Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Estado Islâmico já não controla Palmira mas... o que resta ainda da cidade? (imagens de drone)

  • 333

Que alguns dos mais preciosos e simbólicos monumentos tinham sido destruídos pelos combatentes do autoproclamado Estado Islâmico, já se sabia. O que não se sabia mas agora sabe-se é que serão necessários anos, muitos anos, para recuperar a cidade e os monumentos que fizeram dela “a pérola do deserto” da Rota da Seda, “a Veneza das areias”, e um dos centros culturais mais importantes do mundo antigo

Helena Bento

Jornalista

Um vídeo divulgado no domingo pela agência de notícias Ruptly mostra imagens da cidade de Palmira depois de ter sido libertada pelo Exército sírio, com o apoio, no terreno, das milícias libanesas do Hezbollah, e da aviação russa, comprometida com o Governo sírio desde setembro do ano passado.

Que alguns dos mais preciosos e simbólicos monumentos da cidade tinham sido destruídos pelos combatentes do autoproclamado Estado Islâmico, já se sabia. Já se sabia que os famosos templos de Bel (construído no final do período Helénico, no ano de 32) e Baalshamin, assim como o Arco do Triunfo, não tinham resistido à ira e força destrutiva dos extremistas, assim como se suspeitava que várias estátuas e colunas e outras edificações tinham caído por terra, em terra e pó se transformando. Fora assim em Hatra e Nimrud, no Iraque. Porque haveria de ser diferente na cidade síria?

O que não se sabia, e sabe-se agora, era até que ponto Palmira, um dos primeiros locais a receber a distinção de Património da Humanidade da UNESCO, em 1980, tinha ficado realmente destruída, e o que não sabíamos mas agora sabemos é que serão necessários anos, muitos anos, para recuperar a cidade e os monumentos que fizeram dela “a pérola do deserto” da Rota da Seda, “a Veneza das areias”, e um dos centros culturais mais importantes do mundo antigo.

Em traços gerais, a realidade de Palmira é esta. E se essa realidade não é bonita – e sabemos que não é - há, ainda assim, quem prefira manter-se otimista. É o caso do diretor-geral das Antiguidades e Museus da Síria, Maamoun Abdelkarim, que em entrevista ao britânico “Guardian” garantiu que os templos e o museu da cidade e outros vestígios da civilização antiga destruídos serão novamente erguidos, dê por onde der. “Não vamos deixar os templos destruídos.” Abdelkarim, que em declarações à AFP dissera que “serão necessários cinco anos para restaurar os monumentos destruídos ou danificados”, explicou que a primeira coisa a fazer é “avaliar os estragos nos blocos de pedra” e reutilizá-los “para reconstruir cientificamente os templos”.

Também Irina Bokova, diretora-geral da UNESCO, disse que a agência “está preparada para ir rapidamente para o local para, juntamente com as autoridades sírias, assim que as condições de segurança o permitirem, realizar uma missão de avaliação dos danos e proteção do património inestimável da cidade”. Kevin Butcher, professor de História da Antiguidade Clássica na Universidade de Warwick, no Reino Unido, chamou a atenção para o facto de haver monumentos dos quais restam ainda alguns blocos de pedras, sendo por isso “perfeitamente possível” proceder-se a algum tipo de restauração, já que “muitas outras estruturas ancestrais da região foram também restauradas a partir de fragmentos”.

De acordo com as imagens que têm sido divulgadas pelos media internacionais, há até alguns monumentos, poucos, que permanecem de pé, mas Sanna Aro-Valjus, da Universidade de Helsínquia, diz que ainda é cedo para retirar conclusões. “A situação em Palmira foi turbulenta durante algum tempo. No verão de 2015, houve alegações de que o ISIS tinha colocado explosivos no teatro e noutros locais para os fazer detonar assim que fossem expulsos da cidade. Antes de Palmira ser totalmente resgatada, é possível que assistamos ainda a mais destruição”.

Jiadistas do autoproclamado Estado Islâmico invadiram Palmira em maio de 2015

Foi em maio do ano passado que os combatentes do autoproclamado Estado Islâmico invadiram Palmira, depois de uma ofensiva que durou quase uma semana e resultou na fuga do Exército de Assad, que tão mal preparado estava para o embate. Os habitantes foram retirados da cidade pelas forças pró-governamentais e os combatentes ergueram postos de defesa à volta da cidade para não serem atrapalhados enquanto faziam o que achavam que devia ser feito – destruir tudo aquilo que consideravam ser uma demonstração de apostasia e uma ofensa ao mundo islâmico. E embora tenham prometido no início que nem tudo viria por terra – as colunas antigas e o Templo de Bel seriam, por exemplo, preservados – a verdade é que no momento de destruir não houve piedade que valesse.

Por isso, a notícia de que o Exército sírio tinha finalmente conseguido recuperar a cidade, expulsando alguns jiadistas e matando outros, foi recebida com grande satisfação. “A libertação da cidade histórica de Palmira é uma conquista importante e uma nova indicação do sucesso da estratégia do exército sírio e dos seus aliados na guerra contra o terrorismo”, afirmou o Presidente sírio Bashar al-Assad, um dos protagonistas óbvios desta história.

De facto, a conquista da cidade tem uma importância enorme. Não só em termos simbólicos e materiais, como também a nível estratégico. É que com Palmira de novo sob controlo, as forças leais a Assad têm mais espaço de manobra para avançar em relativa segurança em direção a Deir Ezzor, onde o Daesh tem os seus bastiões, e Raqqa, 'capital' do grupo terrorista.