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Depois de Obama, os Stones estão em Havana. E “os cubanos estão entusiasmados”

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Numa só semana, Havana acolheu Obama e os Stones tocam neste palco, com 80 metros de comprimento, 56 de largura e 20 de altura. Para celebrar... este cubano fuma um charuto

IVAN ALVARADO/REUTERS

Cuba continua a fazer história: esta noite há um concerto gratuito dos Rolling Stones em Havana. Veja o vídeo de Mick Jagger e leia a entrevista ao embaixador de Portugal em Cuba, que fala sobre a visita de Obama, o concerto dos Stones, e as relações entre Portugal e a ilha que foi encontrada por Colombo em 1492

Os “cubanos estão entusiasmados” com o concerto dos Rolling Stones em Havana, disse ao Expresso Luís Faro Ramos, embaixador de Portugal em Cuba: “Em poucos dias, [vivem] dois acontecimentos históricos, e os olhos do Mundo [estão] postos em Cuba”. Também Mick Jagger, no vídeo “Olá Cuba”, especialmente feito para a população deste país latino-americano, diz: “Estamos muito felizes por irmos tocar para vocês. Já tocámos em muitos lugares incríveis, mas este concerto de Havana vai ser um momento histórico para nós”.

Espera-se que cerca de meio milhão de pessoas assista ao concerto desta sexta-feira, no complexo da Cidade Desportiva de Havana. O espetáculo é aguardado com tanta expectativa que o “Granma”, órgão oficial do comité central do PC cubano, na edição de 7 de março, publicou uma reportagem sobre os preparativos.

Nesse texto, lê-se que o concerto começa às 20h30, dura “duas horas e 15 minutos, e é gratuito para todos os que a ele assistam no complexo desportivo, sejam cubanos ou estrangeiros”.

Cinco dias depois, o site “14ymedio”, conotado com a oposição ao regime, e onde colabora a blogger Yoani Sánchez, escrevia que “há várias semanas que trabalham na montagem técnicos alemães, britânicos, espanhóis, americanos, peruanos e cubanos”. Esta quarta-feira, a Reuters, contava que os Stones enviaram para Havana uma equipa de “140 colaboradores e 500 toneladas de equipamento” que incluem o palco, altifalantes, luzes e telas de vídeo.

Para além dos técnicos estrangeiros, 80 cubanos trabalharam nos preparativos do concerto desta noite, que esteve inicialmente pensado para dia 20, acabando por ser adiado por causa da primeira visita de um Presidente dos EUA a Cuba, em 88 anos.

Entrevistado pelo Expresso, o embaixador de Portugal em Havana fala da visita de Obama, das mudanças que estão a acontecer, das relações de Portugal com Cuba, e diz que “infelizmente” não poderá assistir ao primeiro concerto da banda britânica em Havana: “Espero que o concerto seja gravado, para depois, ao longo dos próximos tempos, podermos todos usufruir de um espetáculo que perdurará, por diversas razões, na memória de cubanos e cidadãos dos outros países”.

Os embaixadores de Cuba em Lisboa e de Portugal em Havana, Johana Tablada e Luís Faro Ramos

Os embaixadores de Cuba em Lisboa e de Portugal em Havana, Johana Tablada e Luís Faro Ramos

DR

A entrevista de Luís Faro Ramos

Em sua opinião, qual era a maior expectativa dos cubanos em relação à visita do Presidente Obama?
Mais de 50 anos de relações diplomáticas bilaterais interrompidas forjaram no povo cubano um sentimento muito forte de identidade. Atualmente, o Presidente Obama goza de uma grande popularidade em Cuba, porque representa uma viragem determinante no modo como os Estados Unidos da América encaram o seu relacionamento bilateral com este país. Julgo que a população cubana espera que a visita possa vir a ter como resultado uma significativa melhoria, ainda que só a médio ou a longo prazo, das suas condições económicas. Apesar do embargo económico se manter, algumas decisões tomadas pelo Presidente Obama, sobretudo as mais recentes (da semana passada) permitirão o desenvolvimento de negócios dos dois lados.

E do lado do Governo de Havana?
Do lado do Governo espera-se sobretudo, penso, que a visita ratifique a viragem que menciono na resposta à questão anterior, colocando o relacionamento bilateral ao nível do respeito mútuo e reconhecimento de um ponto fundamental para a normalização plena, o de que os dois países são diferentes e têm conceções diferentes sobre questões políticas, económicas e culturais.

