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O inferno mora aqui

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YASIN AKGUL /Getty

A guerra na Síria tem cinco anos mas continua sem fim à vista. Se a primavera árabe pode ser considerada o detonador do conflito, a verdade é que as razões para o ódio étnico e o radicalismo religioso têm raízes profundas num país (e numa região) onde a paz foi sempre uma miragem distante

Se uma simples borboleta batesse as asas na Tunísia, poderia causar um furacão devastador na Síria? A guerra civil que assola a Síria parece demonstrar que o “efeito borboleta” é mais que uma simples teoria científica, é a metáfora perfeita para descrever a realidade que se vive no Médio Oriente e de como a vida de milhões de pessoas pode mudar com a força de um simples gesto.

Tudo começou de forma inesperada no dia 17 de dezembro de 2010, quando um humilde vendedor de frutas tunisino se encharcou de combustível e de seguida acendeu um fósforo. As imagens do seu corpo em chamas acabaram por incendiar a consciência do povo tunisino contra os recorrentes abusos da ditadura de Ben Ali, levando às intensas manifestações que terminaram com o regime tunisino. Estava dado o mote para a primavera árabe, e o acender daquele fósforo foi o “bater de asas” que daria lugar a um furacão de consequências imprevisíveis.

Na vizinha Líbia, o povo insurgiu-se contra outro ditador, Muammar Kadhafi, que foi deposto e executado após uma revolta armada que contou com o apoio e a intervenção militar do Ocidente. O furacão não ficou por ali e continuou pelo Egito — onde levou à queda de Hosni Mubarak — e prosseguiu o seu rumo até chegar à Síria, onde as primeiras manifestações tiveram lugar em janeiro de 2011. Tal como noutros países, as redes sociais serviram como fórum da oposição e de todos aqueles que estavam fartos do regime de Bashar al-Assad. Das redes sociais passou-se para as ruas, onde homens, mulheres e crianças se juntaram para entoar o refrão que se repetia por todo o mundo árabe: “Ash-sha’b yurid isqat an-nizam”, “o povo quer derrubar o regime.” Com o passar dos dias aumentou a repressão de uma ditadura que se negava a cair pacificamente, mas a brutalidade da polícia serviu apenas para potenciar o aumento da contestação que culminou em autêntica raiva quando no início de março a polícia deteve e torturou 15 crianças e adolescentes, acusados de escrever slogans contra o Estado. Repetiram-se os apelos para uma megamanifestação e no dia 15 centenas de jovens marcharam em Damasco e Alepo, num claro desafio que terminou com um banho de sangue e ficou para a história como o “Dia da Fúria”.

Começava assim a mortífera guerra civil na Síria, que cinco anos mais tarde continua sem fim à vista e ameaça converter-se num conflito regional. Porém, se é verdade que a primavera árabe pode ser considerada o detonador do conflito, as razões para o ódio étnico e o radicalismo religioso que marcam esta guerra têm raízes profundas num país (e numa região) onde a paz foi sempre uma miragem distante.

O PESO DO PASSADO

Encruzilhada de impérios, terra sem fronteiras definidas onde os povos viveram entre o jugo dos ocupantes e as constantes guerras sectárias. A Síria foi também um apeadeiro dos exércitos persas na sua marcha em direção à Grécia, e na retirada humilhante diante de Alexandre, o Grande, cujas vitórias deram lugar ao Império Selêucida e à expansão da cultura helénica por terras orientais. Nestes acontecimentos está o paradigma que viria a marcar o futuro do Médio Oriente: a rivalidade étnica entre persas e árabes e a ocupação ocidental iniciada por Alexandre, o Grande, e continuada nas Cruzadas e na colonização europeia do século XX.

Com a chegada dos romanos, a Síria ganhou a estabilidade necessária para se tornar uma das províncias mais ricas do império e cidades como Palmira floresceram com o comércio entre o Oriente e Roma através da famosa Rota da Seda. Foi nesta época que se construiu o senado e o teatro, edifícios que coabitavam com os templos dos deuses mesopotâmicos e cananeus e simbolizavam a riqueza e a cultura de uma era vibrante. Foi também neste período que Jesus Cristo nasceu, e o monoteísmo da nova religião não tardou a implantar-se na Judeia e a expandir-se até à Síria. Porém, a queda do Império Romano trouxe consigo nova instabilidade e o monoteísmo cristão viria a ser substituído pelo monoteísmo do Islão.

