar juiz federal. Fez mestrado e doutorado, ambos em Maringá, estudou na escola de Direito de Harvard e participou em programas de estudos sobre o combate à lavagem de dinheiro do Departamento de Estado norte-americano.

Debruçou-se sobre a ‘Operação Mãos Limpas’ italianas e tirou dela a sua maior lição. Para combater o sistema político-económico corrupto, é preciso angariar apoio popular, sabendo usar os media. Num artigo sobre o caso italiano em 2004, Moro exaltou os chamados “pretori d’assalto”, ou “juízes de ataque”, geração de magistrados dos anos 1970 em Itália que ganhou legitimidade ao usar a lei para “reduzir a injustiça social”, ter “posturas antigovernamentais” e muitas vezes agir “em substituição de um poder político impotente”.

Ao mirar Lula, Moro adoçou aqueles que querem encerrar um quinquénio de supremacia política petista, aniquilando o seu principal líder. Mas talvez tenha cometido um erro tático. Tomou decisões judiciais no limite legal e transformou-as em espetáculo. O problema é que, ao afastar-se da frieza da lei, entrou no campo do adversário. Há 40 anos que Lula é estrela mediática. O seu discurso de ataque a Moro foi captado nas escutas telefónicas autorizadas pela Justiça, mas parecia um canto de guerra.

“Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada, nós temos um Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado, um Parlamento totalmente acovardado, somente nos últimos tempos é que o PT e o PCdoB acordaram e começaram a brigar. Nós temos um presidente da Câmara fodido, um presidente do Senado fodido, não sei quantos parlamentares ameaçados, e fica todo mundo no compasso de que vai acontecer um milagre e que vai todo mundo se salvar. Eu, sinceramente, tô assustado com a ‘República de Curitiba’. Porque a partir de um juiz de primeira instância, tudo pode acontecer neste país”, reclamou.

Mesmo nas gravações, Lula parece estar no palanque: “Eu não quero incendiar o país! Eu sou a única pessoa que poderia incendiar esse país... E eu não quero fazer como Nero, sabe? Não quero! Sou um homem de paz, tenho família”.

Noutra escuta telefónica monitorada pela Justiça, Lula ouve o líder do Governo na Câmara dos Deputados, José Guimarães (PT-CE), reclamar do “jeito” da Presidente Dilma Rousseff, “muito caracterizadamente avesso a política”. Lula concorda. O deputado diz que, na conjuntura atual, sem Lula à frente, o Governo não se segura. “O negócio tá indirigível, não há condições. Nós temos que dar a volta por cima. Só dá para dar a volta por cima, se você tiver dentro do Governo, no dia a dia.”

Um Governo cujo líder define como indirigível parece prestes ao colapso. Mas nada é tão simples, como respondeu Lula. Nem Dilma nem o Brasil são tão simples.

É atribuída ao compositor Tom Jobim, o autor de “Águas de Março”, uma frase que regozija os seus concidadãos: “O Brasil não é para principiantes”. Há nela a graça, entendida como uma característica nacional, entremeada com a cumplicidade necessária para entender fenómenos que seriam tipicamente brasileiros. De uma certa maneira, é um desdobramento do conceito de “brasileiro cordial” tão bem aplicado por Sérgio Buarque de Holanda — a partir de uma expressão que tomou do escritor Ribeiro Couto — e tão pouco compreendido em geral. Interpretado como um elogio por decantada docilidade, a partir de estabelecimento da prioridade das relações afetivas em detrimento da razão, poucos refletem sobre a agudeza da crítica do sociólogo. O cordial ilude pela aparência. Esconde o desapreço ou a malemolência no trato das regras que compõem a civilidade.

