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De Stanley Kubrick a Pedro Almodóvar: as celebridades envolvidas no filme Panama Papers

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"2001: Odisseia no Espaço" é um dos filmes mais conceituados do realizador Stanley Kubrick

JULIO CESAR AGUILAR

Os famosos realizadores de cinema, os futebolistas Willian e Messi, o criador de programas de ídolos da música Simon Cowell e o “rei” Roberto Carlos figuram entre as celebridades citadas em documentos da sociedade de advogados panamiana Mossack Fonseca

Barack Obama sublinhou esta semana que o "problema" com as revelações do caso Panama Papers é que muitas das manobras fiscais referidas não são ilegais. As informações e registos contidos nos mais de 11,5 milhões de documentos da sociedade de advogados Mossack Fonseca, com sede no Panamá, que começaram a ser revelados no domingo pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) — de que o Expresso é parceiro —, mostram como a empresa ajudou políticos e milionários de todo o mundo a criar empresas offshore. Mas ter dinheiro e património declarado em paraísos fiscais, por si só, não é um crime.

Relembra o "The Guardian" que, durante os anos 70, colocar fortunas offshore era uma forma de contornar os estritos controlos cambiais impostos ao redor do mundo. Na altura, era mais fácil para um banco comprar e vender dólares se essas trocas fossem executadas fora dos países onde estavam sediados. Sem esquecer que, para uma pessoa ou empresa instalada num país cujo governo à data pudesse querer congelar os seus bens, os paraísos fiscais eram uma alternativa para proteger esses bens.

A indústria offshore mudou muito desde essa época e não tem sido raro ouvir líderes políticos e instituições e organizações transnacionais a pedir mais transparência no setor, para evitar crimes económicos como os que parte dos documentos da Mossack Fonseca revelam — lavagem de dinheiro, fuga aos impostos e por aí fora.

Não sendo ainda certo quais destas pessoas cometeram ou não crimes, eis uma lista de algumas das celebridades cujos nomes já apareceram citados na maior fuga de informação da história:

STF

Stanley Kubrick

O famoso realizador norte-americano viveu grande parte da sua vida em semirreclusão numa mansão do século XVIII em Hertfordshire, em cujo terreno foi sepultado após a sua morte em 1999. Segundo documentos da Mossack Fonseca, quando Kubrick morreu o registo de propriedade foi transferido para três empresas offshore detidas pelas suas filhas nas Ilhas Virgens britânicas.

Esta ação poderá ter ajudado a família a evitar pagar milhares de libras de impostos sobre herança no Reino Unido, embora os documentos até agora analisados não revelem se assim foi. Pelo contrário, o que os registos da sociedade panamiana revelam é que a família Kubrick criou uma complexa rede de empresas offshore para albergar a sua fortuna e bens, incluindo os lucros de alguns dos filmes de Kubrick, conhecido por verdadeiros monumentos cinematográficos como "Full Metal Jacket", "The Shinning" e "2001: Odisseia no Espaço".

A mansão de Hertfordshire continua a ser detida pelas empresas Anya K Holdings Ltd, Vivian K Holdings Ltd e Katharina K Holdings Ltd, detidas pelas filhas de Kubrick: Anya, que morreu em 2009, e Vivian, e pela sua enteada Katharina.

Simon Cowell

O produtor musical e magnata, conhecido pela criação de famosos programas de televisão como o "The X-Factor" e o "American Idol", que foram exportados para todo o mundo, também surge ligado à Mossack Fonseca. É o único acionista de duas empresas registadas nas Ilhas Virgens britânicas, a Southstreet Limited, criada fevereiro em 2007, e a Eaststreet Limited, fundada em outubro desse ano. Ambas foram registadas com a ajuda da sociedade de advogados panamiana numa altura em que Cowell planeava comprar dois terrenos nas Barbados, onde passa férias todos os anos.

Estes terrenos integram uma área maior que fica próxima do hotel Sandy Lane, onde várias celebridades mundiais ficam hospedadas quando viajam até à ilha mais oriental do Caribe. O compositor Andrew Lloyd Webber e o antigo patrão da Fórmula 1 Eddie Jordan também estiveram envolvidos na compra de terrenos nessa zona, mas nenhum deles é citado nos Panama Papers, nem é sabido que detenham empresas offshore.

