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Bruxelas, cidade normal

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CHRISTIAN HARTMANN / Reuters

A Bélgica tenta reagir ao terror recusando a intimidação e prosseguindo com a vida normal. Relato na primeira pessoa de João Macdonald, editor da revista “Up”, residente na área da estação de metro de Maelbeek

João Macdonald

1. Neste momento são quase sete da tarde do dia 23 de março de 2016 e os ataques foram ontem. Como são quase sete da tarde, eu saio de casa e caminho até à Place Jourdan, que fica a minutos do Parlamento, da Comissão, do Conselho, da estação de metro de Maelbeek, e vou ao supermercado fazer compras para o jantar (preciso de hortelã-pimenta, limões e vinho branco). Mas como não são ainda exactamente sete da tarde, passo ali ao lado para espreitar as novidades do alfarrabista da Rue Froissart – que esteve fechado durante o lockdown de Bruxelas a seguir aos ataques de Novembro em Paris. No passeio em frente existe uma clínica frequentada por funcionários europeus entrando e saindo pela porta principal – ao contrário das semanas pós-lockdown, em que o acesso era uma pequena porta com polícias. Retomo o caminho para o supermercado. O hotel da Place Jourdan, onde se costumam hospedar políticos e dirigentes mundiais, não tem soldados à porta – como teve durante o lockdown. E as esplanadas dos restaurantes e bares da Place Jourdan estão cheias de gente, e a casota que vende batatas fritas tem as habituais duas longas filas de clientes, e o falso pedinte continua a pedir à porta do supermercado, e eu vou tratar das compras, e os ataques foram ontem. A minha esposa Alexandra sai do emprego daqui a meia-hora e depois vai buscar a nossa filha Sofia à ama.

2. Qualquer pessoa que tenha circulado nas ruas de Marraquexe ou Istambul sabe que o trânsito em Bruxelas é uma versão um pouco menos insana do daquelas cidades, misturado em paradoxo com um respeito calvinista pela regra de prioridade: os peões são obstáculos aos automóveis e quem vem da direita jamais desacelera. Hoje, um dia depois dos ataques, não foi assim. Eu quando atravessei cinco ruas para ir à Place Jourdan, e atravessei três pela passadeira e as outras não, tive os carros gentilmente a abrandarem, e foi a primeira vez que isto me aconteceu desde que cá cheguei há seis anos. Ao jantar perguntei à Alexandra, ela que conduz oito quilómetros em ida e volta até ao emprego: “Hoje achaste os condutores mais simpáticos?”. E ela começou por responder: “Hum... Agora que falas nisso...”.

3. A normalidade é uma forma de poder ao alcance de todos. Não requere partidos políticos, marchas de protesto, organizações sindicais ou violência organizada. Requere apenas livre arbítrio, que é um estado superior a qualquer uma daquelas coisas. No território do imediato, é a reacção mais eficaz a uma agressão. Um certo inconsciente colectivo produziu isso na cidade no dia a seguir aos ataques. A burguesa Bruxelas (e “burgueses somos nós todos”, dizia Cezariny), que entre os seus indígenas é contrariadamente cosmopolita (se a Bélgica fosse uma província no meio das serras, a maioria dos belgas estaria muito contente), esta Bruxelas não entrou em fúria, e até os condutores de automóveis pacificaram-se. É claro que Bruxelas sabe que em Bruxelas continuam aqueles que lhe querem fazer mal, e ao que ela representa, mesmo que estejam escondidos entre os que não lhe desejam mal nenhum. Mas as pessoas de Bruxelas, no dia a seguir aos ataques, optaram pela normalidade – só que “ninguém percebe que algumas pessoas despendem uma força hercúlea para serem apenas normais”, escreveu Albert Camus por volta de 1943.

NEIL HALL / Reuters

4. Há bocado não disse que, antes de ir ao supermercado, fui à varanda e olhei para o parque aqui atrás do prédio e nos baloiços e escorregas havia uma data de crianças a brincar e outras a dar pão aos patos do lago.

5. Mas a Ana, que é uma senhora da Mealhada que presta serviços de limpeza em nossa casa, não quer saber do Camus e está zangada com tudo isto. (Logo ela que percebe mais de políticos do que eu: eu trabalhei cinco anos no Parlamento Europeu, enquanto ela fez a limpeza do gabinete do Durão Barroso durante séculos e continua no do Juncker.) A Ana contou-me que ontem, na manhã dos ataques, vinda do seu turno na Comissão, ia a descer para a estação de Schuman – que fica antes da de Maelbeek – e paralisou ao ver um homem queimado correndo pelas escadas acima, e depois foi arrebatada pela turba atrás dele. “Já chega!”, disse-me a Ana. As palavras dela trazem o peso de mais de vinte anos de emigração na Bélgica e uns quantos antes disso em França. Sei também que o esforço de décadas possibilitou-lhe comprar um apartamento na sua terra, a onde pretende voltar em breve. A normalidade que persegue é uma questão distinta.

6. Desejo à Ana boa Páscoa quando ela termina o serviço aqui em casa, e faço-o com laica expectativa de renascimento. Olho para o relógio: os ataques foram há 31 horas. Consulto as notícias para saber o número actualizado de mortos e feridos e procuro saber os seus nomes. E daqui a umas horas sairei para ir ao supermercado da Place Jourdan, grato aos deuses da aleatoriedade por terem confirmado um pouco mais de futuro aos meus e a mim, que vou celebrar exercendo a normalidade e confirmando-a na rua.

NOTA: O autor não escreve segundo o acordo ortográfico