Lula é o brasileiro cordial. Dilma é de origem búlgara. Fala uma língua que ninguém entende. Alguns, como o escritor brasileiro Campos de Carvalho (1916-2012), duvidam mesmo que exista. Em “O Púcaro Búlgaro”, Carvalho narra a hilariante expedição que tem como objetivo confirmar ou desmentir a existência do pequeno país europeu. O autor marcou-se por se dedicar a temas esdrúxulos, como a vida sexual dos perus. Dilma não tem humor algum. É rara a imagem em que sorri. Os assessores não se lembram de tê-la vista gargalhar. Nunca se riu da busca de Campos de Carvalho à terra natal dos seus pais.

Já Lula gosta de contar piadas sobre si e os seus. Afirma que um petista quando abre o frigorífico e a luz interna se acende, já começa a dar entrevista, como se estivesse sob os holofotes da televisão. Mesmos os seus episódios mais dolorosos, são narrados com graça. Conta que o pai todos os dias comprava o jornal ao ir para o trabalho, mas não sabia ler. Sabia do mundo pelas figuras e às vezes era apanhado com o jornal de cabeça para baixo, invertido.

O mito e a gestora

Lula aproximou-se de Dilma em 2002. Ela fora secretária de Energia do Rio Grande do Sul, o único estado que escapou ao racionamento de energia elétrica que o país viveu na viragem do século. O chamado “apagão” ajudou a chamuscar o final do Governo Fernando Henrique Cardoso a partir de 2001 e a eleger o oposicionista Lula no ano seguinte. Dilma, à frente do sector de energia de um estado comandado por um petista, havia acabado de se filiar ao PT. A sua identificação política era maior com o líder trabalhista Leonel Brizola, fundador do PDT, partido ao qual Dilma foi filiada por quase 20 anos.

Para entender a cabeça de Dilma, é preciso umas pinceladas sobre Brizola. Chamado caudilho, Brizola liderou o movimento pela legalidade que garantiu a posse de João Goulart, seu cunhado, em 1961. Os militares queriam impedi-lo de assumir a Presidência, mas contentaram-se em limitar os seus poderes. Em 1964, como governador do Rio Grande do Sul, Brizola encampou empresas norte-americanas, ação que instigou o Governo dos Estados Unidos a apoiar o derrube do governo constitucional brasileiro. Nacionalista, socialista e humanista, Brizola era obcecado por abrir escolas. Achava absurdo que as crianças passassem mais tempo jogando à bola na rua do que estudando. Crítico das elites brasileiras, foi sempre temido por elas. Excelente político, Brizola era péssimo administrador. Não tinha paciência nem método para as rotinas do Governo. Mas adorava palanques e comícios. Foi nessa escola que Dilma estudou.

Figuras. Dilma identificava-se mais com o líder trabalhista, Leonel Brizola (na foto ao lado de Lula). Antes de cair em desgraça José Dirceu (foto do meio) era um dos principais “generais” de Lula

Figuras. Dilma identificava-se mais com o líder trabalhista, Leonel Brizola (na foto ao lado de Lula). Antes de cair em desgraça José Dirceu (foto do meio) era um dos principais “generais” de Lula

fotografias Jamil Bittar/REUTERS

Na eleição presidencial de 1989, Brizola apoiou Lula e o apelidou de “o sapo barbudo que as elites teriam de engolir”. Apesar de acumularem atritos e discordâncias, aliaram-se novamente nas eleições de 1994 e 1998. Lula foi derrotado em ambos os pleitos por Fernando Henrique Cardoso. Em 2002, o partido de Brizola lançou um candidato próprio, mas voltou a apoiar Lula no segundo turno das eleições contra o PSDB de José Serra. Depois de quatro candidaturas fracassadas, Lula tornou-se enfim Presidente da República. Lula conheceu Dilma como um dos técnicos que preparavam suas propostas de Governo. Encantou-se com a personalidade forte e decidida. Lula pedia, Dilma entregava.

