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Hillary Clinton foge de debate após vitórias exclusivas de Bernie Sanders

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Joe Raedle

Depois de ganhar com estrondosa maioria as primárias dos estados de Washington, Hawai e Alaska, o senador do Vermont quer um debate com a rival democrata em Nova Iorque antes das votações nesse estado, marcadas para 19 de abril, e já está a concentrar esforços nos importantes superdelegados do partido

Bernie Sanders ganhou velocidade e ímpeto na corrida à nomeação democrata este fim-de-semana, ao vencer não num nem em dois mas nos três estados que levaram a cabo primárias na madrugada de domingo, hora portuguesa.

As sondagens indicavam que o senador pelo Vermont, único rival de Hillary Clinton na corrida do partido, poderia conquistar bastantes votos nos três estados, mas nada fazia antever as vitórias que firmou: no estado de Washington, o que mais delegados eleitorais representava este fim-de-semana, Sanders alcançou quase 82% dos votos, a par de 70% no Hawai e quase 73% no Alaska.

A distância da líder da corrida foi diminuída, com cerca de 300 delegados a separá-los neste momento. O problema, e novo foco de atenções da sua campanha, são os superdelegados, que não têm disciplina de voto, ou seja, que podem votar em quem quiserem na Convenção Nacional do partido, marcada para julho, de onde sairá o candidato final democrata às eleições presidenciais de novembro.

Para ganhar, um candidato democrata precisa de garantir um mínimo de 2383 delegados. Neste momento, a ex-secretária de Estado de Barack Obama já tem garantidos 1243, de acordo com cálculos do "The New York Times", contra os 975 de Sanders. Mas quando as contas são feitas ao nível dos superdelegados, Clinton continua muito mais bem posicionada, tendo ao seu lado 469 representantes; Sanders tem apenas 29. Isto dá uma diferença de cerca de 700 apoiantes entre ambos: Clinton tem 1712 contra os 1004 de Sanders.

É por esta razão que o senador do Vermont quer aproveitar o hiato de duas semanas até à próxima etapa das primárias democratas, a 5 de abril no Wisconsin, para fazer campanha junto dos superdelegados mais do que dos eleitores. "Ganhámos momentum e muitos destes superdelegados podem repensar a sua posição junto de Hillary Clinton", defendeu em entrevista à CNN no domingo.

Tal reveste-se de redobrada importância nos estados em que já venceu: dos 33 estados e territórios que já tiveram votações democratas, Sanders venceu em 14 e entre os eleitores afiliados ao partido que vivem no estrangeiro. Para o senador, é sobretudo nesses que os superdelegados — proeminentes figuras do partido, geralmente eleitas como representantes, senadores ou governadores — poderão abandonar Clinton para se juntarem a ele. "Os superdelegados vão ter de fazer uma escolha difícil", declarou Sanders numa outra entrevista ao canal ABC.

Os superdelegados são característica exclusiva do Partido Democrata, que implementou este sistema complexo de primárias nos anos 80 para dar aos seus líderes mais controlo sobre o processo de nomeação de um candidato presidencial. Cerca de 85% dos votos na Convenção Nacional Democrata, que este ano acontece em Filadélfia entre 25 e 28 de julho, são escolhidos através das votações estatais no processo de primárias, com os restantes 15% a corresponderem aos ditos superdelegados, que chamam a si a responsabilidade de desempatarem a corrida no caso de nenhum dos candidatos obter o mínimo necessário de delegados para garantir a nomeação.

Vitória no estado de Obama, debate em Nova Iorque

Para além de terem reduzido a distância que o separa de Hillary Clinton, as vitórias de Sanders este fim-de-semana estão revestidas de importância simbólica. Ao longo de domingo, media e analistas destacaram o facto de ter sido Sanders e não a aliada de Barack Obama a ganhar no estado que viu o atual Presidente nascer, o Hawai.

Esse é outro dínamo de extrema relevância nas esperanças de Sanders, que Obama e outros democratas tinham aconselhado a desistir da corrida para deixar o caminho aberto à ex-secretária de Estado — isto numa altura em que os norte-americanos e o resto do mundo vêem com cada vez mais temor e preocupação a possibilidade de a presidência vir a ser disputada com o xenófobo Donald Trump, o líder da corrida republicana.

É também por isso que Sanders está cada vez mais apostado em derrubar Clinton na corrida. De acordo com inúmeras sondagens de intenções de voto a nível nacional, divulgadas ao longo dos últimos meses, o senador tem maiores hipóteses de derrubar o incendiário magnata em novembro do que a sua arquirrival democrata. Razão pela qual Sanders fala na possibilidade de muitos superdelegados desistirem das suas alianças com Clinton para o apoiarem —e razão pela qual quer que o próximo debate democrata aconteça em Nova Iorque antes das primárias nesse estado, disputadas a 19 de abril.

Neste momento, é incerto se Clinton aceitará manter mais um debate, onde quer que ele aconteça, com o seu rival na corrida democrata. Até agora, os dois candidatos já se bateram em oito debates e as duas campanhas tinham-se comprometido com mais um debate em abril e um em maio antes das últimas etapas das primárias em junho (a corrida fica encerrada a 14 desse mês com as votações na capital, Washington DC). Mas a equipa da ex-secretária de Estado tem dado a entender que a candidata poderá não aceitar mais nenhum braço-de-ferro televisivo por considerar que tem a nomeação garantida.

No programa Meet the Press da estação NBC, Sanders desafiou este fim-de-semana a rival a bater-se numa nova guerra de palavras e ideias no importante estado de Nova Iorque, onde as sondagens prevêem a vitória de Clinton. "O debate pode ser em qualquer parte da cidade de Nova Iorque, sobre assuntos importantes para o estado e para o país", declarou, admitindo "alguma preocupação" com a relutância da rival.

No domingo, já depois das suas três vitórias no sábado à noite, o gestor de campanha do senador enviou uma carta ao chefe da campanha de Clinton questionando a postura da candidata. "É difícil para mim entender a vossa motivação", escreveu Jeff Weaver, citado pelo "New York Times". "Podem por favor explicar porque é que Nova Iorque não deve ser palco do debate de Abril? Estará a secretária preocupada com um debate perante as pessoas que por duas vezes a elegeram para o Senado? Talvez haja alguma vantagem táctica da vossa parte em evitarem um debate em Nova Iorque mas devo lembrar-vos que o senador Sanders aceitou o debate com a secretária em New Hampshire quando estava à frente na corrida." A campanha de Clinton ainda não respondeu.