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A cidade candidata ao Nobel

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Muitos refugiados esperam na Turquia por um meio de transporte para a Europa

FOTO Umit Bektas /reuters

Uma povoação turca na fronteira com a Síria é campeã das condições que oferece aos refugiados

Julio de la Guardia em Kilis

A cidade turca de Kilis, a poucos quilómetros da fronteira com a Síria, a sul, está na moda. Foi nomeada para o prémio Nobel da Paz deste ano, por constituir um modelo de convivência entre turcos e sírios e de integração num país que já alberga mais de 2,7 milhões de refugiados. O acordo que Ancara assinou com a União Europeia (UE) poderá fazer com que a população refugiada cresça ainda mais, com os riscos políticos, sociais e económicos que tal acarreta. O Governo de Recep Tayyip Erdogan parece, ainda assim, disposto a assumi-los, por motivos ideológicos (o Presidente turco prega o pan-islamismo) e estratégicos (favorecer uma eventual adesão à UE).

O presidente da Câmara de Kilis, Hasan Kara, é um ardente defensor da integração dos sírios. “Mais do que minoria, podemos já falar de maioria, porque a cidade tem uma população de cerca de 90 mil habitantes e hoje já convivemos com mais de 125 mil sírios”, comenta, em entrevista ao Expresso. “Não gostamos de lhes chamar refugiados, preferimos dizer residentes, dado que muitos estão connosco há cinco anos e a coexistência funciona”, acrescenta o autarca, regressado de uma viagem a Berlim para promover a candidatura ao Nobel.

“Se o mais importante, a curto prazo, é garantir-lhes acesso aos serviços básicos, quando já cá estão há algum tempo a chave passa a ser arranjarem trabalho”, explica. Desce ao pátio da Câmara Municipal, onde o esperam representantes da câmara de comércio e indústria local. Num pequeno-almoço de trabalho com 30 deles, Kara transmite as diretrizes de Ancara. É militante e ex-deputado do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP, no poder). “Os sírios são nossos convidados e temos de criar empregos para eles, para que possam viver de forma digna antes de voltarem voluntariamente para o seu país natal, quando as condições o permitirem”, afirma aos empresários.

A imigração em massa da Síria representa não só um desafio à inserção laboral como problemas de índole socioeconómica, como o dumping dos salários da mão de obra não-qualificada e o aumento das rendas de casa. “Esperamos que o Governo transfira para os municípios parte dos 3000 milhões de euros que vai receber de Bruxelas”, afirma.

Kilis também acolhe dois dos principais campos de refugiados desta região, os de Elbeyli e Öncüpinar, que alojam 24 mil e 17 mil refugiados, respetivamente. Ambos são compostos por contentores, em vez de tendas de campanha, e foram desenhados e construídos pela omnipresente AFAD, a agência governamental para a gestão de emergências e desastres naturais. Esta só proporciona a infraestrutura e a logística, sendo os serviços prestados por representantes de vários ministérios, como os do Interior (segurança pública), Educação (escolarização e formação profissional) e Saúde (hospitais e clínicas).

Um campo-modelo

Elbeyli tornou-se um campo-modelo, a que os colaboradores das poucas ONG internacionais que o Governo turco autoriza chamam, ironicamente, “campo cinco estrelas”. O seu diretor de Educação Pública, Metin Yildiz, tem uma reação ambivalente ao ouvir a expressão. Por um lado fá-lo sentir-se orgulhoso mas, por outro, não gosta da conotação sarcástica.

“É como uma aldeia onde vivem 24 mil sírios, mas também lá trabalham 550 turcos, incluindo professores, formadores, médicos, enfermeiras, pessoal administrativo, de limpeza, etc.”, descreve Yildiz enquanto degusta um chá no elegante módulo de fraternidade sírio-turca. A pouca distância fica o hospital, com cinco médicos, 13 assistentes tecnico-sanitários que trabalham por turnos e duas ambulâncias, operacionais 24 horas por dia.

Yildiz guia-nos pela principal artéria do campo, a partir da qual se dispõem de forma harmoniosa 3592 contentores. É, entre os 23 campos existentes na Turquia, o maior com estruturas prefabricadas (o da província de Sanhurfa tem maior capacidade, mas é feito de tendas). “Procuramos que levem a melhor vida possível. Além dos serviços básicos, podem obter formação profissional em artesanato, costura, têxtil, cabeleireiros, entre outras”, relata Yildiz ao entrar no módulo de pintura.

Ali trabalham pintores amadores sírios que já conseguiram vender quadros aos visitantes. Destacam-se dois: Fedi Selim e Abdel Karim Zerzuri, autores do grande mural que cobre o portão de acesso ao campo. A obra de arte simboliza valores como a paz, a liberdade e a fraternidade. Com 70 metros quadrados, centra-se numa oliveira em redor da qual voam e em cujos ramos pousam pombas brancas que simbolizam a paz mundial. As suas grossas raízes representam as nacionalidades que convivem nesta zona etnicamente diversa.

Num dos ramos estão as palavras “Deus” e “Maomé”, com o fito de “combater a falsa perceção do Islão como religião violenta que alguns propagam no Ocidente”, explica Yilmiz, recordando reações que circularam nas redes sociais após os atentados de Bruxelas. “O que estes artistas tentam transmitir é que o Islão, na essência, promove a paz e a fraternidade entre os povos”, prossegue.

Continua, ainda assim, a haver muitos sírios que preferem ir viver para Kilis ou Gaziantep, cidade maior e mais moderna. “Vamos trabalhar como jornaleiros na agricultura da zona para ganhar dinheiro que nos permita ir para Kilis ou Gaziantep”, diz Mahmud Eid, de 35 anos, oriundo de Alepo. “Isto é muito bom mas, com o tempo, a vida no campo torna-se vida de quartel. Como humanos, ansiamos pela liberdade”, conclui.