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Conflito “descongelou” e ameaça o Cáucaso com nova guerra

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Um voluntário arménio está de vigia na cidade de Askeran, no território de Nagorno-Karaback, próximo da área de confrontos com as forças azeris

© Hrayr Badalyan / Reuters

Chamam-lhe “conflito congelado”, ainda que, desde o cessar-fogo de 1994, a paz não tenha sido absoluta. O ressurgimento dos confrontos no enclave arménio de Nagorno-Karabakh, situado em território azeri, ameaça mergulhar o Cáucaso do Sul num conflito em grande escala. Esta terça-feira, em Viena, discutem-se formas de estancar a escalada

Margarida Mota

Jornalista

O Ministério da Defesa do Azerbaijão confirmou, esta terça-feira, a morte de 16 militares azeris, em dois dias de combates contra forças arménias em torno do enclave de Nagorno-Karabakh.

Na segunda-feira, já o Presidente da Arménia alertara para o perigo de o ressurgimento da violência nesta região separatista se poder transformar num conflito aberto no Cáucaso do Sul. “Uma escalada das ações militares pode levar a consequências imprevisíveis e irreversíveis, até a uma guerra em grande escala”, afirmou Serzh Sarksyan.

Os confrontos nesta disputada área montanhosa de população maioritariamente arménia (cristã), incrustada no território do Azerbaijão (de maioria muçulmana), reacenderam-se no sábado. As partes culpam-se mutuamente pelo início das hostilidades, que envolveram carros de combate, helicópteros e material de artilharia, em redor da chamada “linha de contacto” — uma “terra de ninguém” fortemente minada que funciona como área de separação, desde 1994, entre forças arménias e azeris.

Autocarros de voluntários

Num comunicado, as forças armadas de Nagorno-Karabakh acusaram o Azerbaijão de “aumentar a potência das suas armas a cada dia que passa” e afirmaram que, na segunda-feira, foram usados sistemas de fabrico russo Smerch de lançamento múltiplo de “rockets”, que atingiram áreas civis e militares.

Na segunda-feira, a reportagem do jornal norte-americano “The New York Times” dava conta da chegada de centenas de voluntários arménios ao enclave. “Eu acho que isto é guerra”, dizia Lev Gevorkyan, um agricultor de 67 anos, após descer de um autocarro que transportara voluntários desde a Arménia até Stepanakert, a capital de Nagorno-Karabakh. “Esta terra nunca foi do Azerbaijão. E, a propósito, o Azerbaijão nem sequer é um país.”

O Ministério da Defesa da Arménia informou que um aparelho não tripulado (drone) azeri (de provável fabrico israelita) atacou um autocarro que transportava voluntários arménios para Nagorno-Karabakh, matando cinco pessoas. Segundo “The New York Times”, na segunda-feira, o número de mortos, de ambos os lados, ascendeu aos 44.

Ferida aberta por Estaline

Arménia e Azerbaijão são Estados independentes que resultaram do desmembramento da União Soviética (1991). A relação entre ambos padece de uma ferida aberta há dezenas de anos — precisamente a disputa pelo enclave de Nagorno-Karabakh, de maioria arménia, colocado sob controlo do Azerbaijão em 1922, pelo líder soviético José Estaline.

Após 1991, a população arménia do enclave acentuou as suas reivindicações de unificação com a Arménia. A guerra que se seguiu provocou milhares de mortos e de deslocados, terminando, em 1994, com um cessar-fogo.

Mais de 20 anos depois, um regresso à guerra significaria a desestabilização de uma região estratégica em termos energéticos, atravessada por oleodutos e gasodutos. A nível geopolítico, seria mais um confronto entre pesos-pesados da região, nomeadamente a ortodoxa Rússia, que tem uma aliança com a Arménia, e a muçulmana Turquia, que apoia o Azerbaijão.

Na segunda-feira, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, conversou ao telefone com os homólogos norte-americano, John Kerry, e alemão, Frank-Walter Steinmeier, apelando à urgência de um cessar-fogo. Esta terça-feira, reune-se em Viena, o Grupo de Minsk — criado em 1992, no âmbito da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), para encorajar à resolução do conflito de Nagorno-Karabakh.