A nova religião assumiu-se como elemento aglutinador das tribos árabes e expandiu-se rapidamente pela Península Arábica, mas a morte de Maomé, em 632, iniciou uma longa disputa pela liderança que haveria de terminar no grande cisma que ainda hoje divide o Islão. Abu Bakr sucedeu-lhe e tornou-se califa; iniciando a expansão do califado pelo Levante e Mesopotâmia, mas morrendo ao fim de apenas três anos no cargo. Porém, um grupo de crentes defendeu que Ali Ibn Ali Talib — primo e genro de Maomé — era o verdadeiro sucessor, acabando por reinar como o terceiro califa após o segundo ter sido assassinado. Em 680 foi a vez de Muawiya fundar o Califado Omíada e tornar Damasco a sua capital, dando assim início à época de ouro do islamismo, que levaria o califado a construir um enorme império cujas fronteiras iam da Índia à Península Ibérica e que ainda hoje é a referência central da consciência histórica do mundo árabe.

No entanto, antes dos Omíadas construírem o seu vasto império e reinarem a partir da Síria, havia uma disputa interna por debelar. Quando Muawiya morreu e o seu filho Yazid herdou o título de califa, foi contestado por Husayn Ibn Ali (neto de Maomé e filho de Ali Talib) e a disputa acabou com a morte deste último na batalha de Karbala. O que poderia ter sido apenas uma de muitas batalhas tornou-se um momento decisivo da história islâmica. Os seguidores de Ali não aceitaram a sua morte e iniciaram o xiismo, em oposição aos sunitas, que consideravam Abu Bakr e Yazid os legítimos sucessores de Maomé e consideravam apóstatas quem defendesse o contrário. A adoção do xiismo acabou por seguir as linhas étnicas que dividem o Médio Oriente e tornou-se predominante entre os persas, enquanto a maioria dos árabes, curdos e turcos optaram pelo sunismo. No entanto, a longa linha divisória que segue o curso do rio Eufrates e percorre a Síria e o Iraque da atualidade acabou por ficar dividida entre o sunismo e o xiismo e é hoje a linha da frente do duelo geoestratégico que opõe a Arábia Saudita (árabe e sunita) ao Irão (persa e xiita).

ESPERANÇAS GORADAS

Ao apogeu do Califado Omíada sucedeu-se um longo período de rivalidades internas e guerras civis que levaram ao definhar e à fragmentação do império islâmico numa série de emirados e reinos. Nos séculos seguintes o mundo árabe viu-se resignado à condição de colonizado, desta vez pelo Império Otomano (que apesar de muçulmano era etnicamente turco), mas com o rebentar da Grande Guerra os árabes receberam a promessa de independência de um Lawrence da Arábia desejoso de glória, caso se aliassem aos britânicos num período particularmente difícil do conflito. Os árabes aceitaram a proposta e lutaram com galhardia, acreditando que com a chegada da paz a região seria dividida segundo as propostas de Hussein bin Ali, o emir de Meca que negociara o pós-guerra com as autoridades britânicas.

Terminado o conflito e desaparecido o espectro da derrota, o Reino Unido decidiu ignorar promessas antigas e optou por incluir a Declaração de Balfour no acordo de paz com o Império Otomano, ou seja, estabelecer a Palestina como “casa nacional” do povo judaico apesar da acirrada oposição árabe. Estava dado o primeiro passo para o futuro Estado de Israel, mas também para o crónico conflito israelo-árabe. Para cúmulo da humilhação, a ansiada independência tornou-se letra morta e o mundo árabe limitou-se a trocar de colonizador, sendo agora retalhado em protetorados britânicos e franceses que redesenharam o mapa político do Médio Oriente sem levar em conta as linhas sectárias e religiosas. Foi uma traição que o povo árabe não esqueceu nem perdoou, e cujas consequências trágicas se arrastam até ao presente.
À Síria coube em sorte tornar-se num protetorado da França, que não hesitou em acabar com o (curto) reinado do emir Faisal e definir as suas fronteiras a régua e esquadro. O rebentar da II Guerra Mundial renovou a esperança na liberdade, e em 1941 a Síria declarou a independência do seu “protetor”, numa altura em que a própria França também lutava contra a ocupação nazi.