Nas propagandas da campanha eleitoral de Lula, Dilma era mera figurante. Aparecia absorta à frente de um computador, como reputada técnica da área de energia. A partir daí, construiu a imagem de que era gestora, não política. Quando czar do Governo Lula, José Dirceu ofereceu o Ministério das Minas e Energia para conquistar apoio do PMDB ao novo Presidente. Acordo feito, Lula o atropelou. Escolheu Dilma para ministra das Minas e Energia sem ouvir nenhuma das lideranças partidárias que o apoiavam. Dirceu ficou furioso com Lula e com Dilma, a quem tratava como técnica de segundo escalão.

Nos primeiros meses do Governo Lula, Brizola rompeu com o Presidente e desencantou-se que Dilma o tivesse trocado pelo petista como mentor. No segundo ano de mandato de Lula, Brizola morreu. Dilma disse que sentiu a dor de quem perde um pai. O Presidente Lula chegou consternado ao velório de Brizola, realizado no Palácio Guanabara, sede do governo do Estado do Rio, por duas vezes dirigido por ele. A multidão rompeu o silêncio respeitoso ao notar a chegada de Lula. Entoou um velho samba, com Lula em frente ao caixão de Brizola: “Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão”.

A escolha

Uma série de escândalos sobre a compra de parlamentares para aumentar a sustentação no Congresso do Governo Lula levou à derrubada de José Dirceu e de Antônio Palocci. Depois de Lula, eram as duas maiores estrelas petistas. “Meus generais”, era como o Presidente se referia a eles. Outra vez sem consultar aliados, Lula escolheu Dilma para assumir a Casa Civil, o centro nervoso e político do seu ministério. “Foi um daqueles lampejos que Lula tem sozinho. Todos duvidavam que daria certo. Mas deu. E o mérito único e exclusivo foi dele ao descobrir a tia”, disse Gilberto Carvalho, amigo e ministro mais próximo de Lula. Tia é como Gilberto chama a Dilma. Lula prefere referir-se a ela pelo diminutivo carinhoso: “A Dilminha é danada”, repetia.

Dilma Rousseff tornou-se na prática a candidata do Presidente Lula à sua sucessão a 8 de novembro de 2007, relatam seus assessores. O Presidente, então com apenas 11 meses de seu segundo mandato, decidiu que caberia a Dilma, ministra da Casa Civil, anunciar e capitalizar politicamente a confirmação da descoberta do campo de petróleo de Tupi, capaz de colocar o Brasil entre os quatro maiores produtores do mundo.

“A descoberta de grande reserva de petróleo e gás na bacia de Santos eleva o Brasil para a elite mundial “, disse Dilma no auditório da Petrobras, sem Lula. Era um balão de ensaio do marqueteiro João Santana. Queria saber como Dilma, tida como pouco flexível e de expressão discursiva tortuosa, se saía na comunicação de governo. A ideia parecia desastrosa. Poucos a conheciam. O seu nome aparecia em último lugar nas pesquisas eleitorais. Só Lula dizia que Dilma tinha futuro político.

Colocou sob a sua gerência as maiores obras públicas do Governo, centralizadas no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Num discurso no complexo de favelas do Alemão, Lula chamou Dilma “mãe do PAC”. Aos poucos, Dilma mudou a sua imagem. Saíram os óculos de armação escura e surgiu o topete à la Carolina Herrera. Em quatro meses de campanha em 2010, carregada pela popularidade de Lula, Dilma venceu a eleição e se tornou a primeira mulher Presidente do Brasil.

A mulher dura e os meigos

Nos dois primeiros anos do seu primeiro mandato, chegou a superar Lula em popularidade. A primeira equipa ministerial tinha a cara dos dois. Dos 37 ministros, 15 tinham sido indicados por Lula. Aos poucos, Dilma soltou-se. Reduziu as consultas e conversas com Lula. Ficou famosa por fazer cobranças duras. Alguns auxiliares choraram ao ouvi-la esbravejar. Humoristas começaram a fazer piadas sobre os famosos “esporros” da Presidente. “Sou uma mulher dura, cercada por homens meigos”, justificou-se Dilma.

