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“As pessoas que roubam estão livres. Esta sentença é lixo”

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João Relvas/Lusa

As famílias dos 17 ativistas angolanos condenados por planear uma rebelião contra o regime angolano já começaram a pronunciar-se. Há choque, revolta e frustração dos que dizem já não ter a quem recorrer

“Os miúdos que reclamam os seus direitos é que estão a ser condenados. As pessoas que roubam estão livres. Esta sentença não significa nada para mim. É lixo.” As palavras são de Adália Chivonde, mãe de Nito Alves, um dos 17 ativistas angolanos que foram esta segunda-feira condenados por alegadamente prepararem uma rebelião e por associação criminosa. O tom das suas palavras não é de lamento, mas de revolta.

Essa é a característica comum nas palavras de todas as pessoas próximas dos ativistas que já se pronunciaram: a revolta, a frustração de já não verem mais opções a que recorrer. “Acho que é uma palhaçada e os juízes são marionetas. Sendo num país de ditadura, já esperamos isso. O meu marido já sabia disso. Ele falava sempre que eles não sairiam livres porque seria uma vergonha para o Presidente da República”, diz Neusa de Carvalho, esposa de Sedrick, à Rede Angola. Além da revolta e da crítica, a desorientação: “Não sei o que hei de fazer. Não sei como será daqui em diante. Ainda não conseguimos falar com eles. Não sei mesmo o que fazer”, explica. Sedrick de Carvalho foi condenado, como a maioria dos ativistas, a passar quatro anos e meio atrás das grades.

Tal como Sedrick, também Nuno Dala vai passar os próximos quatro anos e meio na prisão. À Rede Angola, a sua irmã, Gertrudes Dala, mostra-se em choque: “Estou sem palavras. Não imaginava. Tinha esperança que o meu irmão seria absolvido. Por enquanto não sabemos o que fazer”.

Prefiro-te marido, pai e amigo a mártir

A operação policial desencadeada a 20 de junho do ano passado, altura em que 13 jovens ativistas angolanos foram detidos em Luanda durante a sexta reunião semanal de um suposto curso de formação de ativistas foi justificada pela acusação pela suposta intenção dos jovens de promoverem a destituição do atual regime. No total são 17 os agora condenados; têm idades entre os 19 e os 33 anos e são professores, engenheiros, estudantes e um militar.

Houve um caso que se destacou e que intensificou a forte pressão internacional sobre o regime angolano: foi o de Luaty Beirão, o rapper e ativista luso-angolano de 33 anos que fez greve de fome durante parte do tempo em que esteve preso. Hoje, Luaty foi condenado a cinco anos e meio de prisão; a sua mulher, Mónica Almeida, ainda não reagiu, mas na altura escrevia-lhe, numa carta publicada em exclusivo pelo Expresso: “Amor, prefiro-te marido, pai e amigo a ter-te como mártir".

Tinha que haver uma justiça digna

Outros familiares dos ativistas condenados criticam em uníssono o regime angolano e o sistema de justiça que dizem não existir na prática. Mariano de Brito, pai de Inocêncio de Brito, que vai passar tanto tempo como Sedrick e Dala na prisão, explica: “Eu não esperava essa condenação. A causa por que eles foram presos não é a que eles foram acusados. Primeiro era por ato preparatório de rebelião contra o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, mas agora é por associação de malfeitores. Já não sei mais, isso é Angola, o que é que vamos fazer? Tinha que haver uma justiça digna. Para quê condenar desta maneira? É triste. Não tenho onde recorrer”.

A mesma sensação tem Arlete Ganga, irmã de Hilberto Ganga, assassinado em 2013 por um militar da guarda presidencial. “O que matou o meu irmão Hilberto Ganga está solto e ninguém prendeu. Isto é tudo uma vergonha.”

Rosa Conde foi a ativista condenada a menos tempo de prisão juntamente com Dito Dalí. O seu namorado, Pedrowski Teca, também ativista, acusa o tribunal de “cumprir as orientações do senhor José Eduardo dos Santo e do MPLA”. “Isto é uma vergonha para o nosso sistema judiciário. É lamentável. Eu, como activista e namorado de uma das moças que foi hoje condenada, digo que é um dos pior erros que o regime de José Eduardo dos Santos e o MPLA, auxiliado por este sistema judiciário, está a cometer”, acusa.

Justiça dominada pela política

As reações de revolta e choque dos familiares não foram as únicas a chegar rapidamente à imprensa. Raul Danda, vice-presidente da UNITA, já veio mostrar-se "profundamente indignado" por viver num país em que "a Justiça está a ser demasiado dominada pela política". "A preocupação deveria ser as pessoas terem o que comer, uma vivência minimamente razoável, e não serem perseguidos porque alguém que está no poder acha-se intocável e reage assim aos seus cidadãos”, defende.

"O nosso ponto de vista é que o julgamento foi político no sentido de julgar a própria democracia. Fica claro que o processo democrático está a sofrer uma deriva ditatorial”, conclui Filomeno Vieira Lopes, Dirigente do Bloco Democrático e membro do Grupo de Apoio aos Presos Políticos de Angola (GAPPA).

  • “A minha carta de Amor ao Herói da minha vida!”

    Quando Luaty Beirão ainda estava em greve de fome, a sua mulher Mónica Almeida escreveu-lhe uma carta e partilhou-a em exclusivo com o Expresso. No dia em 17 ativistas angolanos foram condenados a penas de prisão efetiva até oit anos, incluindo Luaty Beirão, o Expresso republica livremente a carta de Mónica

  • Luaty Beirão, o herói insolente

    Henrique Luaty da Silva Beirão, 33 anos, é o improvável herói de um movimento de democratização que cresce todos os dias, tirando o sono ao presidente José Eduardo dos Santos. O ativista está a mudar a História de Angola. No dia em que Luaty foi condenado a cinco anos e meio de prisão, republicamos livremente um texto de José Eduardo Agualusa, saído a 17 de outubro de 2015 na revista E, no qual o autor relata a importância do rosto mais visível dos 17 ativistas que Angola condenou a penas de prisão efetiva