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A exterminadora de casamentos infantis

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ARIS MESSINIS / AFP / GETTY IMAGES

No Malawi, são comuns os casamentos precoces e rituais de iniciação sexual impostos a crianças. Perante estas práticas a que o país chama de “tradição”, Theresa Kachindamoto - uma chefe regional no sul do Malawi - tenta impedi-los usando a lei. A mudança será difícil de impor, mas está a chegar

Quando, há treze anos, Theresa Kachindamoto foi forçada a trocar o seu trabalho como secretária de uma universidade local pelo posto de chefe no distrito de Dedza, no sul do Malawi, não fazia ideia dos horrores que a aguardavam. Tornada líder de mais de 100 mil pessoas, “quer gostasse ou não”, pouco demorou até descobrir a dura realidade para as jovens malawianas, ganhando reputação como “a destruidora de casamentos” do país.

Os casamentos a que a alcunha se refere são as tradicionais uniões infantis no Malawi, cerimónias que envolvem raparigas com 12 anos e os respetivos maridos, também eles adolescentes. De acordo com um relatório das Nações Unidas, mais de metade das raparigas do Malawi estão casadas antes de atingirem os 18 anos de idade, num país que conta ainda com uma das maiores taxas de casamentos infantis do mundo, afirma a UNICEF.

Agora, e contra décadas de uma cultura que enaltece tradições sexualmente abusivas, a chefe africana condena estas práticas. “Avisei-os [à população] que, gostem ou não, eu quero que estes casamentos parem”, conta Kachindamoto à “Al-Jazeera”. A chefe malawiana afirma ainda que a população é avisada dos males a longo prazo que estes casamentos precoces podem ter nas crianças: abandono escolar, problemas de saúde, gravidez na adolescência. Mas são poucos os que a ouvem.

Mais de metade das raparigas no Malawi casam antes de atingir os 18 anos de idade, segundo as Nações Unidas, uma das maiores taxas de casamentos infantis no mundo

Mais de metade das raparigas no Malawi casam antes de atingir os 18 anos de idade, segundo as Nações Unidas, uma das maiores taxas de casamentos infantis no mundo

ARIS MESSINIS / AFP / GETTY IMAGES

Em muitas zonas do país, as intervenções nestes casos são ainda muito difíceis, uma vez que as autoridades enfrentam uma forte contestação por parte dos populares. Em 2015, o Parlamento do Malawi aprovou uma lei a proibir o casamento antes dos 18 anos, lei que os costumes locais contradizem bem como a própria Constituição, onde está escrito que as crianças podem na mesma casar, desde que tenham a aprovação dos pais.

Uma tradição de horrores

A prática dos casamentos infantis é comum nas zonas rurais deste país no centro de África, onde os pais procuram casar as suas filhas cedo para que estas saiam de casa e assim aliviem as despesas financeiras do agregado. Convém lembrar que, segundo dados do FMI, o Malawi é terceiro na lista de países mais pobres do mundo.

A juntar ao casamento precoce, outras práticas igualmente chocantes estão bem assentes na tradição do país. Entre estas encontra-se o “kusasa fumbi” - expressão que significa “limpeza” para os locais - e que consiste no envio das raparigas obrigadas a casar, pelos próprios pais, para campos de “iniciação sexual”, onde são alegadamente ensinadas a agradar o seu parceiro através de relações sexuais. Num país onde uma em cada dez pessoas estão infetadas com o vírus VIH, estes rituais constituem uma ameça para a saúde de gerações de jovens mulheres.

As práticas de violência sexual impostas às jovens raparigas do país - em alguns casos, desde os sete anos de idade - são vistas como “tradição” pela população malawiana

As práticas de violência sexual impostas às jovens raparigas do país - em alguns casos, desde os sete anos de idade - são vistas como “tradição” pela população malawiana

ARIS MESSINIS / AFP / GETTY IMAGES

No seu distrito, Kachindamoto baniu estes rituais de “limpeza” onde, revela, há registos de crianças desde os sete anos de idade. Afinal, segundo a UNICEF, uma em cada cinco raparigas no Malawi é vítima de violência sexual, casos não isolados no género (um em cada sete rapazes sofrem do mesmo). A maioria dos abusos vem de pessoas próximas da criança: pais, tios, padrastos. “Disse aos restantes chefes que isto tem de parar ou serão demitidos”, reitera.

As populações rejeitam a mudança. Entre os argumentos mais ouvidos, invoca-se a tradição ou uma suposta falta de moral da chefe malawiana para discutir a criação de uma rapariga naquele país (Theresa tem cinco filhos, todos rapazes).

A tradição é um grande fator na cultura do Malawi e qualquer tentativa de mudança nos costumes do país é vista como um desrespeito às famílias tradicionais e aos seus antepassados

A tradição é um grande fator na cultura do Malawi e qualquer tentativa de mudança nos costumes do país é vista como um desrespeito às famílias tradicionais e aos seus antepassados

ARIS MESSINIS / AFP / GETTY IMAGES

Não conseguindo mudar mentalidades, a chefe regional mudou a lei. Redigiu um decreto destinado a abolir os casamentos precoces na região, bem como anular todos os matrimónios já existentes. Demitiu os chefes das zonas onde a prática acontecia à revelia das autoridades. Juntou todas as comunidades influentes - comités locais, clero, instituições de caridade - para aprovar uma lei que proíbe a tradição.

A luta tem resultado. Nos últimos três anos, Theresa já “rompeu” com mais de 850 casamentos, devolvendo aos estudos todas as crianças envolvidas, despesas que suporta na maioria dos casos. Chegou a receber ameaças de morte mas continua determinada na sua luta. “Não me importo”, confessa. “Podemos conversar e até negociar. Mas estas crianças vão voltar à escola”.

  • Não vos quero assustar, mas acho que posso ser a voz da minha geração

    Ela descreve-se assim: “[Sou] aquela amiga virtual que partilha demasiadas coisas contigo, que grita contigo sobre a tua situação financeira, que te ajuda a escolher um fato de banho, um candeeiro, um presidente... E que te diz o que tens de fazer se precisares de fazer um aborto”. Ela é mesmo assim: polémica, imprevisível. Tem dois globos de ouro em casa, a internet dedica-lhe ora aversão ora admiração e a Time já a considerou a pessoa mais cool do ano