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Palmira. Daesh perdeu uma batalha mas não perdeu a guerra

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Palmira pouco dias após a invasão do autoproclamado Estado Islâmico. Na altura, ainda não havia quaisquer indícios de destruição

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No rescaldo da reconquista da histórica cidade síria pelas forças de Bashar al-Assad, o "The Independent" sublinha que grupo terrorista bateu em retirada muito antes de se registarem enormes baixas entre os seus militantes. Avanços do exército sírio mais para leste "serão difíceis" e deixarão forças que combatem o Daesh "vulneráveis a ataques de guerrilhas"

A retomada de Palmira ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), que controlava a histórica cidade de importância estratégica redobrada desde maio, foi uma boa notícia por si só — da mesma forma que outra boa notícia surgiu esta segunda-feira dando conta de que os estragos nas ruínas milenares da cidade síria são menores do que se antecipava. Mas nem tudo são rosas nesta batalha das forças de Bashar al-Assad contra os militantes do grupo terrorista.

Num artigo de análise publicado no "The Independent", o especialista em assuntos do Médio Oriente Patrick Cockburn sublinhou no domingo à noite que, apesar da aparente derrota do Daesh na batalha por Palmira, a guerra está longe de acabar e o grupo não está tão perto da desintegração como o regime sírio e o Ocidente desejariam.

"Apesar de o ISIS [Daesh] ter alegadamente abandonado os corpos de 400 dos seus recrutas dentro e ao redor da cidade antiga, parece que retirou a maioria das suas forças do terreno antes de serem destruídas", refere o correspondente — uma ação que está "em linha com as suas táticas do último ano em que não luta até ao último homem para defender quaisquer posições", sobretudo quando está a ser atingido por "bombardeamentos aéreos da coligação dos EUA e da Rússia".

Tal só aconteceu parcialmente em Palmira no último ano, nota Cockburn. "Uma característica marcante da vitória do ISIS em maio do ano passado [quando assumiu o controlo da cidade] é que os seus militantes conseguiram avançar sem serem bombardeados pela aviação norte-americana porque os EUA não queriam ser acusados de ajudar o governo Assad, que têm responsabilizado por nunca lutar contra o ISIS", escreve o especialista. "Essa acusação", continua, "é em parte propagandística, já que o exército sírio tinha sofrido uma série de derrotas às mãos do ISIS em 2014 como foi mostrado pelos vídeos de atrocidades em que soldados sírios feitos prisioneiros surgiam a ser decapitados ou abatidos".

O que possibilitou, em grande medida, que as forças sírias conseguissem retomar Palmira foram os ataques aéreos levados a cabo pela Rússia, que os EUA e seus aliados acusaram de apenas atacarem rebeldes opositores ao regime de Bashar al-Assad e não bastiões do Daesh. "Na realidade", contrapõe Cockburn, "os russos atacaram todos e quaisquer elementos da oposição armada que representavam ameaças para as posições do exército sírio em várias partes do país", o que incluiu bastiões do grupo terrorista em toda a Siria. Mas essa campanha de bombardeamentos russos de apoio ao aliado Assad que permitiu a retomada de Palmira já terminou, perante a surpresa da comunidade internacional, e as piores batalhas no terreno ainda estão para vir.

"O ISIS perdeu uma batalha, mas não perdeu necessariamente a guerra e será difícil para o exército sírio avançar para leste de Palmira à medida que entra em áreas sírias árabes mais brutais e se torna vulnerável a ataques de guerrilha", avisa o jornalista do "Independent". A juntar a isto, "a situação política e militar na Síria e no Iraque continua instável com atores regionais e estrangeiros a perseguirem diferentes estratégias". E o novo papel assumido pela Rússia, que abandonou o teatro de guerra no final de fevereiro e se congratula por ter alcançado um cessar-fogo entre todos os grupos a lutar no terreno à excepção do ISIS e da Frente al-Nusra da Al-Qaeda, deixa abertura para mais influência do eixo xiita Líbano-Irão, em última instância e "no longo prazo os mais empenhados aliados do governo de Assad".

  • Palmira de novo nas mãos do Governo sírio

    A operação foi possível graças ao apoio, no terreno, da milícia xiita libanesa do Hezbollah, e sobretudo, ao apoio da aviação russa. Palmira, um dos primeiros locais a receber a distinção de Património da Humanidade da UNESCO, em 1980, volta para as mãos do Governo sírio, depois de cerca de dez meses sob domínio do autoproclamado Estado Islâmico