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Debate sobre a UE inquinado pelo medo

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Corbyn num comício antinuclear: um líder fiel à sua matriz ideológica

ANDY RAIN/EPA

Com as sondagens empatadas, 
o terrorismo dá fôlego ao Brexit. São dias difíceis para Cameron

Os senhores Cameron, Johnson e Farage entram no primeiro ato, mas o protagonista do drama Brexit é o senhor Medo. No início da peça, são os apoiantes da permanência na União Europeia (UE) que melhor capitalizam esta poderosa arma de campanha: e se os nossos bancos e multinacionais optarem pela deslocalização para outras capitais europeias? Podemos perder milhões de postos de trabalho. Os alimentos ficarão mais caros, não poderemos passar os anos da reforma em Espanha.

Entram em cena dois homens, de vestes e barbas longas, e logo o público abandona a sala. Está a nascer no Reino Unido um medo maior do que o da incerteza económica: o de que fronteiras porosas levem o terror de Bruxelas e Paris — ou Lahore e Beirute — até Londres.

Ainda a bomba em Maalbeek não tinha rebentado e já Allison Pearson, do diário “The Daily Telegraph”, escrevia no Twitter: “Bruxelas, capital da Europa, é também a capital dos jiadistas — e ainda há quem diga que estamos seguros na UE”. Mais de 1500 pessoas partilharam estas palavras. Pouco depois, era a vez de Mike Hooken, do eurocético UKIP (Partido para a Independência do Reino Unido): “A Interpol disse que dos 5000 jiadistas que foram para a Síria, 94 voltaram a Bruxelas. É mais do que suficiente para deixar as pessoas em alerta: fronteiras abertas prejudicam a nossa segurança”.

“Há fatores que irão afetar o resultado e que as sondagens não podem prever: ataques terroristas, por exemplo. O medo, sendo uma reação irracional, pode vir a ter muito mais peso do que uma boa argumentação intelectual”, diz ao Expresso Mark Leonard, diretor do Conselho Europeu de Relações internacionais.

A permanência britânica na UE ainda vai à frente (46%-42%), segundo a última sondagem do “Financial Times”, mas em novembro de 2015, depois dos ataques de Paris, os eurocéticos lideravam com 52% das intenções de voto.

A proeza de Corbyn

“Não podemos esquecer que há dez anos Londres era o elo mais fraco do combate ao terrorismo, muitas vezes apelidado de Londonistão na imprensa. Os terroristas do 7 de julho [ataque terrorista de 2005] cresceram neste país mas foi por via do Mandado de Captura Europeu que Hussain Osman, um dos quatro presumíveis autores dos atentados falhados de 21 de Julho do ano passado em Londres, foi extraditado de Itália tão depressa”, recorda Leonard.

Foi só por um 1% (34-33%) mas, num país que parecia ter decidido que Jeremy Corbyn — líder inflexivelmente socialista do Partido Trabalhista — nunca venceria eleições, foi um choque ver uma sondagem colocá-lo à frente dos conservadores do primeiro-ministro David Cameron. A chacota só durou até uma segunda sondagem ter confirmado a primeira. “Os conservadores julgam que a população os apoia incondicionalmente. Apesar de os trabalhistas terem um longo caminho pela frente, as sondagens mostram quebra do apoio às políticas do Governo”, diz ao Expresso o analista Liam Young, da revista “New Statesman”.

Apesar da curta margem, Young defende que há espaço para “capitalizar o descontentamento da população com as políticas de austeridade, oferecendo políticas positivas de investimento público, criação de emprego e, sobretudo, justiça social, porque até os conservadores discordam do novo orçamento, que, a meu ver, penaliza exatamente as pessoas mais vulneráveis”

Primeiro (e sempre) a Europa, depois o orçamento — que prevê cortes nos subsídios a mais de três milhões de pessoas com deficiência — e, em paralelo, a guerra muda pela sucessão de Cameron. Fala-se de moção de censura ou demissão voluntária do primeiro-ministro caso o Brexit vença. Bastam 50 deputados para desafiar a liderança e, mesmo que o Reino fique na UE, Cameron não está a salvo. Rowena Mason explica, em “The Guardian”, que uma vitória curta pode custar-lhe o controlo do partido: Cameron bateu-se pela Europa mas as bases são mais eurocéticas. Só um triunfo claro lhe permite respirar. Ainda assim, como já anunciou que não voltará a concorrer a eleições, as lutas internas não vão abrandar.

Em caso de Brexit, os ministros da ala “modernizadora” e europeísta próxima de Cameron, como George Osborne (Finanças) e Theresa May (Interior), ficarão fragilizados enquanto potenciais delfins. O partido pode voltar às origens mais austeras, sob a batuta do autarca cessante de Londres, Boris Johnson.