Terminado o conflito, a França procurou protelar a independência e centenas de sírios perderam a vida quando a artilharia francesa abriu fogo sobre Damasco, mas a resistência do povo sírio acabou por ser compensada com a independência e os últimos soldados franceses abandonaram o território em abril de 1946.

A Síria era finalmente livre, mas os primeiros anos da jovem nação foram marcados pela instabilidade. Durante a primeira década registou 20 governos, quatro constituições e três golpes militares. Travou também a primeira de várias guerras contra Israel e viu o êxodo de dezenas de milhares de judeus sírios que escapavam à perseguição religiosa. O tumulto vivido na Síria era similar ao que se passava nos países vizinhos e em 1958 aceitou uma união com o Egito, em nome do pan-arabismo, mas a República Árabe Unida teve uma existência efémera e a sua dissolução em 1961 abriu caminho para o golpe militar de março de 1963, que instaurou o regime do partido Ba’ath e abriu caminho para a ditadura atual. Al-Bitar foi o seu primeiro líder, mas passados três anos perdeu o poder num golpe interno do general Salah Jadid, que pôs em prática uma política de alinhamento com a União Soviética e de confronto com a Arábia Saudita, mas não evitou a humilhante derrota sofrida às mãos de Israel durante a Guerra dos Seis Dias e o fracasso económico da adaptação ao modelo socialista. Em 1970 ocorreu um novo golpe interno orquestrado pelo ministro da defesa, Hafez al-Assad, que durante as três décadas seguintes governou o país com mão de ferro e moldou a Síria moderna. O partido Ba’ath também conseguiu triunfar no vizinho Iraque, onde Saddam Hussein acabou por chegar ao poder, mas a situação não poderia ser mais irónica: a Síria de maioria sunita era governada pela minoria alauita (um ramo do xiismo), enquanto no Iraque a maioria xiita era dominada pela minoria sunita.

A REVOLUÇÃO ARMADA

Quando Bashar sucedeu ao pai, em 2000, herdou uma ditadura odiada pela maioria da população e uma sociedade fraturada ao longo de linhas étnicas e religiosas. Os árabes sunitas representavam 60% da população, seguidos pelos árabes alauitas (12%), os curdos sunitas (9%), os gregos cristãos (9%), e por pequenas populações de arménios, assírios, circassianos, drusos e ismaelitas. A principal reivindicação dos protestos de 2011 passava pelo retorno da democracia e a distribuição do poder de forma igualitária, o que na prática correspondia a uma passagem de poder para a maioria sunita e o fim dos privilégios concedidos aos alauitas. Conscientes do que lhes poderia suceder através do exemplo iraquiano (onde a maioria xiita aproveitou a tomada de poder para ostracizar os sunitas), o governo e as elites alauitas negaram-se a fazer qualquer concessão aos manifestantes e optaram pela via da força. O exército sírio foi então enviado para as ruas com ordem para suprimir a revolta, mas se mais de 80% dos oficiais eram alauitas, 70% dos cerca de 300 mil recrutas eram sunitas e muitos milhares não hesitaram em passar-se para a oposição com armas e bagagens, formando os primeiros grupos do que viria a ser o Exército Livre da Síria (ELS).

Escalada. 
O que começou por ser uma insurreição evoluiu para uma guerra civil em que 
o constante apoio militar externo garantiu um contínuo fornecimento 
de armamento

Escalada. 
O que começou por ser uma insurreição evoluiu para uma guerra civil em que 
o constante apoio militar externo garantiu um contínuo fornecimento 
de armamento

AMER ALMOHIBANY/ Getty

No dia 31 de julho, a escalada da violência subiu um novo patamar quando o exército utilizou tanques para controlar os protestos em Abu Kamal, Deir Ezzor, Hama e Herak, e causou 136 vítimas entre a população civil. Na semana seguinte abriu fogo contra ambulâncias em Homs e as execuções em praça pública começaram a tornar-se recorrentes. Para compensar as deserções dos sunitas, o regime permitiu a formação de unidades paramilitares — as Shahiba —, que rapidamente ganharam fama pela crueldade dos seus membros, que não hesitavam em abusar do seu poder para matar, pilhar e violar. A par com os desertores do exército, a oposição síria também foi engrossando com os civis que se juntavam às milícias e algumas células islamitas que tinham usado a Síria como base para combater a ocupação norte-americana do Iraque. Os ataques sectários começaram então a multiplicar-se à medida que a oposição se ia afirmando nas províncias de Alepo, Deraa, Hama e Homs, e falhando em Latáquia e Tartus (dominadas pelos alauitas), assim como em Hasakah, no norte de Raqqa e no cantão de Efrin (dominadas pelos curdos, que oscilam entre a neutralidade e a aliança de circunstância com o governo).