"As empresas foram criadas não pelo meu cliente mas por contabilistas que o representaram num negócio de investimento no estrangeiro que envolvia a compra de propriedade nas Barbados", reagiu o porta-voz de Cowell. "O meu cliente, contudo, preferiu comprá-las de forma transparente e em seu nome. Por essa razão, as empresas nunca foram usadas para nada. Posso também confirmar em nome do meu cliente que ele nunca usou quaisquer empresas offshore para quaisquer objetivos."

Usar uma empresa offshore para deter propriedade nas Barbados permite contornar o pagamento de imposto de selo de cerca de 1% e impostos de transferência de propriedade a rondar os 25% quando o terreno é vendido. Não existem dados que comprovem que Cowell, cuja fortuna está avaliada em cerca de 400 milhões de euros, tenha beneficiado destes esquemas. "Sempre que sou criticado pelo que faço, digo que pago os meus impostos e isso ajuda, tenho muito orgulho nisso, aqui e em todo o mundo", garante o magnata.

Paul Gilham/GETTY

Willian

De acordo com os Panama Papers, a estrela de futebol era o único accionista de uma empresa com sede nas Ilhas Virgens britânicas, chamada Saxon Sponsoring Limited, que foi criada em setembro de 2013, um mês depois de ter assinado com o Chelsea.

Um porta-voz do futebolista brasileiro diz que essa empresa esteve adormecida até ser encerrada em 2015. "A Saxon foi incorporada antes de Willian ter ido para o Chelsea FC e não foi utilizada desde a sua chegada ao Reino Unido", disse o porta-voz. "Depois foi liquidade e dissolvida e assim que Willian chegou ao Reino Unido, a Saxon não esteve ativa nem recebeu quaisquer pagamentos."

Messi

O internacional argentino já tinha estado no centro de uma investigação de corrupção em Espanha antes de o seu nome aparecer nos Panama Papers. De acordo com documentos internos da empresa de advogados, o futebolista comprou a empresa Mega Star Enterprises Inc., com sede no Panamá, um dia depois de a Justiça espanhola ter aberto essa investigação a Messi e ao seu pai por fuga aos impostos, num total de 4,1 milhões de euros.

A compra dessa empresa a 13 de junho de 2013 foi negociada entre a empresa uruguaia Abreu, Abreu & Ferres, em nome do seu cliente, e uma sucursal da Mossack Fonseca em Montevideu. O jornal "El Confidencial" foi o primeiro a revelar o envolvimento de Messi com a Mossack Fonseca, sublinhando o timing da aquisição da Mega Star Enterprises e o seu historial de fuga ao fisco. Por causa disso, oo jogador do Barça já disse que vai processar o jornal espanhol por difamação.

Getty Images

Sarah Ferguson, duquesa de York

Os documentos da Mossack Fonseca revelam muito sobre as finanças da ex-mulher do príncipe Andrew. Cartas trocas entre os seus representantes e a sociedade de advogados mostram, entre outras coisas, as complexas negociações em torno da empresa Essar Company Inc., criada nas Ilhas Virgens britânicas em maio de 2000, para que a duquesa gerisse o seu dinheiro offshore.

Em setembro de 2001, os solicitadores de Sarah Ferguson, os Clintons, escreveram à Mossack Fonseca para perceberem de que forma é que essa empresa tinha sido estruturada. "Fomos contratados por ela há pouco tempo e estamos a tentar perceber quem são os diretores da empresa e quem são os beneficiários da empresa", lê-se numa das cartas, onde reconheciam que o secretismo em torno da Essar Company Inc. era tal que até eles não conseguiam perceber quem eram os proprietários e os diretores dessa empresa. "Sabemos que esta é uma informação que não podem revelar-nos sem autorização prévia. Informem-nos por favor, e com urgência, que tipo de autoridade é necessária para que possam fornecer-nos esta informação."

