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Tortura, ameaças e detenções: o programa mexicano de controlo das migrações?

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Uma família indígena caminha no México depois de ter atravessado ilegalmente a fronteira com a Guatemala

John Moore / Getty Images

A história dos irmãos Juárez é só mais uma entre muitas. Foram detidos, acusados de viajarem ilegalmente no país, e até torturados. Tudo para serem obrigados a assinar uns papéis que não sabiam ler, mas diziam que os três eram da Guatemala. O objetivo “parece ser o de deter os centro-americanos a qualquer custo, selecionando pessoas com base num critério racista, detendo e deportando jovens indígenas mexicanos pelo caminho”, alertam ativistas e organizações da sociedade civil

Era a primeira vez que Amy e Esther Juaréz deixavam a comunidade indígena onde cresceram, no estado mexicano de Chiapas. Amy tinha 24 anos, Esther 15. Com as histórias do irmão no horizonte, lançavam-se no desconhecido juntamente com este (que tinha regressado a casa) e Fernando (o namorado de Esther) à procura de uma vida melhor. Onde o dinheiro não fosse uma miragem, onde pudessem simplesmente comprar as suas próprias roupas no mercado. Tão simples quanto isso.

Foi por isso que, esperançosas, decidiram apanhar aquele autocarro apinhado de trabalhadores sazonais que se deslocavam a uma quinta na outra ponta do México. O autocarro que as conduziria à tortura, ao medo, ao preconceito. Naquele dia 2 de setembro de 2014, por volta das 14h locais, entraram no veículo. “Logo quando entrei tive um mau pressentimento”, disse a irmã mais velha ao jornal “The Guardian”. Era apenas isso, um pressentimento, mas rapidamente se tornaria realidade.

No dia seguinte, o autocarro teria percorrido apenas metade do caminho, agentes de imigração aproximaram-se e fizeram-no parar. Verificaram os documentos de todos os passageiros, um por um, e no final apontaram para três dos indígenas. Amy, Esther e Alberto teriam que sair – mesmo apesar da Constituição permitir que a população indígena circule livremente no país.

Acusados de transportarem identificações falsas e de mentirem sobre a sua nacionalidade, foram ameaçados com a deportação para um local que nenhum deles saberia identificar num mapa: Guatemala. Levaram-nos para um centro de imigração em Querétero, ainda no México, separaram-nos (rapaz para um lado, raparigas para outro) e interrogaram-nos. Mas não se limitaram a fazer perguntas: Alberto foi ameaçado de morte (deram-lhe apenas duas opções: ou assinas os documentos a dizer que és da Guatemala ou morres), empurrado, pontapeado e ainda teve direito a um choque elétrico na mão direita. “Pensei mesmo que ia morrer, por isso assinei vários papéis - mas eu não sei ler nem escrever, por isso não sabia o que estava a assinar.” Todos estavam assustados, “Alberto não conseguia parar de chorar, todos chorávamos. Como poderíamos voltar para Chiapas quando nem sequer sabíamos onde era a Guatemala?”

Um dia depois, eram salvos por um advogado do Instituto para as Mulheres em Migração (IMUNI), contactado por Fernando, que embora tivesse sido acusado de ser um traficante de pessoas, não havia sido detido. Libertados, mas sem identificação, já que não tinham 200 pesos para dar aos funcionários.

Mentira ou abuso de poder?

A história contada pelo Instituto Nacional de Migração (INM) é bem diferente. Segundo disse o INM ao “The Guardian”, os irmãos Juárez foram detidos porque Alberto terá dito que eles eram da Guatemala e existiam suspeitas de que as raparigas fossem vítimas de tráfico humano. Em relação à tortura a que foram submetidas, o porta-voz do INM afasta totalmente a ideia: “é impossível que alguém possa ser torturado num centro de imigração, porque estes são permanentemente monitorizados pela Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), organizações internacionais como a Cruz Vermelha e ONG's. Se Alberto foi torturado, porque é que não o denunciou na altura, porquê esperar tanto?”

Ativistas e organizações da sociedade civil têm muitas respostas para estas questões. Cada vez mais indígenas mexicanos têm sido detidos e ameaçados com a deportação por agentes à procura de migrantes ilegais, no âmbito do programa de controlo de fronteiras “Frontera Sur”, alegadamente apoiado financeiramente pelos Estados Unidos, ainda que o INM rejeite a alegação. Tortura e violações de direitos humanos são episódios recorrentes.

O Instituto Nacional de Migração tem abusado constantemente do seu poder de controlo das migrações e operado como uma força policial sem controlo. O diretor do IMUNI, Gretchen Kuhener, explica ao jornal britânico que o objetivo “parece ser o de deter os centro-americanos a qualquer custo, selecionando pessoas com base num critério racista, detendo e deportando jovens indígenas mexicanos pelo caminho.”

Os irmãos Juárez foram apanhados a meio caminho. E nos próximos tempos não querem deixar a escassez e a violência de Chiapas. “É demasiado perigoso.”