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Um voo frenético para salvar o reino

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MIGUEL SCHINCARIOL/ Getty Images

Se há pouco mais de uma semana o Brasil ameaçava estar às portas de uma guerra civil, o momento agora é de bater as asas o mais depressa possível, seja para remendar os buracos a todo o custo, seja para afundar o barco de uma só vez

Sara Antunes de Oliveira, enviada da SIC Notícias ao Brasil

Meia hora mais cedo e seria um suplício. O homem do violino agarrado a uma coluna de som está ali, no passeio da principal avenida de São Paulo, por cima da estação de metro da Consolação, quase todas as manhãs. Quase todas começa a tocar o Voo do Moscardo, antes de passar para outros "clássicos", os da música de rua, que entretenham a maioria e rendam moedas suficientes para ajudar a resolver mais um mês sem emprego. Ainda não são 7h30, o volume está no máximo e não há vidros duplos que abafem os acordes frenéticos da peça de Rimsky-Korsakov.

A analogia é irresistível, mesmo que a história do Brasil dos dias de hoje tenha pouco do conto de fadas do Czar Saltan da ópera russa: se há pouco mais de uma semana o país ameaçava estar às portas de uma guerra civil, o momento agora é de bater as asas o mais depressa possível, seja para remendar os buracos a todo o custo, seja para afundar o barco de uma só vez.

Os próximos dias são decisivos nesse voo porque a viagem faz-se entre o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal e o Governo tenta sobreviver a todos os golpes.

Dilma Rousseff pode perder já esta terça-feira o principal partido aliado e desistiu de tentar convencer o PMDB a ficar. Caso se confirme o "desembarque" (como lhe chamam em Brasília), a estratégia será expulsar todos os ministros indicados pelo partido do vice-presidente Michel Temer e entregar as pastas a outros partidos que lhe garantam proteção, que é como quem diz, votos contra no processo de impeachment. O mesmo já está a acontecer com outros cargos em organismos públicos, que servem também de moeda de troca - ironia suprema num momento em que o país se debate precisamente contra uma política - e uma sociedade - em que tudo e todos têm um preço e há sempre alguém disposto a pagar.

Ninguém sabe se vai resultar, mas todos concordam que Lula da Silva é uma peça fundamental. Esta também é a semana em que o Supremo Tribunal Federal deve ter a última palavra sobre se o ex-presidente pode ser ministro da Casa Civil, mas o combate à suspensão deixou de ser uma prioridade para Dilma, que pode transformar Lula num assessor especial. Um cargo que lhe permita, de um modo mais formal, assumir a task force nas negociações de bastidores contra o que, insistem, é um golpe de Estado da oposição.

O problema é que isso dificilmente conseguirá remendar o divórcio com o povo, porque até mesmo entre os que estão contra o processo de destituição da presidente, muitos não concordam com a nomeação de Lula (seja para que cargo for) e têm dúvidas sobre se as suspeitas de corrupção não deveriam voltar de imediato para o juiz da Operação Lava Jato, deixando o ex-presidente cair.

É essa, de resto, uma das razões mais inflamadas das manifestações que, enquanto o moscardo voa, não devem parar, e que, vistas de fora por quem esteve uma semana a medir a temperatura de um Brasil a ferro e fogo, são, sobretudo, desconcertantes. Os brasileiros queimam e desfazem à cacetada bonecos com a cara da mulher que ocupa o cargo mais alto da nação... ao som de samba e forró, com carne em cima de dezenas de grelhadores em brasa à volta dos locais de protesto e com "chope" sempre a rolar. Tanto incitam os "revolucionários da esquerda" a porem "fogo no pavio" da pólvora amontoada na barricada que divide o país, como fazem pausas nos protestos porque "é fim de semana, está muito calor, o povo volta na segunda-feira".

Nesse entretanto, o Brasil tem pouco tempo. A instabilidade trava o investimento, o poder de compra em queda reduz o consumo interno, as reformas prometidas ficam para segundo plano e não há manobra orçamental que disfarce a certeza de uma recuperação mais lenta e tardia que o previsto.

Se há uma semana era fácil dar como quase certa a destituição de Dilma, a queda do Governo, a prisão de Lula e uma guerra nas ruas, agora ninguém arrisca antecipar quando e como vai acabar o impasse.

Debaixo do zumbido frenético do Voo do Moscardo, poucos dos que ouviram pela primeira vez o interlúdio incluído na ópera apresentada em 1900, em Moscovo, perceberam que a peça tem, em fundo, uma letra cantada pelo cisne mágico que transformou o príncipe em inseto, numa aventura fantástica para salvar a família - e o reino. Feito besouro, Gvidon segue viagem na frincha de um navio para ver o pai, na esperança de conseguir desmontar rapidamente a mentira criada pelas duas tias que o traíram. Com desejos de boa sorte, o cisne diz-lhe "voa, mas não te demores." A versão para ópera tem três minutos e 55 segundos. Quem sabe de quanto tempo o Brasil vai precisar?

Já agora, pode ouvir a peça mais famosa de Rimsky-Korsakov: