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O olhar está vazio. Ela está em pé, imóvel. Como Bruxelas

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HOMENAGEM. Habitantes de Bruxelas concentraram-se na Praça da Bolsa para homenagear vítimas dos ataques terroristas

JOÃO SANTOS DUARTE

Ao pânico inicial dos atentados seguiu-se a tensão das rusgas e operações policiais. As homenagens às vítimas continuam a suceder-se, numa cidade que vive ainda num clima de estado de sítio, depois dos ataques que provocaram 35 mortos e 349 feridos. Este é um relato dos dias que abalaram Bruxelas durante a última semana

O olhar está vazio. Ela está em pé, imóvel. Por trás há um homem no chão que acende uma vela. E depois mais outra, até compor um grande circulo de velas que ilumina aquele início de rua. A noite está fria. Ela traz um casaco bege e um gorro branco, como provavelmente faz em tantas outras noites frias na cidade. Mas aquela não é uma noite qualquer. Ela está ali, e não está, ao mesmo tempo. As mãos estão dentro dos bolsos, os olhos fitados longamente no chão. O pensamento está noutro lado. Provavelmente nos acontecimentos daquela manhã, ou então ela não estaria ali, não teria saído de casa propositadamente, àquelas horas, para querer estar ali, naquela rua que dá acesso àquela praça onde agora tantos outros recordam com dor os que morreram horas antes. Passaram apenas quinze horas, mas para o caso é indiferente. Podiam ter sido três, ou cinco ou oito. O tempo parece ter ficado parado desde então. A vida está em suspenso. Esta é uma cidade em choque.

No que pensaria ela? Talvez pensasse naquela altura, como tantos outros milhares terão pensado, “poderia ter sido eu”. Talvez pensasse: “Quantas vezes não estive naquele aeroporto? Quantas vezes não andei naquele metro?”. Mas isso é sempre o mais fácil de imaginar do que ela poderia estar a pensar. Milhões de pensamentos diferentes ter-lhe-ão certamente passado pela cabeça, como a todos os outros que fazem as suas vidas na cidade. O pesadelo tinha começado bem cedo naquela manhã. Pouco depois das 8h, Bruxelas acorda para a notícia de que algo de muito grave se passara no aeroporto. Primeiro uma explosão, momentos depois outra. Não demoraria muito a confirmar que se tratava mesmo daquilo que muitas pessoas já temiam há meses que pudesse vir a acontecer. Estava em curso um atentado terrorista.

André não se apercebeu logo do que se estava a passar na cidade. Na altura já estava a caminho do trabalho, com os auriculares nos ouvidos, a ouvir música no seu telemóvel como faz todos os dias. É motorista de autocarros, iria render um colega dali a pouco mais de meia hora. O metro ia cheio, aquela era uma manhã como todas as outras. As carruagens param numa estação, os passageiros saem, as portas voltam a fechar, o metro volta a andar. André começa a pensar que tem de se preparar para sair já na próxima paragem. Ajeita o casaco. A composição mal tem tempo de dar a primeira curva quando, de repente, o português vê um grande clarão e chamas a seguirem na sua direção. Vêm da carruagem mesmo ao lado.

O pânico instala-se pelas pessoas. Procuram escapar por onde podem, pelo meio das portas arrombadas, pelas janelas com os vidros partidos. André está ferido mas nem se dá conta das dores. Corre para se salvar, como todos os outros. Pelo caminho vê a carruagem ensanguentada e feridos estendidos no chão, outras pessoas inanimadas. Não sabe naquele momento se já estariam mortos. Mal chega a ajuda, recusa ser assistido de imediato, e reencaminha as equipas para os feridos mais graves.

Tinham passado pouco mais de 24 horas dos atentados quando encontramos André Pinto. O português de 28 anos, a residir em Bruxelas desde muito novo, tinha sido internado no hospital Sud Molière Longchamps, na comuna de Forest, para onde foram reencaminhados dezenas de outros feridos do duplo atentado no metro e no aeroporto de Bruxelas. Na altura em que o avistamos está à porta do hospital, com um suporte e um saco de soro ao seu lado. Tinha vindo fumar um cigarro, para desanuviar do horror que tinha vivido na manhã anterior. André ficou ferido numa perna e no pé, e perdeu ainda parte da audição num ouvido. Ao seu lado, à entrada do hospital, dois militares empunham uma metralhadora. Um outro interpela as pessoas que querem entrar, e revista o conteúdo de todas a malas e sacos. Bruxelas é uma cidade sitiada.

 Militares vigiam entrada para o terminal do aeroporto atingido pelas explosões

Militares vigiam entrada para o terminal do aeroporto atingido pelas explosões

joão duarte santos

Há policias e militares armados por todos os lados. Seja à entrada do hospital de André, das estações de caminhos-de-ferro, dos edifícios públicos, ou simplesmente nas ruas, em especial nas vias principais, ou junto aos edifícios europeus. Na manhã seguinte aos atentados o caos está ainda instalado na cidade. O aeroporto está fechado. O metro não funciona. Os transportes públicos estão fortemente condicionados. Os bruxelenses têm de optar pelo carro. O trânsito, que por vezes já se torna complicado em dias normais, está ainda mais impossível. Ir do centro até ao aeroporto, que não fica tão distante quanto isso, demora bem mais de uma hora. Estacionar para fazer reportagem pode revelar-se uma tarefa quase impossível. E apesar do estado de sítio da cidade, os fiscais não deixam de cumprir a sua função de forma zelosa. Nos próximos dias esperar-nos-iam três multas diferentes de estacionamento.

Os acessos ao aeroporto estão fortemente guardados. O perímetro de segurança envolve uma área vasta, que inclui não apenas o terminal das partidas, atingido pelas explosões, como vários outros edifícios adjacentes. Entre eles um hotel, situado a apenas cem metros de onde tudo aconteceu. Nas horas que se seguiriam aos atentados, o próprio lobby do edíficio serviria de apoio às equipas de emergência para tratarem os feridos das explosões. Não sem antes as autoridades terem feito uma busca quarto a quarto, para despistar a possibilidade de qualquer bomba ou outro elemento suspeito que pudesse estar escondido no hotel. Os passageiros só seriam autorizados a sair das instalações na manhã seguinte. Um grupo de pessoas munido de pequenas malas de rodas passa pelos guardas fortemente armados e atravessa os portões de ferro que dão acesso à àrea onde se situa o hotel e o terminal atingido. Entre eles o Expresso encontrou dois portugueses, pai e filha, que descreveram os momentos de terror que se viveram nas horas que se seguiram às explosões.

Maelbeek. São várias as formas de homenagear as vítimas do atentado à porta da estação de metro

Maelbeek. São várias as formas de homenagear as vítimas do atentado à porta da estação de metro

joão duarte santos

Quase 48 horas depois da explosão em Maelbeek, há ainda vários estilhaços espalhados no passeio que dá acesso a uma das entradas do metro. Um pequeno urso de peluche castanho convive sentado no chão com vários fragmentos de vidros. Mais à frente, algumas flores que foram encostadas às barreiras de segurança recordam as vitimas do atentado. Há ainda uma ou outra pessoa que passa e por momentos se detém para deixar a sua homenagem, mas por esta altura quase só há câmaras de televisão e jornalistas que perpetuam os seus diretos um pouco para todo o mundo. A cidade não deixa de estar de luto, mas procura regressar à normalidade como forma de responder aos ataques de que foi alvo. Mesmo que seja apenas uma normalidade aparente, que todos os dias é sobressaltada pelas operações policiais em curso em vários bairros de Bruxelas.

A primeira imagem dos bombistas do aeroporto tinha sido divulgada poucas horas após o atentado, obtida através de uma câmara de videovigilância. A partir daí os desenvolvimentos sucedem-se rapidamente em cascata: o testemunho do taxista que transportou os suspeitos até ao aeroporto, o apartamento no bairro de Schaerbeek onde ainda foi ainda encontrada um bomba, material químico e uma bandeira do autodenominado Estado Islâmico. Nos dias seguintes a cidade assiste a várias operações policiais e rusgas que centram as atenções em três bairros de Bruxelas, todas eles já com ligações conhecidas ao grupo que já havia preparado os atentados de Paris: Moleenbeek, onde Salah Abdeslam, tido como um dos principais mentores dos ataques à capital francesa, foi detido na sexta-feira, dia 18 de Março, apenas poucos dias antes dos acontecimentos de Bruxelas; Forest, de onde Absdeslam terá escapado uma primeira vez às autoridades, e onde o Expresso encontrou um café português onde o jiadista ia jogar bingo; e finalmente Schaerbeek, bairro onde está situado não apenas o apartamento de onde os bombistas saíram para o aeroporto, mas também uma outra casa já identificada pelas autoridades em Janeiro, e que durante algum tempo serviu de esconderijo para o fabrico de bombas por parte do grupo.

Poucos minutos depois da reportagem do Expresso visitar esse prédio, o alerta surge nas notícias: “Detonação ouvida em Schaerbeek”. Estava em curso uma nova operação policial no bairro, desta vez na Praça Meiser. Por causa do perímetro de segurança o carro fica ainda distante, à mercê de nova multa de estacionamento, e a nossa corrida para o local é apenas travada pelos agentes munidos de metralhadoras que vedam todos os acessos à praça. Um suspeito que se encontrava numa paragem de autocarro é atingido numa perna, e fica imobilizado. Teme-se que possa ter explosivos consigo. A brigada de minas e armadilhas envia um robô para o local, e faz uma explosão controlada da mochila que o homem levava consigo. No total acabam por ser três as detonações que se ouvem durante todo o tempo em que durou a operação. Alheios ao aparato, ou simplesmente fartos de esperar, alguns moradores quebram a barreira de segurança para tentar regressar a casa, mas são prontamente detidos pelos gritos policiais. Nas várias operações que decorreram em Bruxelas nas últimas semanas foram detidos pelo menos suspeitos. Um deles, identificado como Fayçal Cheffou, chegou a ser dado como “o homem do chapéu”, que aparece nas imagens de videovigilância ao lado dos dois bombistas suicidas do aeroporto. A informação acabaria já por ser desmentida.

Ruas desertas. Operação policial isolou praça Meiser, em Schaerbeek. Um suspeito foi detido.

Ruas desertas. Operação policial isolou praça Meiser, em Schaerbeek. Um suspeito foi detido.

joão duarte santos

“Eu não tenho medo”, lia-se num cartaz deixado a poucos metros da rapariga que permanece em pé, imóvel, de olhos no chão. Desde a primeira noite após os atentados que a Praça da Bolsa, no centro da cidade, se transformou em local de homenagem às vitimas. No total morreram 35 pessoas e 359 ficaram feridas, de acordo com o último balanço agora apresentado pelas autoridades belgas. “Eles não são muçulmanos, eles não são humanos”, diria à reportagem do Expresso um iraquiano, iman de uma mesquita na Holanda, logo nessa primeira noite. A rapariga que estava de pé acabaria por desmobilizar algum tempo depois naquela noite, enquanto outras dezenas de pessoas continuavam a acender velas e a deixar mensagens no chão. Uma semana após os atentados, o metro já reabriu, à excepção da estação atingida, e o aeroporto poderá voltar a funcionar em breve. Mas o pesadelo continua bem presente na cabeça de todos.