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Sobrevivência e esperteza levam PMDB para oposição

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O vice-Presidente brasileiro, Michel Temer, à conversa com o presidente do Senado, Renan Calheiro, durante o último Congresso do PMDB

EVARISTO SA/GETTY

Partido que liderou passagem do Brasil da ditadura militar para a democracia completou 50 anos, sem que houvesse comemoração

Plínio Fraga, no Brasil

O PMDB completou 50 anos de existência em 24 de março. Na próxima semana, deve romper com o governo da Presidente Dilma Rousseff para se tornar oposição. Papel que não cumpre desde o encerramento da ditadura militar há 31 anos. Houve comemorações discretas para o aniversário. Quanto ao rompimento que se aproxima as reações foram estrondosas. O PMDB vira-se para a oposição pelo motivo de sempre: sobrevivência e esperteza. Aceita passar alguns meses longe dos cargos investindo num eventual governo Michel Temer, o herdeiro da Presidência em caso de impeachment de Dilma. Cede os dedos para ganhar um braço e um abraço do novo Presidente.

Os 50 anos do PMDB deveriam ser comemorados em nome de uma instituição que costurou a volta do país à democracia. Não o são por vergonha, porque o partido é o símbolo da política errada que dá certo só para os próprios peemedebistas.

De 1966 a 1977, chamava-se MDB. Com o pacote de abril deste último ano, agregou um P ao nome para driblar tentativa do governo militar de extingui-lo, ao casuisticamente exigir que a palavra partido estivesse no início da denominação de todas as siglas. Com história de resistência à ditadura militar, a redemocratização desnudou o partido. A gestão de José Sarney (1985-1990) foi a única do PMDB e a pior da história recente. Viu a candidatura de Ulysses Guimarães naufragar em 1989. Entre 1993 e 1994, um prócer seu, Itamar Franco, que havia sido eleito vice pelo PRN, ganhou a Presidência em razão do impeachment de Collor.

A partir de 1994, o PMDB descobriu que melhor do que ter candidato é estar com quem vencer. Não importa que lado vença. O PMDB apoiou FHC (PSDB) em 1994, em 1998 e em 2002. Com Lula eleito, bandeou-se para o governo antes mesmo da posse. Manteve-se na aliança em 2006, em 2010 e em 2014, quando exerceu sua maior peculiaridade: dividir-se para reinar.

Com seus 18 senadores, sozinho o PMDB tem 22% da Casa. Com seus 69 deputados federais, o PMDB tem 13% da Câmara. Comanda seis Estados. Está presente em sete ministérios até que rompa com Dilma. Tem 1.007 prefeitos, sendo apenas dois de capitais, e 7.950 vereadores. É um partido imenso, mas não representa nada. Exceto conveniências.

Com força no interior, dividido pelo país como capitanias hereditárias, cada líder com seu feudo político, o PMDB não é um partidos; são vários. Forjado na dura oposição ao regime militar, operador principal da transição negociada para a democracia, o partido sucumbiu ao governismo sem princípios. Está no poder desde 1985, à exceção de brevíssimos dois anos com Fernando Collor na Presidência entre 1990 e 1992. Agora vai para a oposição com o pensamento único de voltar a ser governo, desta vez à frente da barca, hoje à deriva.

Exemplo antigo de partido-ônibus, como definido pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso, o PMDB está mais hoje para partido-bônus, a render dividendos para suas lideranças nos meandros do poder, sem que tenha uma cara política. Promete que será diferente, caso Michel Temer assuma a Presidência. É pagar para ver.