Reagindo aos Panama Papers, o porta-voz de Sarah Ferguson declarou ao "The Guardian": "A Essar Company Inc. foi criada por sócios que queriam aproveitar oportunidades de propriedade com a duquesa. Se qualquer propriedade intelectual tivesse gerado rendimentos, ganhos ou outros lucros, tal teria sido divulgado pela duquesa na sua declaração de rendimentos."

Desde que se divorciou do príncipe Andrew, Ferguson acumulou cerca de dois milhões de libras (2,48 milhões de euros) por ano por uma série de trabalhos, incluindo como embaixadora dos Weight Watchers. Com o colapso da Hartmoor, a sua empresa de lifestyle e bem-estar com sede nos Estados Unidos, a duquesa perdeu 3,2 milhões de libras (3,97 milhões de euros).

O seu porta-voz garante que ela sempre declarou todo o dinheiro e património ao fisco britânico.

Yuri Kochetkov/EPA

Jackie Chan

O famoso ator de Hong Kong é, de acordo com os Panama Papers, detentor de pelo menos seis empresas offshore, todas sediadas nas Ilhas Virgens britânicas. Entre elas contam-se a Jumbo Jazz Investment, a Jackie Chan Ltd e a Dragon Stream Ltd.

A estrela de filmes de artes marciais ainda não reagiu publicamente ao seu envolvimento com a Mossack Fonseca. O Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) já sublinhou que, dos documentos já analisados, nada sugere que qualquer destas empresas offshore tenha sido utilizada de forma ilícita.

Pedro Almodóvar

O realizador de cinema esteve ligado a uma empresa chamada Glen Valley Corporation, que operou entre 1991 e 1994. Dois funcionários da Mossack Fonseca assumiram os cargos de direção dessa empresa após Almodóvar ter conseguido uma procuração para deter o total controlo sobre essa companhia.

Esta quarta-feira, após ter visto o seu nome envolvido no escândalo Panama Papers, o realizador cancelou uma conferência de imprensa de apresentação do seu mais recente filme, "Julieta", no que foi lido como temor pelo escrutínio das suas finanças. Apesar de se ter recusado a comentar o assunto até agora, o seu irmão, que também detinha uma procuração para gerir a mesma empresa, disse aos media espanhóis que se viram forçados a encerrá-la "porque não se enquadrava na forma como trabalhamos".

Agustín Almodóvar pediu ainda desculpa pelos "danos causados à imagem pública" do irmão "apenas pela minha falta de experiência nos primeiros anos de negócio familiar", declarando: "De qualquer forma, antes que surjam quaisquer insinuações a partir da informação que têm, quero sublinhar que tanto o Pedro como eu cumprimos com as nossas obrigações fiscais."

KAZUHIRO NOGI

Bobby Fischer

O campeão mundial de xadrez, falecido em 2008, recebeu uma procuração em outubro de 2007 para a Kettering Consultants Inc., o que lhe deu total controlo sobre a empresa sediada no Panamá e gerida pelo Landsbanki Luxembourg SA.

Considerador por muitos como o melhor jogador de xadrez de sempre, o norte-americano admitiu em 1992 que não pagava impostos nos Estados Unidos desde 1976. A explosiva declaração surgiu após as autoridades americanas o ameaçarem com até 10 anos de prisão e uma multa de 250 mil dólares por ter ido até à Jusgoslávia para disputar uma partida de xadrez com o seu arquirrival Boris Spassky. Fischer tinha derrotado o russo no campeonato mundial de 1972 disputado na capital da Islândia. Para a desforra, o americano foi até à antiga Jugoslávia, que na altura estava sujeita a sanções dos EUA, para disputar o prémio de cinco milhões de dólares (4,39 milhões de euros).

Em março de 2005, a Islândia concedeu-lhe cidadania e foi ali que morreu em 2008, três meses depois de lhe ter sido passada a procuração sobre a Kettering Consultants. A empresa era "propriedade" de quatro acionistas ao portador, o que permite o anonimato dos verdadeiros proprietários, aumentando o grau de secretismo em torno das suas atividades. Viria a ser encerrada em 2012.