Assessores reúnem exemplos de que Dilma age como se ainda estivesse na militância política clandestina. Dizem que a cabeça dela segue como se vivesse numa célula, como se continuasse mantida num aparelho clandestino, imóveis nos quais os guerrilheiros se abrigavam. Dilma teme as traições dos seus e sofre se é surpreendida pelos adversários. No geral, acha que os empresários são abutres e os políticos picaretas, queixou-se um ministro por ela escorraçado. Apesar disso, o Governo seguia bem avaliado, até ser atropelado pela juventude e suas redes sociais.

Em junho de 2013, milhões de jovens foram às ruas protestar a partir de convocações feitas na internet. Primeiro questionavam o aumento do preço das passagens de ônibus. Depois, pediam reformas na educação e criticavam os gastos públicos para a realização da Taça do Mundo de 2014. A popularidade de Dilma caiu de um mês para o outro. Nunca mais recuperaria.

Conseguiu a reeleição para Presidente por margem apertada. Mas os tempos de bonança económica passaram. A gestora enrolou-se no comando da própria gestão. Para assegurar a reeleição, diminuiu o preço da energia elétrica, em tempo de escassez de água nas hidroelétricas. Recusou-se a passar a variação dos preços do petróleo, e o Brasil usou em 2014 uma das gasolinas mais baratas do mundo. Dilma venceu, mas o Brasil quebrou. O desemprego, que era o menor da história, triplicou. Os rendimentos dos trabalhadores, depois de níveis recordes, caíram. A produção das indústrias, antes à força total, desabou. A recessão chegou implacável. O Governo manteve gastos altos, mas a arrecadação reduziu-se. Sem receitas, o segundo mandato do Governo Dilma entrou em colapso no seu primeiro ano.

As investigações da ‘Operação Lava-Jato’, iniciadas em março de 2014, expuseram a corrupção bilionária na maior empresa brasileira, a Petrobras. Um juiz desconhecido do Paraná comandou a maior punição à elite política e empresarial brasileira, a partir da investigação de crimes que usaram uma reles empresa de lavagem de carros para ocultar dinheiro obtido por corrupção. O juiz Sérgio Moro puxou um fio sem imaginar que, atrás dele, enrolavam-se os maiores grupos económicos e políticos do país.

Lula assustou-se com as investigações abertas sobre ele, comandadas pelo Ministério Público, órgão de investigação independente, e pela Polícia Federal, subordinada ao Ministério da Justiça, mas linha auxiliar do Ministério Público. Lula queixou-se de que ninguém controlava a Polícia Federal, que vive o auge do seu prestígio. O japonês da federal, agente de origem nipónica que escolta presos da ‘Lava-Jato’, tornou-se até tema de marchas de Carnaval.

Lula passou a culpar a falta de cintura de Dilma pelo desmoronamento do Governo petista e do seu legado. Queria que Dilma tivesse mais maneio, para dançar como exige a música da política. Mas faltava-lhe traquejo para tal. Lula e Dilma reconstituíram a formação de cada um para descobrir que não estudaram na mesmo escola.

O passado

Em 1966, o irmão sindicalista de Lula, aos 21 anos, queixava-se de que ele só queria namorar. Não participava das lutas sindicais e resistia a aceitar a sua indicação para a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Era um alienado. Dilma, aos 19, já era militante estudantil e integrava organizações de esquerda que combatiam a ditadura militar. Engajou-se a partir de então em atividades clandestinas, sem, no entanto, tomar parte em ações de combate. Em 1970, Dilma foi presa e torturada. Ficou três anos confinada. Lula começava a sua carreia como sindicalista.

Lula assumiu a liderança da luta contra a ditadura a partir de 1978. Com as greves dos metalúrgicos da região do ABCD, na região industrial de São Paulo parou o país. Fundou o Partido dos Trabalhadores e a Central Única dos Trabalhadores, a maior confederação de sindicatos do país. Dilma refugiara-se em Porto Alegre, em discreto papel de militância.

