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O vídeo que enfureceu Erdogan e quase arruinou as relações Alemanha-Turquia

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HANDOUT / REUTERS

Na Alemanha, uma música satírica faz duras críticas ao regime de repressão e censura a ser imposto na Turquia. O presidente do país, Recep Tayyip Erdogan, não gostou e chegou a convocar o embaixador alemão em Ancara para ordenar que o teledisco fosse retirado do ar

“Quando um jornalista escreve uma peça que Erdogan não gosta, rapidamente acaba na prisão”. Assim reza a letra de “Erdowie, erdowo, Erdogan” (em tradução livre: Erdo-como, erdo-onde, Erdogan”), um teledisco satírico que tece duras críticas ao regime de Recep Tayyip Erdogan, o Presidente turco que, nos últimos meses, tem sido responsabilizado por vários casos de repressão e censura no país.

O vídeo, publicado pela televisão pública alemã NDR, faz troça da violência policial cometida pelas autoridades turcas. “Direitos iguais para as mulheres / Agredidas de forma igual”, pode também ouvir-se na canção, que especula ainda sobre uma manipulação de eleições a favor de Erdogan e um eventual apoio aos “irmãos de fé” do Daesh, o autoproclamado Estado Islâmico.

A piada não caiu bem junto de Ancara. Segundo o britânico “Independent”, a canção enfureceu o próprio Presidente, que chegou a convocar o embaixador alemão por duas vezes. O intuito seria o de exigir que a canção fosse retirada do ar, bem como removida das redes sociais.

Erdogan já comentou a polémica, defendendo que “não se deve confundir sátira com insulto”. “Satírico ou não, tudo tem limites. Se se fizer uma caricatura que associa o sujeito ao que não é suposto, então não podem esperar que isso seja aceitável”, reiterou, em entrevista à CNN.

“Uma sátira ao Presidente não é mais que difamação”, afirmou Erdogan sobre o polémico vídeo

“Uma sátira ao Presidente não é mais que difamação”, afirmou Erdogan sobre o polémico vídeo

JONATHAN ERNST / REUTERS

Uma porta-voz do Governo alemão reiterou que a Alemanha defende o vídeo, invocando que, em solo alemão, existem os direitos à liberdade de expressão e liberdade de imprensa. Matérias que, como os direitos humanos, “não são negociáveis” para a Alemanha, afirma Sawsan Chebli ao “Politico”.

Nos últimos meses, a Turquia tem construído um verdadeiro sistema de controlo de informação no país. No início de março, o Executivo turco passou a tomar conta de um dos maiores jornais, conhecido por fazer frente às ideias de Erdogan. A isto juntam-se os sucessivos casos de censura em redes sociais como o Twitter ou vários “apagões” dos meios de comunicação do país.

O episódio é um obstáculo às relações diplomáticas entre Alemanha e Turquia, em evidência nas últimas semanas. A chanceler alemã Angela Merkel defendeu esta semana que os turcos assumem um papel vital no apoio à União Europeia no que toca à crise de refugiados para a Europa. A 20 de março, entrou em vigor um acordo entre a UE e a Turquia que prevê o regresso a solo turco dos refugiados que entrem ilegalmente no “espaço Schengen” por intermédio da fronteira com a Grécia.

Entretanto, a televisão alemã voltou a passar a canção. Com legendas em turco. “Talvez Erdogan não tenha percebido bem a canção à primeira”, ironizou o canal.