Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

O empreiteiro e seus bons companheiros (ou mais uma história incrível sobre o Brasil)

  • 333

EMPREITEIRO. Marcelo Odebrecht, CEO da Odebrecht, foi condenado a 19 anos e 4 meses de prisão na sequência do escândalo Petrobrás. Sentença foi decretada no início de março e é passível de recurso

epa

Colaboração com a Justiça de executivos da Odebrecht pode demolir estruturas políticas brasileiras corrompidas

Plínio Fraga, no Brasil

O mafioso do filme Goodfellas, de Martin Scorsese, justificava que ser um gangster era melhor do que ser presidente da República, porque os gangsteres constroem seu próprio mundo. Um empreiteiro pode dizer a mesma coisa, ainda mais quando tem como bons companheiros os grupos políticos que se revezam no poder.

Maior empreiteira brasileira e o quarto maior grupo privado do país, o grupo Odebrecht decidiu estimular um acordo de colaboração com a Justiça de seus principais executivos. O ex-presidente Marcelo Odebrecht, que está preso há nove meses, deve liderar o auxílio na apuração de corrupção em obras públicas e na farra do financiamento irregular de campanhas políticas.

Nesta terça-feira, investigadores da Operação Lava-Jato disseram ter identificado um departamento de pagamento de propina que funcionava dentro da empresa. Promoveram um terremoto policial em suas instalações, levando uma dúzia de presos e centenas de quilos de papéis e computadores. Planilhas apreendidas demonstram pagamento de propinas pelo menos desde a década de 1980, sempre com os beneficiados sendo descritos por codinomes, como Turquesa, em operações graciosas chamadas “Paulistinha” ou “Carioquinha”.

A confirmar-se tal cooperação com a Justiça, pode-se começar a explicar como funciona o capitalismo à brasileira, no qual privatiza-se o lucro, mas se socializa os prejuízos - quando se agravou-se a guerra civil na Líbia, a Odebrecht deixou o país às pressas, mas bateu nas portas do governo brasileiro para ser ressarcida de prejuízos.

O processo de redemocratização do Brasil, a partir de 1985, encontrou no grupo Odebrecht mais do que um parceiro, um sócio. Empresa tradicional, é controlada pela família Odebrecht, que construiu um dos dez maiores grupos brasileiros, com ramificações na construção, na petroquímica e na produção de etanol.

reuters

A campanha que levou Tancredo Neves à Presidência da República, em 1985, tinha a Odebrecht como um dos financiadores. Já em 1987, na comprovação da fraude em licitação de ferrovia que cortaria o Brasil de norte a sul, a Odebrecht aparecia. Em 1989, a empreiteira alimentou o caixa do empresário Paulo César Farias, sócio de Fernando Collor, que sofreu impeachment. Em 1993, a empreiteira estava no escândalo da orçamento de obras públicas, com parcelas de dinheiro sendo desviadas a parlamentares e burocratas. A partir daí, onde houvesse um escândalo envolvendo obras públicas, a chance de a Odebrecht estar presente era tão grande quanto a de haver cimento em betão. A empreiteira e os políticos a cada passo reafirmavam-se como bons companheiros.

Descendente de família prussiana que chegou ao Brasil em meados do século
XIX, Norberto Odebrecht era um engenheiro pernambucano que viu o pai falir no ramo
da construção durante a Segunda Guerra Mundial. Ele fundou sua própria empresa, a construtora Norberto Odebrecht, na Bahia, em 1944. Teve, em princípio, o governo baiano e as empresas e instituições federais sediadas no Nordeste como principais clientes. A Odebrecht passou a ter um cliente especial a partir de 1953, a Petrobrás. O cume da relação foi a construção do edifício-sede da empresa no Rio de Janeiro, em 1972.

Desse ano em diante, passou a frequentar a lista das cinco maiores empreiteiras brasileiras. Começou construindo o aeroporto internacional do Rio e a usina atómica de Angra dos Reis e hoje está nas obras dos estádios da Copa do Mundo, nas extensões de metro e em oportunidades de negócios em Angola, na Argentina e mesmo na Líbia. Durante mais de 40 anos influenciou e ajudou a eleger governos brasileiros. Em troca, recebeu contratos milionários para executar. Hoje, o grupo empresarial fatura mais de €24 mil milhões em 28 países, empregando 128 mil pessoas.

reuters

A delação de uma secretária da empresa levou à prisão de 12 pessoas esta terça-feira. A Odebrecht cultiva o estilo empresa-família. A lealdade está acima de qualquer qualidade, funcionários de confiança trazem amigos e parentes para fazer carreira lá dentro e os principais executivos dificilmente trocam de emprego. Não é difícil remeter o conceito de família da empresa ao dos mafiosos italianos. A lei do silêncio sempre imperou.

Depois de preso, Marcelo Odebrecht, neto do fundador, deu mostras do pacto à sua volta. “Quando lá em casa as meninas brigavam, eu perguntava: quem fez isso? Eu talvez brigasse mais com quem dedurasse do que com que fez o fato”, disse a uma comissão de deputados.

O que mudou? Marcelo Odebrecht está preso desde junho de 2015, não se imaginava encurralado por um grupo de procuradores paranaenses e abandonado pelos políticos que elegeu. Gente do mercado especula como a Odebrecht, que carrega uma dívida de quase €24 mil milhões em meio à recessão, poderá sustentar-se. Está ameaçada de falir. Funcionários da Odebrecht já dão o tom da bomba política que pode vir. “Os concorrentes já contaram quase tudo. Para nós, vai sobrar a pior parte.”

A Odebrecht admite que a apuração da Lava-Jato “revela a existência de um sistema ilegal e ilegítimo de financiamento do sistema partidário-eleitoral do país”. A empresa faz a ressalva de não ter “responsabilidade dominante” sobre o esquema de corrupção investigado pela Lava-Jato e diz que continua “acreditando no Brasil”. O grupo afirma que também vai “adotar novas práticas de relacionamento com a esfera pública”.

Aguarda-se. O grau de verdade na confissão dos executivos da empresa definirá os rumos políticos do país daqui para a frente. Quanto mais amplos e verdadeiros forem os depoimentos, não sobrará pedra sobre pedra. Uma construtora pode desconstruir a arquitetura viciada dos financiamentos de campanha e dos contratos públicos brasileiros. Ou optar por fazer apenas um tremor de arrumação, como aqueles terremotos em que um espaço entre as vigas permitem-nas absorver o impacto da terra em movimento sem deixar ruir a estrutura.