É dessa época uma entrevista em que, assim como o regime militar, um repórter tentava delimitar Lula ideologicamente. “O senhor é leninista?”, perguntou o jornalista. “Não, sou torneiro mecânico”, respondeu. Dilma não: sempre se disse socialista convicta.

Nascida em Belo Horizonte, Dilma estudou nos colégios das boas famílias. Após a militância clandestina e a tortura, refugiou-se em Porto Alegre num bairro chamado Tristeza. Foi o máximo que dela conheceu.

Lula já enfrentava uma série de boatos, que contestavam, além das suas motivações ideológicas, a sua origem pobre. O mais célebre deles era que vivia numa mansão no bairro do Morumbi, onde se erguem as casas das elites paulistanas. Em 1979, aceitou o convite de uma revista para ir à boîte Gallery, então um ícone dos ricos paulistas. Atacado, disse: “Eu quero que todo operário ganhe o suficiente para frequentar o Gallery”. Nesse mesmo ano, já era questionado sobre uma mudança no seu estilo de roupa e cobrado por usar terno e gravata: “Todo operário gostaria de andar bem vestido. Se eu pudesse, andaria sempre bem vestido”.

Lula é um pragmático e um apaixonado pelos debates em assembleia — de operários, de militantes, de políticos. Mais do que tomar atitudes a partir de teses ou de documentos técnicos, prefere reunir os opostos e chegar a um ponto de convergência em conversas longas. Lula vê isso como uma qualidade, apesar da crítica de que não sabe tomar decisões —uma necessidade básica da rotina administrativa. Lula sempre foi negociador; Dilma, combatente.

Lula na companhia de Fernando Henrique Cardoso que viria a ser Presidente do Brasil entre 1995 e 2003. O líder do Pt entregou a Dilma a gestão das maiores obras públicas do Governo, centralizadas no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Antes do Mundial de Futebol 2014 os brasileiros saíram à rua em protesto contra o Governo de Dilma. A Presidente nunca mais recuperou

Lula na companhia de Fernando Henrique Cardoso que viria a ser Presidente do Brasil entre 1995 e 2003. O líder do Pt entregou a Dilma a gestão das maiores obras públicas do Governo, centralizadas no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Antes do Mundial de Futebol 2014 os brasileiros saíram à rua em protesto contra o Governo de Dilma. A Presidente nunca mais recuperou

fotografias Getty; Adriano Machado/Bloomberg; Alexandro Auler/Getty

Dilma é exigente. Adora relatórios, detesta reuniões. Impacienta-se com assessores prolixos. Manda mais do que consulta. Fala mais do que ouve. Nas horas longe da Presidência, prefere jogar cartas e assistir a filmes no Palácio da Alvorada. Uma rotina suave e silenciosa perto dos churrascos e partidas de futebol com os quais Lula agitava a residência oficial do Presidente.

Dilma cresceu com a proteção económica e social e a pretensão das famílias de classe média. Lula costuma dizer que tinha tudo para dar errado na vida. Deu certo, apesar de todos os prognósticos contrários. O retirante pernambucano cresceu na pobreza de uma família desestruturada. A primeira mulher, grávida, morreu num hospital público. Marisa, o segundo matrimónio, fora casada com um taxista assassinado, cujo carro passou a ser dirigido pelo pai, também assassinado. Como dirigente sindical, Lula comandou duas greves históricas que o projetaram nacionalmente. Ambas resultaram em perdas financeiras para os grevistas, mas isso se perdeu no tempo.

Lula parecia seguir para a aposentadoria política, assistindo sem compromisso o Governo de Dilma ruir. Dizia que a aconselhava, mas que ela não o ouvia. Apostava-se que estavam próximos do rompimento. As investigações da ‘Lava-Jato’ começaram a questionar alegados bens de Lula, como um sítio e um apartamento tríplex à beira-mar. Estaria a ocultar património. Ao ser conduzido a depor à força por ordem do juiz Sérgio Moro, ganhou argumento político para ir às ruas. “Se quiseram matar a jararaca, não fizeram direito, pois não bateram na cabeça, bateram no rabo, porque a jararaca está viva”, resumiu ele.