GUERRA POR PROCURAÇÃO

Logo em 2011 começou o envolvimento estrangeiro no conflito sírio, e o efeito foi similar à tentativa de apagar um fogo com gasolina. A Turquia apoiou os grupos turcomanos junto à sua fronteira e permitiu a passagem de militantes e material para a generalidade da oposição. A Arábia Saudita, a Jordânia e o Qatar forneceram armas e dinheiro aos grupos sunitas, tanto os moderados como os islamitas, sendo que o grande objetivo destes apoios passava por garantir a vitória dos sunitas e a instauração de um estado islâmico contrário ao laicismo do partido Ba’ath. Os iranianos também entraram em cena para apoiar Assad, aliado na luta contra Israel e intermediário no fornecimento de armas a grupos como o Hamas e o Hezbollah, além de representar uma população xiita em situação de perigo.

O que começara por ser uma insurreição evoluiu rapidamente para uma guerra civil em que o constante apoio militar externo garantiu um contínuo fornecimento de armamento. Foi neste ambiente de crescente caos que a Al-Qaeda começou a ampliar as suas células clandestinas e em janeiro de 2012 formou a Jabhat al-Nusra, a filial síria que contava com o apoio da sua congénere iraquiana que à época se intitulava Estado Islâmico do Iraque, o famoso Daesh. Os anos de 2012 e 2013 foram cruciais para a radicalização da guerra e o fortalecimento dos grupos islamitas. Enquanto o regime sírio perdia o controlo sobre o meio rural e o hinterland sunita, o ELS continuava a revelar-se incapaz de agregar a miríade de grupos moderados que surgiam um pouco por todo o país e limitavam a sua atuação ao âmbito local. Os grupos islamitas, por outro lado, demonstravam que a disciplina e capacidade de organização (arduamente aprendidas durante os anos de luta contra os norte-americanos no Iraque) estavam a produzir os excelentes resultados na Síria. A Al-Nusra implantou-se firmemente no Leste do país e o Daesh infiltrou-se em Deir Ezzor, enquanto na região central expandiam-se grupos como o Ahrar al-Sham e a coligação Frente Islâmica.

Face à crescente violência da repressão governamental e às aspirações democráticas de parte da oposição, os governos ocidentais verbalizaram o seu apoio formal ao derrube da ditadura e à democratização do país através de um abrangente governo de transição que desse voz a todos os grupos étnicos e religiosos. Os Estados Unidos também alertaram o governo de Assad quanto ao que seria a linha vermelha que conduziria à intervenção no conflito: o uso de armas químicas do extenso e perigoso arsenal sírio. No entanto, com a situação do regime a desmoronar-se, Assad não só usou a sua força aérea em bombardeamentos indiscriminados como acabou por recorrer às armas químicas para tentar quebrar a resistência da oposição.

Em meados de 2013, o mundo assistiu horrorizado às imagens de homens, mulheres e crianças mortos durante ataques com gás sarin em Saraqib, Ghouta e Jobar. Estava ultrapassada a linha vermelha e a oposição moderada acreditava que tinha chegado o momento de o Ocidente passar das palavras aos atos, mas o desejo de evitar mais uma guerra no Médio Oriente e um acordo para retirar as armas químicas da Síria levaram os Estados Unidos a recuar nas suas ameaças e ficou claro, tanto para Assad como para os moderados, que o Ocidente não iria intervir no conflito. O mesmo não se pode dizer do grupo xiita libanês — o Hezbollah —, cujo líder anunciou em maio de 2013 a entrada das suas forças no conflito ao lado do regime de Assad, numa ação que se revelou fundamental para estabilizar a situação militar. Ao terminar o ano a guerra encontrava-se num período de equilíbrio relativo, mas os Estados Unidos e o Ocidente tinham deixado escapar a oportunidade de intervir no conflito no exato momento em que estava prestes a entrar numa fase decisiva.