Os Presidentes Raúl Castro (esq.) e Barack Obama (dir.) saudados por uma banda militar durante a visita de Obama a Cuba

Os Presidentes Raúl Castro (esq.) e Barack Obama (dir.) saudados por uma banda militar durante a visita de Obama a Cuba

ALEJANDRO ERNESTO / EPA

Esta viagem é um passo decisivo para o fim do embargo, e a resolução da questão Guantánamo?
Em relação ao embargo, será um passo relevante, não decisivo certamente, na medida em que do lado do Congresso dos EUA tem sido claro que o levantamento do embargo não está para já em cima da mesa. O Presidente dos EUA e elementos da Administração norte-americana têm afirmado que o seu desejo é ir convencendo os legisladores de que o embargo já não faz sentido, e através das decisões tomadas e da aproximação encetada, demonstrar que a normalização é irreversível e o embargo, mais cedo ou mais tarde, será levantado. É também relevante para este ponto mencionar que a larga maioria da Comunidade Internacional é contra o embargo, e que nos próprios EUA parece estar a crescer o número daqueles que se opõem a tal medida.

Quanto à devolução a Cuba da base naval de Guantánamo, as declarações conhecidas de um lado e outro não permitem antever que esse passo esteja para breve.

Cubano com a edição do “Granma”, órgão oficial do comité central do PC cubano, que tem a visita de Obama na 1ª página

Cubano com a edição do “Granma”, órgão oficial do comité central do PC cubano, que tem a visita de Obama na 1ª página

JEFFREY ARGUEDAS

Nota uma maior abertura do Governo cubano em relação à politica externa desde que assumiu funções em setembro de 2015?
Este curto período temporal não me permite, porventura, dar uma resposta completamente informada a esta pergunta, mas parece-me que o Governo cubano está a entender de um modo aberto e empenhado os problemas e desafios com que a Comunidade Internacional em geral e a região da América Latina e Caraíbas em particular se confrontam atualmente.

A população já tem condições para receber mais remessas dos familiares emigrados?
Tanto quanto sei nunca deixou de ser permitido aos cidadãos cubanos que se encontram fora do país enviarem remessas financeiras para os seus familiares que estão em Cuba.

Os cubanos têm possibilidades de sair do país em termos práticos, ou a hipótese de viajar ainda fica muito restrita?
Penso que os cubanos beneficiam, sem restrições, da possibilidade de viajar para o estrangeiro, com uma exceção recente que abrange profissionais médicos.

Estátua de Camões em Havana. Noutro ponto da cidade, uma placa assinala a passagem do cônsul de Portugal, Eça de Queiroz, pelo café “La Columnata Egipciana”, quando esteve colocado nas Antilhas Espanholas

Estátua de Camões em Havana. Noutro ponto da cidade, uma placa assinala a passagem do cônsul de Portugal, Eça de Queiroz, pelo café “La Columnata Egipciana”, quando esteve colocado nas Antilhas Espanholas

DR

Estão a ser feitas ações concretas para promover o ensino da língua portuguesa em Cuba e promover as exportações de produtos portugueses?
Foi assinado, no final do ano passado, um Protocolo entre o Instituto Camões e a Universidade de Havana, que contempla a instituição de um Leitorado de português junto daquela Universidade. A Leitora designada para o efeito chegou a Havana há cerca de duas semanas, e está já em pleno período de preparação para o desenvolvimento da sua atividade. Trata-se de um passo importantíssimo para a promoção da Língua portuguesa em Cuba e respetivo ensino.

Vai haver outras atividades no âmbito cultural?
Será também executado este ano um ambicioso Plano de Atividades culturais, que contempla designadamente uma mostra de cinema português, a celebração do dia da língua portuguesa e um repertório de fado cantado por artistas cubanos.

E o plano económico?
Quanto à promoção das exportações portuguesas, há que dizer que no ano passado se registou um aumento de cerca de 40% em relação ao ano anterior (2014), regista-se um interesse crescente por parte dos empresários portugueses no mercado cubano, e esta Embaixada assume-a como uma das suas tarefas principais, juntamente com o trabalho político/institucional e a área da Língua e Cultura. Há ainda que referir a existência de uma muito dinâmica Câmara de Comércio bilateral, que há cerca de um mês assinou um Protocolo de colaboração com a AICEP.

Quantos portugueses visitaram Cuba no último ano?
De acordo com dados disponibilizados pelas autoridades cubanas, mais de 15 mil.

Edifício da embaixada de Portugal em Havana

Edifício da embaixada de Portugal em Havana

DR

Qual é a imagem que os cubanos têm de Portugal?
A imagem de um país acolhedor, diversificado, de pessoas com mente aberta e disponíveis para o diálogo, e que tem algumas similitudes com Cuba, como a dimensão da sua população. O sucesso planetário de alguns desportistas portugueses contribui para essa imagem.

Agora que Cuba está a trilhar o caminho da abertura, quer mencionar três ou quatro valores sociais que considere importantes preservar no futuro?
Saúde, Educação, Cultura, Segurança. Para além daquilo que Cuba pode ganhar, é muito importante pensar-se agora naquilo que Cuba não pode perder.

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