É difícil especular como ele sairá das encrencas em que se meteu. Assim como o destino o ajudou, os seus adversários parecem aliados quando o lançam para o campo que mais conhece. O da oratória política, em que os factos valem menos do que a narrativa dos factos.

O ex-Presidente transformou a humilhação e as suspeitas que recaem sobre ele numa verdadeira festa. Reunificou o PT com a sua militância, levando milhares de pessoas às ruas em sua defesa na sexta-feira, 18 de março. Mobilizou menos gente do que aqueles que querem a saída de Dilma e sua prisão levaram às ruas no domingo, 13. Mas Lula tirou da luz a questão jurídico-policial em jogo. Apareceu vibrando nas ruas, dizendo que quer paz e esperança. A Presidente até então só repetia que nada de desabonador foi encontrado contra ela. Mantinha-se discreta, apesar de uma vez por outra cutucar os delatores da ‘Lava-Jato’. Fingia que governava despreocupada. Coube a Lula movimentar as hostes governistas, ao ser arrastado por Moro para o centro das investigações.

Ao ser ameaçado de prisão e ter divulgadas conversas privadas, vestiu o papel que sempre manejou com talento. O de pobre vitimado pelo preconceito das elites. Ao responder a procuradores da ‘Lava-Jato’, que listaram vinhos preciosos da sua adega, Lula mostrou sua verve. No auge da mais grave crise da história recente, Lula amaciou a audiência com humor. Contou em rede nacional, por exemplo, a história do decanter, ou “decânti”, como ele pronunciou a palavra, que ganhara de presente. Disse que não sabe diferenciar um Miolo, vinho brasileiro de um punhado de reais, de um Romanée Conti, de milhares de dólares. Alguém o presenteou com o tal decanter, e uma assessora, sem saber do que se tratava, utilizou-o como se fosse um vaso de flores. As “elites”, prosseguiu Lula, não se conformam em ver um operário sem instrução chegar ao poder.

Dívida com as elites

É de novo a perseguição das elites a arma que Lula usa para dar a volta por cima. Há chances grandes de que fracasse. Pode ser preso e ver o impeachment de Dilma e o sepultamento do PT e suas chances eleitorais. Cumpriria o princípio bíblico, tão caro às bases católicas petistas, de que do pó vieste e ao pó retornarás.

O prognóstico é difícil, mas, se algo der certo, Lula barra os processos que o incomodam. Com um pouco mais de sorte, pode ser ele o líder a derrubar no Congresso o processo de impeachment que ameaça destituir Dilma da Presidência. Se tudo der certo, Lula aplainou o caminho para disputar com possibilidade de vitória a eleição presidencial de 2018. Em maior ou menor grau de sucesso, deverá às elites sua segunda chance. E a de Dilma também.

Quando sindicalista, Lula dizia ter preguiça de ler. No remanso posterior a duas passagens pela Presidência, passou a dedicar-se mais aos livros, em especial a biografias ou romances históricos. Um dos livros que disse ter lido recentemente foi “Vida e Destino”, de Vassili Grossman (1905-1964), que lhe foi oferecido pelo ex-ministro Franklin Martins.

Uma das muitas passagens magistrais do livro do autor russo pode levar o ex-Presidente a meditar: “Os homens bons e maus são igualmente capazes de fraqueza. A diferença é que um homem mau vai ter orgulho toda a sua vida de uma boa ação, enquanto um homem honesto dificilmente vive consciente de seus bons atos, mas se lembra de um único pecado por anos a fio”.

*Foi editor de política e repórter especial dos jornais “Folha de São Paulo”, “Jornal do Brasil”, “O Globo” e da revista “Piauí”. Lança este ano uma biografia sobre o ex-Presidente brasileiro Tancredo Neves.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 25 março 2016