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“O Lula é o cara. Dá tempo que ele resolve!”

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Buda Mendes/GETTY

Numa reunião com sindicatos, em São Paulo, Luiz Inácio “Lula” da Silva definiu o prazo: “precisamos de seis meses de paciência”, disse. Seis meses para salvar o Governo ou o Brasil?

SARA ANTUNES DE OLIVEIRA, ENVIADA DA SIC A SÃO PAULO

São, por agora, quatro homens espalhados pela rua. Três têm menos de 30 anos, Dino Rodrigues tem 48. Aproveita a sombra curta de uma árvore e o encosto do tronco para aguentar a espera longa debaixo do calor. É o posto dele nos turnos de 12 horas como segurança da casa de Lula da Silva, reforçada nos últimos dias. Nunca se vira de costas para a rua e está sempre a olhar em todas as direcções, mesmo durante a conversa. "Tem muito fascista que vem para aqui xingar", explica. A frase basta para perceber de que lado está na gigantesca barricada que dividiu os brasileiros.

O dia pior foi o da tomada de posse, na semana passada. Centenas de carros e pessoas encheram a Avenida Prestes Maia, em São Bernardo do Campo, nos arredores de São Paulo, terra onde Lula se fez sindicalista antes de ser político e onde ainda vive. O buzinão entrou pela madrugada dentro e não deixou ninguém dormir.

"Foi uma surpresa", diz Dino. "Ninguém melhor que as pessoas daqui para saberem que o Lula é um cara bom." O segurança, em regime de freelance porque o trabalho como vendedor imobiliário estava fraco, não esconde a admiração e pega no telefone para mostrar um vídeo que tenciona levar, um dia, ao ex-Presidente. Nas imagens, troca murros e pontapés com manifestantes anti-Governo, numa tentativa de romper o cordão humano que protegia um enorme "pixuleco" - um boneco insuflável gigante com a caricatura de Lula vestido com riscas pretas e brancas, tal e qual um "Irmão Metralha" da Disney. A ideia era abrir caminho para os outros elementos do grupo, todos com camisolas vermelhas da Central Única de Sindicatos, que queriam rasgar a lona e esvaziar o símbolo da manifestação. "Foi um sucesso", diz com um sorriso largo. "Quero que ele veja isso para lhe dizer que pode contar comigo para tudo. Se ele quiser, até vou lá para os jardins do Congresso fazer greve de fome para travar o impeachment. Se você conhecesse o Lula, você faria o mesmo."

Àquela hora, Lula não está em casa. Está para voltar de Brasília onde, suspenso como ministro, começou a trabalhar como uma espécie de assessor especial - e informal - de Dilma Rousseff. Os jornalistas que também esperam à porta dizem que a estratégia pode resultar, pelo capital político que o ex-Presidente conserva, essencial para manter a coesão no Governo e para impedir a destituição da Presidente. Dino interrompe a conversa para confirmar: "o Lula é "o" cara. Dá tempo que ele resolve!".

Parecia uma espécie de premonição do que iria na cabeça da figura mais carismática do Partido dos Trabalhadores (PT), já a caminho de São Paulo para uma reunião com vários sindicatos. Em terreno confortável e durante uma hora, Lula quis tranquilizar a principal base de apoio do PT: "sou um cara nordestino que não morreu até aos cinco anos, escapei da fome, cheguei na Presidência. Não vou desistir por meia dúzia de acusações."

A isso, acrescentou que não precisa de ser ministro para ajudar Dilma Rousseff e tem um prazo na cabeça, que vai pedir ao Congresso: "dêem para a gente seis meses de paciência que esse vai ser o país da alegria".

Do discurso para cerca de mil pessoas, sobram ainda os ataques à Lava Jato. Sublinhando sempre que se enganam os que pensam que ele não é contra a corrupção, citou o FMI para dizer que o PIB caiu 2,5% por causa do "pânico criado na sociedade brasileira" pela operação e apontou o dedo ao juiz Sérgio Moro, que acusa de estar a fechar empresas nesse combate: "quando isso terminar, você pode ter muita gente presa, mas pode ter muita gente desempregada nesse país".

Horas depois, Dino Rodrigues continua à porta. Quando, pelo telefone, lhe pergunto se o ex-Presidente está em casa, o SMS de resposta vem cheio de orgulho: "Viu o discurso do Lula? Foi legal. Falou com firmeza. Essa maldita crise política atrasa o país, mas vamos que vamos!"