JUSTIN TALLIS

Heather Mills

De acordo com documentos da Mossack Fonseca, a ex-mulher de Paul McCartney era uma das acionistas da offshore Water 4 Investment Ltd, originalmente criada para desenvolver tecnologia que extraísse ácidos gordos essenciais de óleo de peixe encontrado em algas, para assim criar "comida saudável". Mills garante que esse investimento acabou numa longa batalha legal, que a levou a perder uma soma de "sete algarismos".

Mills detinha 100 ações da empresa sediada nas Ilhas Virgens britânicas, com as outras 898 na posse de outro investidor, mas garante que o investimento acabou por falhar. "Posso dizer com a mão no peito que não vão encontrar nada se me investigarem a fundo", disse em comunicado citado pelo "The Guardian". O seu porta-voz acrescentou: "Heather investiu um milhão de libras (1,24 milhões de euros) na empresa que pretendia usar algas em vez de peixe para recolher óleos com Ómega 3, preservando assim o ecossistema marinho."

Em 2008, a ex-modelo recebeu 24,3 milhões de libras (30,1 milhões de euros) num acordo de divórcio com o ex-Beatle.

Jeff J Mitchell

Mark Thatcher

O filho de Margaret Thatcher surge numa lista de beneficiários de um fundo de investimento que é proprietário de uma residências nas Barbados, onde a família da antiga primeira-ministra do Reino Unido passava férias todos os anos.

O fundo, que é gerido por uma offshore chamada Harbour Trust, detém uma empresa nas Ilhas Virgens Britânicas, a Calva Holdings Limited que, por sua vez, detém outra empresa com sede no mesmo paraíso fiscal que é a proprietária dessa casa.

Numa mensagem enviada à Mossack Fonseca, os gestores da empresa disseram: "Este fundo tem mantido uma longa relação com a Harbour e somos extremamente cautelosos na hora de manter a confidencialidade do cliente, o que certamente apreciam e apoiam." Thatcher ainda não reagiu às revelações.

Reuters

Mario Vargas Llosa

Documentos da Mossack Fonseca mostram que o escritor peruano foi, durante um mês, acionista de uma empresa offshore nas Ilhas Virgens britânicas, a Talome Services Corp., juntamente com a sua mulher.

Vários emails filtrados pelo "El Confidencial", parceiro do ICIJ, mostram que um representante de Vargas Llosa pediu aos advogados da sociedade panamiana que retirassem o escritor e a sua agora ex-mulher da lista de accionistas a 6 de outubro de 2010, um dia antes de o escritor ter sido laureado com o Nobel da Literatura.

Em comunicado, o agente literário de Vargas Llosa disse que nem ele nem a sua mulher tiveram qualquer contacto com a Mossack Fonseca, adiantando que o escritor cumpriu sempre com as suas obrigações fiscais em Espanha e noutros países.

Frazer Harrison

Roberto Carlos

Os registos de uma empresa que tem o cantor brasileiro como acionista surgem entre os 11,5 milhões de documentos da Mossack Fonseca. A offshore dá pelo nome de Happy Song e, quando foi criada em 2011, tinha como seus diretores três parceiros profissionais de longa data de Roberto Carlos: Reynaldo Ramalho, José Carlos Romeu e Marco Antonio Castro de Moura Coelho. O nome do cantor passou a constar dessa lista em 2015.

Nos registos já filtrados da sociedade de advogados panamiana, não existem informações sobre as atividades da empresa, cujo intermediário é uma firma de consultoria com sede no Uruguai chamada Baker Tilly. Em reações ao caso, os assessores do "rei" Roberto (como é conhecido no Brasil o popular cantor e compositor, cujas vendas de discos e CD em todo o mundo ultrapassam os 120 milhões de cópias) garantiram que a offshore está "devidamente declarada" à Receita Fiscal do Brasil.

"Para desenvolvimento e manutenção dessa íntegra e sólida carreira, das diversas atividades correlatas, e por questões estratégicas do negócio, o sr. Roberto Carlos efetua investimentos em empresas no Brasil e no exterior, inclusive onde permanece de três a quatro meses por ano, aproximadamente, por força de suas turnês e compromissos com gravadoras, distribuidoras, empresas de mídia televisiva e impressa", disseram os seus porta-vozes em comunicado.