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O aborto matou a candidatura de Donald Trump?

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JASON SZENES/EPA

Alguns vaticinam que sim, depois de o líder da corrida à nomeação republicana ter sido obrigado a voltar atrás nas suas promessas de ilegalizar as interrupções de gravidez e de prever na lei punições para as mulheres que o pratiquem. Esta noite há primárias no Wisconsin com um vencedor antecipado. Esse vencedor não é Trump e, para gáudio de (quase) todos, isso aumenta as probabilidades de uma convenção aberta em julho

Donald Trump colapsou nas mais recentes sondagens nacionais para as presidenciais norte-americanas de novembro. Apesar de continuar a gabar-se publicamente de que aparece à frente de Hillary Clinton em vários dos inquéritos que tentam antever os resultados das eleições, os números contam outra história. E essa história resume-se a isto: nos últimos dois meses, das 33 sondagens nacionais de intenção de voto, Trump só apareceu à frente da ex-Secretária de Estado em uma. E a diferença de votos a separar o líder da corrida republicana do potencial rival democrata é ainda maior quando se coloca a possibilidade de vir a disputar a presidência não com Clinton mas com Bernie Sanders, o senador do Vermont que é o outro único candidato à nomeação democrata.

Os 33 inquéritos referidos não foram levados a cabo na última semana, desde que Donald Trump parece ter efetivamente assinado o fim da sua candidatura. Numa altura em que sondagens de intenção de voto nas primárias do Wisconsin, que vai a votos esta noite, mostram que será Ted Cruz a vencer, Trump parece ter a vida cada vez mais dificultada. Perder a maioria dos 42 delegados eleitorais em disputa nesse estado irá aumentar as probabilidades de uma brokered convention, ou convenção aberta, em julho — quando nenhum dos candidatos consegue reunir o mínimo de 1237 delegados necessários para garantir a nomeação. E depois das suas declarações públicas na semana passada sobre um dos temas mais fraturantes da sociedade americana, é possível que a partir de agora Trump não consiga reverter a tendência de queda.

Na quarta-feira passada, durante um evento transmitido em direto pela MSNBC, o magnata de Nova Iorque tentou atrair o eleitorado republicano mais conservador, ao dar a entender que, se for eleito Presidente, poderá voltar a ilegalizar o aborto nos Estados Unidos. A promessa tem falhas graves, em primeiro lugar porque nenhum Presidente tem o poder de reverter o resultado do famoso caso decidido pelo Supremo Tribunal em 1976, o Roe vs. Wade, que tornou legal a interrupção de gravidezes por razões médicas.

Trump não se ficou por aí, declarando nessa mesma entrevista que será necessário impôr "punições" às mulheres que pratiquem abortos. A ira de muitos, da direita à esquerda, não tardou, de tal forma que na quinta-feira o aspirante à nomeação republicana voltou atrás, dizendo que não são as mulheres que devem ser castigadas mas sim os profissionais que executarem abortos — e sublinhando, ainda assim, que a sua postura quanto ao tema "não se alterou". Foi mais um erro crasso: em tempos um declarado apoiante do Partido Democrata, Trump chegou a dizer-se "pró-escolha" em 1999, defendendo publicamente o direito das mulheres a interromperem gravidezes. Republicanos e democratas aproveitaram a deixa e não o deixaram escapar.

Para a maioria dos membros do partido pelo qual pretende ser candidato presidencial, as suas declarações e contradeclarações sobre o tema puseram a descoberto a farsa que é a sua candidatura republicana, com muitos a acusarem-no de ser um conservador-impostor. No que diz respeito à ilegalização do aborto exigida pelos ditos "pró-vida", Ted Cruz, que já votou a fazer disso, e John Kasich, que como governador do Ohio tem aplicado mais e mais barreiras ao direito das mulheres a decidirem sobre os próprios corpos, estão muito mais bem colocados entre o eleitorado republicano na corrida.

Para os democratas, que ao longo desta campanha presidencial têm atacado Trump pela sua misoginia e sexismo, a entrevista de Trump foi só mais uma prova de que está em guerra aberta contra as mulheres. Hillary Clinton escreveu no Twitter que os americanos "não podem deixar que um homem com tanto desprezo pelos direitos das mulheres se aproxime da Casa Branca", uma ideia que ecoou pelas redes sociais e entre os chamados "pró-escolha" — alargando a crítica a "todos os republicanos".

Considerando que, em 2012, as mulheres compuseram 53% do eleitorado norte-americano que foi às urnas reeleger Barack Obama em detrimento do republicano anti-aborto Mitt Romney, este poderá ter sido o último prego no caixão da candidatura de Donald Trump, martelado por si próprio.

Num estudo levado a cabo pelos republicanos logo a seguir às últimas presidenciais há quatro anos, os seus autores sublinharam: "A nossa inabilidade em ganhar votos [entre as mulheres] está a fazer-nos perder eleições". E se assim era há quatro anos, com Trump a disputar a presidência pelos republicanos essa realidade só deverá ser reforçada.

Uma sondagem recente do "Washington Post"/ABC, conduzida no início de março, veio deitar ainda mais achas na fogueira anti-Trump, ao apontar que três quartos das mulheres norte-americanas — a par de quase dois terços dos eleitores declarados independentes, 80% de jovens adultos, 85% de hispânicos e quase metade dos conservadores e independentes mais próximos do Partido Republicano — têm uma visão "desfavorável" do candidato sem qualquer experiência política.

A acompanhar os resultados desse inquérito, o WaPo sublinhou na altura — e novamente há cinco dias: "Se Donald Trump assegurar a nomeação republicana, irá começar a campanha para as eleições gerais como o candidato menos popular a representar qualquer dos dois partidos na história moderna" dos EUA.