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A classe média é o motor da mudança em Cuba

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Keith Richards, Mick Jagger e Ronnie Wood, dos Rolling Stones, durante o concerto em Havana, Cuba

ALEXANDRE MENEGHINI / REUTERS

“Hola Habana, buenas noches mi gente de Cuba!”, disse Mick Jagger a mais de meio milhão de cubanos, que assistiram ao concerto desta sexta-feira em Havana. “Las cosas están cambiando, no?”. Este espetáculo a que assistiram mais de meio milhão de pessoas é a maior prova de abertura do país, depois da visita de Obama. Leia o que dizem dois portugueses residentes em Havana

Quem conhece a história de Cuba sabe que este sábado era o tão esperado dia em que o jornal oficial do PC Cubano escreveria que o os Rolling Stones reuniram “centenas de milhares de pessoas, num concerto espetacular de mais de duas horas, com uma vitalidade incrível”.

O concerto “foi gravado para a história”, acrescenta o “Granma”. Ora, se estamos a ler este texto, é porque Cuba está mesmo a mudar: “E é a classe média que vai ser o motor da mudança” disse ao Expresso, Marta Rodrigues, 35 anos, a trabalhar em Havana desde 2011.

Marta chegou a Havana nas vésperas do VI congresso do Partido Comunista cubano, que aprovou um conjunto de medidas económicas para modernizar o país. Viveu um momento privilegiado de abertura, mesmo que as mudanças não fossem percetíveis no quotidiano. “Quando cheguei, em 2011, a visita do Presidente dos EUA era difícil de imaginar”. E mais inimaginável ainda pensar que os Stones tocariam na mesma semana em Havana.

“Há uma maior abertura aos mercados, quando vou ao supermercado há mais oferta e o abastecimento é mais constante” apesar dos preços praticados nalguns estabelecimentos destes não serem acessíveis a todos.

ORLANDO BARRIA/EPA

As medidas aprovadas no congresso de 2011, permitiram legalizar uma série de atividades privadas, e hoje “há mais ‘paladares’ [restaurantes particulares], muitos deles com muito bom gosto, há mais quartos para alugar, mais carros”. Muitas destas atividades privadas funcionam em áreas ligadas ao turismo.

No entanto, as autorizações para trabalhar por conta própria, estendem-se aos “canalizadores, eletricistas, etc. São os ‘cuenta propista’, como se diz aqui”, pessoas que trabalham por conta própria. Claro que “nem todas as pessoas têm condições para montar o seu próprio negócio”, explica Marta. Mas muitas montaram, o que permite o surgimento da classe média que até aqui não existia. “Criaram oportunidades para desenvolver uma nova sociedade” no país.

Marta não vai assistir a esta nova etapa de Cuba, porque está prestes a terminar o seu contrato de cinco anos com a organização de apoio ao desenvolvimento em que trabalha. Mas António Almeida, 50 anos, representante de uma empresa de vidro (portuguesa) vai ficar. Vive em Cuba desde 1999, casou com uma cubana, tem uma filha de 15 anos, e é aqui que se sente em casa.

Isto “está a melhorar. O Governo já permite a constituição de cooperativas de pessoas que trabalham por conta própria, o Raúl Castro criou oportunidades para que economia melhorasse, há mais trânsito na capital, mais carros novos, embora continue a haver muitos carros antigos – até porque têm quem os alugue”, diz António Almeida.

MICHAEL REYNOLDS/EPA

Acabar com o bloqueio

“A grande aspiração dos cubanos é acabar com o embargo”, diz Marta. António admite que a visita de Obama foi muito importante, mas acha que é preciso consolidar a “parte política”.

Em entrevista ao Expresso, o embaixador de Portugal em Havana, Luís Faro Ramos, lembra que a visita de Obama é um “passo relevante, não decisivo certamente” em relação ao embargo: “O Presidente dos EUA e elementos da Administração norte-americana têm afirmado que o seu desejo é ir convencendo os legisladores de que o embargo já não faz sentido, e através das decisões tomadas e da aproximação encetada, demonstrar que a normalização é irreversível e o embargo, mais cedo ou mais tarde, será levantado. É também relevante para este ponto mencionar que a larga maioria da Comunidade Internacional é contra o embargo, e que nos próprios EUA parece estar a crescer o número daqueles que se opõem a tal medida”.

Havana vieja

Havana vieja

MICHAEL REYNOLDS/EPA

Embargo à parte, “a habitação e o transporte” são um dos maiores problemas que os cubanos têm de enfrentar no quotidiano, diz Marta. Mas tanto ela, quanto António Almeida e Luís Morim [um português que gere uma fábrica de colchões em Havana], ou o embaixador de Portugal, são unânimes a reconhecer que a saúde e a educação, são duas áreas a preservar do que existe hoje em Cuba. “E a proteção dos direitos das crianças também”, acrescenta Marta.

Como disse Mick Jagger na noite da última sexta-feira em Havana: “Las cosas están cambiando, no?”

  • O português que faz colchões em Cuba: “Aqui não se poupa há muito tempo”

    Há “três gerações que os cubanos não sabem o que é juntar dinheiro”, diz Luís Morim, gerente de uma empresa hispano-cubana que faz almofadas e colchões. Estava “apreensivo” quando foi destacado para Havana, mas confessa: “gostaria de manter-me por cá”. Agora, “Cuba só tem que melhorar”. A mesma Cuba que vive História: o presidente da América está em Havana