Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

E quem sucede a Dilma e Lula? Ou pimenta demais no seu vatapá

  • 333

Igo Estrela/Getty Images

Se o pior sucede a Dilma, quem lhe sucede para melhor? Quase nove em cada dez brasileiros não se lembra de um nome

SARA ANTUNES DE OLIVEIRA, ENVIADA DA SIC A SÃO PAULO

Um inquérito feito em janeiro a 3500 brasileiros revelou uma realidade desconcertante: com uma boa parte do país a contestar fortemente o Governo e a popularidade de Dilma Rousseff em queda, 89% dos inquiridos não conseguiu indicar o nome de alguém capaz de tirar o país da crise. Mais: entre os 11% que arriscaram um palpite, a maioria escolheu o Papa Francisco.

Lula e Dilma podem ser ainda os rostos quase únicos da contestação, transformados nos bonecos de Judas que cerca de duzentas pessoas partiram e queimaram ao final da tarde de sábado na Avenida Paulista, em São Paulo, mas o Brasil abriu uma imparável caça às bruxas. Em terra de samba, futebol e carnaval, o amanhã parece interessar muito pouco: é preciso expulsar quem está, mesmo sem saber bem quantos sobram para lhes tomar o lugar.

A fase mais recente da Operação Lava Jato tem, agora, uma boa parte da responsabilidade nesse desnorte. As buscas a casas e escritórios ligados à construtora Odebrecht permitiram encontrar uma longa lista de nomes de políticos que, alegadamente, recebiam luvas para aprovar projetos e obras. São mais de duzentas pessoas, entre deputados, governadores e outros responsáveis ligados ao poder, listadas na "planilha".

O Brasil riu-se da história durante alguns momentos, sobretudo por causa dos apelidos que os alegados corruptores usavam para algumas das figuras mais proeminentes da política nacional, mas a gargalhada durou pouco: o polvo tem tantos tentáculos que, se as suspeitas se confirmarem, seria preciso uma nova geração inteira de representantes para fazer, de facto, a "limpeza" que pedem as manifestações.

Não se pode propriamente dizer que ninguém sabia que a economia estava construída em cima negócios de troca permanente de favores, mas o esquema gigantesco, que começou a ser desmontado há dois anos, obrigou o país a olhar-se ao espelho.

"Eles roubaram tanto e por tanto lado que ficou careca", explica Tânia Reis. "Enquanto o povo ia tendo algum dinheiro, não havia problema. Quando começou a faltar, vieram logo para a rua e de forma descontrolada." Atriz e produtora cultural, a emigrante portuguesa no Brasil há 8 anos vê o problema à distância de quem tem o plano B de regressar a casa se a situação se agravar, mas não deixa de ficar desconfortável, sobretudo por causa do filho que entretanto nasceu. "Que país é este em que o meu filho vai crescer?", pensou no dia em que Lula da Silva foi nomeado para o Governo.

A decisão que incendiou os ânimos já pouco pacientes, ajuda agora a empurrar Lula para o lugar de símbolo, maior entre todos os outros que hão-de vir: se cair um dos mais amados - senão o mais - caem todos e o povo reconcilia-se com a própria consciência, com ou sem provas, depois de todo o tempo em que a obra deixada pelo ex-Presidente abafou o zum-zum das primeiras suspeitas.

Se a História do Brasil se escrevesse na batida do samba de Zeca Pagodinho, talvez dissesse sobre os dias de hoje, em que Lula prova o fim indigesto do carinho do povo: "O meu coração parou / E até calou o meu sabiá. / Meu verso se apagou, / Desacreditou o tal verbo amar. / Agora você quer voltar / E eu é que vou aplicar / Pimenta demais no seu vatapá."