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“O Daesh está a morrer mas ainda vai matar”

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Nos últimos seis meses, o Daesh perdeu 40% do território que controla na Síria e no Iraque. Foi isso que desencadeou os atentados em larga escala na Europa, diz ao Expresso, por Skype, Robert Pape, cientista político e investigador da Universidade de Chicago

Margarida Santos Lopes

Os dois atentados em Bruxelas foram cometidos menos de uma semana depois da captura do alegado cérebro dos ataques em Paris. Ficou surpreendido?
Não. Nos últimos seis meses o Daesh mudou totalmente de estratégia, ao lançar ataques em grande escala fora da Síria e do Iraque. Até então, os seus alvos eram simbólicos, assassínios individuais levados a cabo por ‘lobos solitários’, como os que [em janeiro de 2015] visaram o jornal “Charlie Hebdo”. O objetivo declarado é agora ‘atingir tudo e todos’. A 10 de outubro de 2015, um atentado suicida matou 103 civis em Ancara. Seis semanas depois, a 31 de outubro, morreram todos os 224 ocupantes de um avião russo que explodiu sobre o Sinai [Egito]. Duas semanas depois, a 13 de novembro, vários ataques, quase simultâneos, causavam 130 mortos em Paris.

Agora, Bruxelas. Porque é que o Daesh decidiu visar civis na Europa? Porque está a perder território. Controla apenas 40% das áreas povoadas no Iraque e Síria. Essa perda deve-se às ofensivas aéreas da coligação formada pelos EUA, com apoio de forças terrestres locais. Pela primeira vez, e isto é muito importante, temos um desertor do Daesh [Mohamad Jamal Khweis, 26 anos, cidadão americano, filho de imigrantes palestinianos residente em Alexandria, no estado de Virgínia]. Rendeu-se a combatentes curdos em Sinjar, Iraque. [Entrara na Síria, a partir de Istambul, vindo de Londres e Amesterdão]. Os ataques na Bélgica, em França e na Turquia são a tentativa de inverter uma derrota inevitável.

Estes ataques são apenas uma decisão estratégica? Não há relação com o fundamentalismo islâmico? Com o bairro de Molenbeek em Bruxelas?
Não posso garantir que os ataques nada tenham que ver com o fundamentalismo islâmico mas posso garantir que este não os explica. O Daesh está a atacar estados que fazem parte da coligação internacional que lhe declarou guerra. Deixou isso claro num comunicado. A Bélgica faz parte da coligação, mesmo que a sua presença seja mínima [cem militares de apoio e conselheiros]. A França e a Turquia são membros da coligação. A Rússia é visada porque permite a sobrevivência de Bashar al-Assad. Com ataques em grande escala, o grupo pretende afastar da equação países da aliança internacional, e forçá-los a uma reação desproporcionada. Interessa-lhe que as comunidades muçulmanas sejam marginalizadas, porque isso lhe facilita o recrutamento.

Haverá mais ataques após Bruxelas?
Sim. Pelo menos nos próximos seis ou 12 meses. Mas acredito que, com a continuação das campanhas aéreas da coligação, os territórios dominados pelo Daesh se desintegrem antes de o próximo Presidente dos EUA tomar posse [Janeiro de 2017].

A Indonésia, maior Estado muçulmano do mundo, não faz parte da coligação internacional mas houve ataques em Jacarta, em Janeiro. Portugal pode vir a ser alvo?
Há sempre esse risco. O Daesh não é um Estado nem um exército. Não tem propriamente um quartel-general. Até agora apenas tem incluído membros da coligação como alvos. O risco português não é zero mas é muito baixo.

Qual deve ser a resposta das forças de segurança, dos serviços de informação, dos governos?
Acima de tudo, devem explicar o porquê dos ataques. Se o não fizerem, a resposta será confusa, com erros atrás de erros. Foi o que aconteceu quando definimos a Al-Qaeda como organização religiosa, depois do 11 de Setembro. Baseados num diagnóstico errado, invadimos o Iraque [em 2003] e criámos mais terroristas do que matámos. Precisamos de mais vigilância e mais segurança interna. Não significa pôr blindados nas ruas mas investir num número maior de peritos capazes de decifrar toneladas e toneladas de informação. As câmaras de filmar são baratas, o que custa dinheiro é pagar a quem saiba interpretar as imagens corretamente.

O homem que estuda os ataques suicidas
Robert A. Pape é o fundador e diretor do Chicago Project on Security and Terrorism (CPOST), considerado a maior base de dados sobre ataques suicidas do mundo — quase 5000, analisados desde 1980. São catalogados por data, alvo, armas e número de mortos. O primeiro relatório, publicado em 2014, contabilizou 4300 mortos em 15 países, sendo o Iraque e o Afeganistão os piores. O CPOST é também um instituto de segurança internacional. Funciona na Universidade de Chicago onde Robert Pape é professor de Ciência Política. Pape foi consultor das campanhas de Barack Obama e do republicano Ron Paul.