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Vai um “passeio de barco” da Turquia para Itália? Opções desde €6000 por cabeça

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MARKO DJURICA / REUTERS

As redes sociais estão cheias de ofertas de alternativas à rota dos Balcãs por terra, via Bulgária, ou por ar, em direção ao Sudão, à Líbia ou Itália. Este é o grande negócio que os traficantes de seres humanos fazem cada vez mais às claras. Rotas mais perigosas e preços mais altos marcam a tendência

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

"Oferecemos passeios de barco da Turquia para Itália por 6000 euros por pessoa", propõe um contrabandista turco, competindo com outros anúncios que pedem 4500 euros por cabeça com partidas de Mersi, também na Turquia. A divulgação dos "passeios" é feita através das redes sociais e a subtil diferença relativamente aos destinos anteriormente anunciados é o preço: da costa turca para as ilhas gregas mantém-se a tarifa 700 euros...

Esta é a nova realidade das rotas de tráfico de seres humanos que continuam a prometer a Europa a requerentes de asilo e migrantes, ainda que já não a preço de "saldo", como descreve uma reportagem publicada no site da revista alemã "Der Spiegel".

Mais caros e mais arriscados, a oferta de "passeios" multiplica-se, apelando com particular atenção às famílias. Um contrabandista que diz chamar-se Abu Wail oferece nas redes sociais uma série de novos pacotes, agora mais caros: "Meus irmãos sírios e iraquianos na Turquia. Como haveremos de contornar os problemas na Grécia e na Macedónia, bem como o risco da travessia marítima? Existe a possibilidade de viajar de forma segura e confortável de automóvel, sem ter de dar um passo a pé, partindo de Istambul em direção a Sofia, na Bulgária". O preço surge de seguida: 2500 euros por adulto, 1250 euros por criança até aos dez anos, gratuito para menores de quatro anos.

Ofertas variadas com opções flexíveis

A panóplia de alternativas é considerável, descreve o "Spiegel Online". Aquele tarifário é válido até Sófia, mas quem estiver disposto a fazer parte do percurso a pé pode pagar 1800 euros. As viagens da Grécia para a Alemanha custam entre 2500 e 3000 euros por cabeça.

Após o encerramento das fronteiras terrestres nas quais terminava a rota dos Balcãs, os contrabandistas propõem voos a partir do Líbano, Síria e Jordânia em direção ao Sudão, Líbia e Itália. E fazem-no às claras, acessíveis nas redes sociais, descrevendo o Sudão como um país grande, aonde é fácil chegar sem visto e sem que isso comprometa o prosseguimento do percurso.

"Qual é a melhor rota?", "A fronteira com a Grécia vai reabrir?", "Quantos estão a entrar agora através da Grécia?" – perguntas como estas fazem-se e respondem-se em grupos de Facebook de utilizadores de língua árabe. São pessoas que querem vir para a Europa e que procuram respostas a estas dúvidas.

Quem as faz não tem bem a noção de que a União Europeia e a Turquia assinaram um acordo no início de março, nem quais são os termos e as condições que têm por fim parar o fluxo de entrada de requerentes de asilo na Europa. Sabem apenas que as condições mudaram. As imagens das pessoas encurraladas em campos e em Idomeni, na fronteira da Grécia com a Macedónia, correram o mundo.

A Organização Mundial das Migrações (IOM na sigla inglesa) atualizou os dados e revela as tendências desde 20 de março, o dia em que entrou em vigor o acordo de devolução para a Turquia de migrantes e requerentes de asilo que tenham entrado ilegalmente na União Europeia. Os recém-chegados após aquela data implicaram a um aumento do tráfego de 700% via Itália, de 387% via Bulgária e mais 270% via Chipre, mantendo-se igual a percentagem via Grécia, 24%. E é normal que se registe um aumento destes números no início da primavera, sublinha a IOM.

União Europeia propõe revisão das leis de asilo

As autoridades de Bruxelas programam anunciar esta quarta-feira as esperadas propostas de alteração à lei europeia de asilo. As leis atuais, que são conhecidas como acordo de Dublin, datam de 1990 e exigem que os refugiados peçam asilo no primeiro país da União a que cheguem. O sistema tem sido posto à prova ao longo dos anos, como lembra o diário "The Guardian", e foi ultrapassado quando, no ano passado, a chanceler alemã declarou que todos os refugiados sírios seriam considerados aptos a pedir asilo na Alemanha.

A Comissão Europeia vai propor duas opções que terão de ser aprovadas pelos Estados-membros, revela o "The Guardian", que teve acesso às propostas: mantém-se a ideia de deixar cair o acordo de Dublin, o que obriga a que entre em vigor um sistema de recolocação obrigatória de requerentes de asilo segundo a riqueza do país e a capacidade de absorver pessoas. Uma segunda opção manteria as regras existentes de Dublin, acrescentando um "mecanismo de redistribuição justo" para que os refugiados possam ser divididos para aliviar a pressão dos países da frente.

Este mecanismo terá por base aquele que foi acordado no ano passado e que prevê a recolocação de 160.000 refugiados sírios pelos Estados-membros. Em seis meses, apenas mil pessoas foram recolocadas, o que põe em questão a eficácia da solução.