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“Viemos até vós para vos dizer hoje que a vossa partida foi aprovada”: morreu Hans-Dietrich Genscher

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Clemens Bilan/GETTY

Tão empenhado na reunificação alemã como o próprio chanceler Helmut Kohl, Genscher foi um defensor inabalável do diálogo com o outro. Um dos políticos alemães de vulto internacional reconhecido morreu esta sexta-feira, aos 89 anos, em Bona. Ele que ficou na História com uma frase que levou felicidade a milhares

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Hans-Dietrich Genscher era considerado um político que modelou a Alemanha e um dos estadistas que contribuiu para a reunificação do país. Símbolo das relações internacionais alemãs, morreu de falha cardiovascular na sua casa de Bona aos 89 anos, informou esta sexta-feira o seu gabinete.

Há historiadores que defendem que o papel do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros na reunificação da Alemanha foi tão importante como o do chanceler Helmut Kohl. "Genscher fez história e deixou a sua marca no país", declarou esta sexta-feira Christian Lindner, o atual líder do partido de Genscher, o Partido Democrático Livre da Alemanha, o liberal FDP.

A sua carreira diplomática foi caracterizada pela dedicação ao diálogo e pela sua capacidade de negociação, o que foi fundamental para o período em que chefiou a diplomacia alemã. Dedicou-se à política reconciliatória durante toda a Guerra Fria.

Hans-Dietrich Genscher recordou mais tarde como o momento mais emocionante da sua vida política quando, a 30 de setembro de 1989, proferiu a seguinte frase a partir da varanda da embaixada da República Federal Alemã em Praga: "Viemos até vós para vos dizer hoje que a vossa partida...". Depois de uma pausa, continuou: "… foi aprovada". Seguiram-se os gritos de alegria de milhares de alemães de leste que tinham fugido da República Democrática Alemã e acampavam nos jardins da embaixada da então Checoslováquia apostando os seus futuros no acolhimento que a RFA lhes daria.

Um grito de alegria

"Foi um grito de alegria difícil de imaginar", assim o descreveria mais tarde o homem que logo em 1975 declarou em discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque: "É nosso objetivo na Europa trabalhar em prol de um estado de paz na Europa na qual o povo alemão, em livre autodeterminação, possa voltar a ganhar a sua unidade".

A convicção mais profunda deste político era "chegar ao outro", ouvir, comprometer-se e falar, lembra a Deutsche Welle. Com essa estratégia, Hans-Dietrich Genscher conseguiu o relevo no palco internacional, que usou de forma temperada a fim de ser sempre aceite como interlocutor. Mesmo quando, em 1979, condenou com veemência a invasão russa do Afeganistão.

Como político nascido em Halle em 1927, no que viria a ser território da RDA, a reunificação foi o sonho prioritário de Genscher. Enquanto o fluxo de leste para ocidente ainda era possível, mudou-se para Bremen em 1952, onde se tornou advogado.

De 1969 a 1974 foi ministro do Interior do Governo liderado pelo chanceler Willy Brandt, sendo o FDP parceiro de coligação com os social-democratas (SPD). De 1974 a 1992, Genscher foi ministro dos Negócios Estrangeiros, vice-chanceler com o SPD liderado por Helmut Schmidt e, depois com a União (CDU/CSU). A mudança de parceiros gerou crispação e ficou símbolo de "vira-casacas" criticada no seio do seu próprio partido.

Quando se retirou da vida política em 1992, os caricaturistas lamentaram-no em particular. As suas grandes orelhas nunca foram poupadas pelos desenhos que chegaram a retratá-lo na revista satírica alemã "Titanic" como uma espécie de Batman chamado "Genschmann", um salvador do mundo que era capaz de vencer qualquer crise.