A QUEDA NO ABISMO

Com o advento do Daesh na Síria, a selvajaria e a barbárie tornaram-se numa arma de terror e intimidação, e a tensão aumentou de forma progressiva até que em janeiro de 2014 os moderados do ELS uniram-se à Frente Islâmica e ao exército de mujahideen para combater o seu inimigo comum. A Al-Qaeda também cortou relações com o Daesh após este tentar absorver a Al-Nusra, e pareciam reunidas as condições para anular a ameaça de um grupo que se revelava cada vez mais mortífero e imparável. Os primeiros combates até correram bem, mas pouco a pouco a ofensiva foi perdendo o ímpeto e ao fim de seis meses era claro que os combates tinham esmorecido. Chegara o momento do Daesh mostrar o seu poder e lançar uma série de ofensivas que haveriam de surpreender todo o mundo.

Em junho passou ao ataque em todas as frentes. Da Síria, as suas colunas móveis passaram para o Iraque e avançaram de forma imparável pelo norte do país, capturando uma enorme quantidade de armamento e chegando até às portas de Bagdade, defendida pelo que restava do exército iraquiano e pelas milícias xiitas. De seguida procurou outro ponto fraco nas suas fronteiras e voltou-se contra os curdos, avançando sobre as posições dos peshmergas como um rolo compressor e atacando os seus congéneres sírios do YPG. Não tardou muito para chegar a vez das forças de Bashar Al-Assad se verem envolvidas numa batalha como o regime sírio jamais havia experimentado. Uma a uma, as bases que o exército sírio possuía na cidade de Raqqa foram conquistadas em combates convencionais de elevada intensidade que culminaram na luta pelo seu último bastião: a base aérea de Taqba, que terminou num massacre quando os soldados que se renderam foram degolados. Inebriado pelas vitórias, o líder do grupo assumiu o título de califa e passou a fazer-se chamar Abu Bakr al-Baghdadi, inspirado no nome do primeiro sucessor de Maomé e fazendo de Raqqa a capital do seu “califado”. A Al-Nusra foi o alvo seguinte e não resistiu ao embate, procurando refúgio nas províncias de Alepo, Homs e Idlib para escapar ao aniquilamento no leste da Síria. Em setembro, os Estados Unidos decidiram finalmente intervir na Síria, mas apenas para conter o Daesh, que daí em diante se tornou alvo de uma intensa campanha aérea.

A Al-Nusra aproveitou as “tréguas” do seu adversário islamita para reconstruir os seus quadros e liderar uma alargada coligação islamita numa potente ofensiva em Idlib, província até então relativamente calma. Em abril de 2015, avançou de forma imparável e conquistou rapidamente as principais posições do regime na província: Ariha e Jisr al-Shughour, tomando a capital de província em apenas três dias de combates. A guerra parecia encaminhar-se para a derrota do regime, mas a intervenção russa, em setembro, veio mudar por completo a dinâmica das operações e Assad voltou a ter a iniciativa que lhe permitiu acumular vitórias em Alepo e no sul do país, colocando em causa o futuro dos grupos moderados que se veem encurralados entre as forças do regime e os grupos islamitas.

Concluídos cinco anos de guerra, o preço humano é verdadeiramente avassalador e de uma população inicial de 22 milhões, cerca de 300 mil já perderam a vida e mais de 5 milhões viram-se forçados a procurar refúgio nos países limítrofes, tentando a partir daí a arriscada viagem para uma Europa que se vê a braços com a maior crise de refugiados desde o fim da II Guerra Mundial. No interior do país há sete milhões de pessoas deslocadas e as limpezas étnicas estão a acabar com comunidades milenares e a diversidade humana de um país que era tido como um dos mais tolerantes do Médio Oriente. O relativo insucesso da primavera árabe e a instabilidade que se seguiu à queda de ditadores (caso de Kadhafi na Líbia, Saddam Hussein no Iraque e Mubarak no Egito) também estão a alterar a perceção da opinião pública ocidental em relação a Assad, e podem ter inibido o apoio do Ocidente à oposição moderada, abrindo caminho para a radicalização dos muitos que já não acreditam na democracia. A Síria é hoje o terreno onde sunitas e xiitas lutam pelo poder e onde a Rússia mostra a sua força, onde a oposição moderada vai perdendo esperança numa Síria livre e os islamitas forçam a sua visão radical do Islão. E enquanto tudo isto sucede, o Ocidente observa sem se decidir como ou quando intervir.

Texto publicado na edição do EXPRESSO de 19 março 2016

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