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“Os nossos motoristas são os que menos descansam”

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Carrinhas saem de França carregadas de emigrantes. Fiscalização das autoridades é nula

Os cartazes com a promoção de viagens entre Portugal e França, ida e volta, por 110 euros — incluindo oferta de refeição — estão espalhados por dezenas de mercearias, cafés e associações de aldeias e vilas da região parisiense. São as chamadas “linhas regulares de autocarro low cost” e os preços são imbatíveis, sobretudo nas épocas festivas ou de férias, quando as companhias aéreas duplicam ou triplicam os custos dos bilhetes.

“Estas empresas propõem viagens em autocarros, na publicidade, mas se o número de clientes não for suficiente, transportam-nos em banais carrinhas mais ou menos iguais à que transportava os 12 portugueses emigrantes na Suíça que morreram em Lyon”, diz ao Expresso Abílio Laceiras, conhecido militante associativo e humanista residente nos arredores da capital francesa. “Este tipo de transportes sempre existiu e está em crescimento, apesar de totalmente clandestino, devido à recente vaga de emigração que, ao contrário do que se pensa, não é apenas composta por gente feliz com cursos superiores, mas sobretudo por milhares de pessoas pobres que vivem na Europa com grandes dificuldades e em condições muito precárias”, acrescenta Laceiras.

Esta realidade retrata a “miséria em que continuam a viver muitos portugueses nos países europeus”, sublinha João Heitor, igualmente residente na região parisiense e sócio do Lusofolie’s, um bar cultural lusófono no centro de Paris. “Há de facto numerosas viagens deste tipo e são muito procuradas sobretudo pelas pessoas que vivem no interior de Portugal porque as carrinhas levam-nas praticamente até à porta das suas casas”, explica Carlos Pereira, diretor do semanário “Lusojornal”, editado em França e na Bélgica.

Reféns dos preços

“O que se passa é um escândalo, porque os emigrantes ficam reféns das companhias aéreas, que praticam preços exorbitantes nas épocas cruciais, eles não têm outra alternativa e correm este tipo de riscos, sobretudo quando têm famílias numerosas”, acrescenta Heitor. Todos sublinham que o cenário é muito sombrio porque ao lado das empresas low cost existe igualmente uma importante rede clandestina de transporte de passageiros e de mercadorias. “Todas as semanas se veem por aqui, na região de Paris, carrinhas de particulares a serem carregadas com pessoas que são aconselhadas a dizerem à polícia, em caso de controlo, que são amigos ou familiares do motorista, que viajam gratuitamente ou que apenas partilham as despesas”, conta Abílio Laceiras. “As pessoas também aproveitam para fazer contrabando neste tipo de transportes, porque trazem nos atrelados azeite, batatas, feijão, vinho e, por vezes, até garrafões de água”, descreve João Heitor.

Em França, poucos emigrantes ficaram surpreendidos com a tragédia de Lyon porque “toda a gente, cônsules e autoridades locais francesas, suíças e portuguesas, sabe que este tipo de transporte ilegal, sem condições mínimas de segurança, é um mercado negro em crescente desenvolvimento e estes novos passadores chegam a divulgar este tipo de viagem à porta dos consulados”. “Levam o avô e a avó a ver os filhos e netos que vivem na Europa ou vice-versa, vão carregados e regressam carregados, é incrível, basta estar atento, nas fronteiras, ao elevado número de carrinhas atulhadas de gente e com atrelados que a atravessam, fazem o trajeto ida e volta apenas com um condutor que nem tem tempo para descansar e nada é fiscalizado”, comenta um cliente do Lusofolie’s.

Em Lyon, o condutor de 19 anos e o seu tio, dono da carrinha acidentada, foram detidos para interrogatório e acusados de homicídio involuntário e de violação das regras sobre o transporte de pessoas. A carrinha transportava 13 pessoas, motorista incluído, e a polícia francesa indica que, “à primeira vista”, apenas estava preparada para acolher seis. O tio do chofer — este, demasiado jovem, também não tinha habilitações para conduzir tão elevado número de passageiros — seguia numa outra carrinha, igualmente com emigrantes na Suíça, no momento do desastre. O segundo veículo teria seguido viagem, conduzido por um dos passageiros.

As falhas na segurança, o cansaço dos motoristas e a velocidade são as principais causas dos numerosos acidentes envolvendo portugueses que regularmente se verificam nas estradas de França e Espanha. Uma fonte da polícia francesa diz que as autoridades sabem desta situação que envolve demasiadas pessoas e é, por esse motivo, “difícil de controlar”. “Não estranhamos estes dramas, mas não é apenas com o transporte de passageiros que as ilegalidades se verificam, porque os motoristas portugueses de carros privados e de camiões de mercadorias também são os que menos descansam nas viagens”, acrescenta a mesma fonte. Dois camionistas portugueses foram multados em França (€9000), no passado dia 26 de março, por terem sido apanhados a conduzir 49 horas seguidas apenas com uma pausa de 45 minutos. No ano passado, 50 camiões portugueses foram multados pelos franceses pelo mesmo motivo.

Nos camiões e autocarros o controlo é facilitado pelo registo do tacógrafo, obrigatório, mas é impossível nas carrinhas que transportam passageiros. “Estes dramas vão continuar a acontecer, enquanto a pobreza durar serão inevitáveis”, conclui João Heitor.