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Condenados a prisão perpétua... 25 anos depois

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Em Central Square, Nova Iorque, sikhs protestam contra a existência de prisioneiros políticos sikh na Índia

© Darren Ornitz / Reuters

Os “encontros encenados” pela polícia são conhecidos dos indianos: quase sempre os pretensos criminosos acabam mortos e a polícia impune. Não foi esse, porém, o desfecho de um caso famoso ocorrido em 1991 e que só agora chegou ao fim: 47 polícias foram condenados a prisão perpétua pela morte de 10 peregrinos sikh

Margarida Mota

Jornalista

Quarenta e sete polícias foram condenados a prisão perpétua por um tribunal especial da Índia, culpados pela morte de 10 peregrinos sikh em 1991. Os agentes foram acusados de terem encenado uma execução extrajudicial, com o objetivo de demonstrarem eficácia na luta contra “terroristas”.

À porta do tribunal, familiares das vítimas protestaram contra as sentenças, que consideraram brandas. “Não estamos satisfeitos com o julgamento. Os acusados deviam ter recebido penas de morte. Vamos recorrer”, disse ao jornal “The Indian Express” Balvinder Jeet Kaur, viúva de um dos homens assassinados.

No total, o processo referia os nomes de 57 polícias. Dez já morreram entretanto, 20 estavam presos e os restantes 27 foram alvo de mandados de captura.

O caso remonta a 12 de julho de 1991 quando um grupo de famílias sikh (a quarta religião na Índia), incluindo crianças, viajava de autocarro no estado de Uttar Pradesh, no norte do país, após visitar lugares sagrados. Na região de Pilibhit, foram mandados parar por polícias e alguns homens foram forçados a sair da viatura. Divididos em grupos, foram levados para a floresta e mortos a sangue frio.

No dia seguinte, a polícia justificou a morte de 10 “terroristas” em três incidentes separados, dizendo que alguns homens tinham antecedentes criminais e estavam armados. À época tinha havido, na região, uma série de ataques de militantes sikhs, em luta por um território próprio.

“Encontros encenados”

Constituído pelo Supremo Tribunal indiano, o Gabinete Central de Investigação (GCI) apurou que os 10 cadáveres foram autopsiados e cremados no mesmo dia e adiantou que o motivo desta emboscada foi a procura de recompensas por parte dos polícias, bem como de reconhecimento de trabalho feito na eliminação de “terroristas”.

Segundo o jornal “The Indian Express”, o tribunal que apreciou o processo referiu que responsáveis policiais estiveram por detrás das mortes, mas o GCI não os considerou na investigação. O tribunal referiu ainda que o Gabinete não gozava de total liberdade para tomar decisões, sem ter de reportar a instâncias superiores.

Negadas pela polícia, este tipo de operações são amplamente conhecidas dos indianos. Nesses “encontros encenados”, os pretensos criminosos acabam mortos e a polícia — quase sempre — impune.