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Um mini-Trump brasileiro?

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Uma foto no blog “Família Bolsonaro” mostra Jair, o deputado federal mais votado no Rio de Janeiro, com três dos cinco filhos. Dos rapazes, já adultos, o prometido candidato à Presidência da República do Brasil em 2018 disse um dia: “prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Seria incapaz de amar um filho homossexual”

SARA ANTUNES DE OLIVEIRA, ENVIADA DA SIC A BRASÍLIA

Nos jardins junto ao Palácio do Congresso Nacional em Brasília, a cara de Jair Messias Bolsonaro está nas camisolas de pelo menos quatro jovens, desenhada com traço estilizado, em cima do verde e amarelo da bandeira nacional. Estão ali a preparar um protesto, mais um, pela destituição de Dilma Rousseff.

Não é um acaso: na procura de um impoluto que salve o país da doença da corrupção, são cada vez mais os que olham para Bolsonaro como alternativa. No final de fevereiro, uma sondagem da Datafolha registava o crescimento do deputado conservador nas intenções de voto para as Presidenciais. Não chega para ganhar, claro, e os 6% que agora acumula ainda têm de passar a 10% para ser o candidato oficial do Partido Social Cristão, mas a tendência de subida não deve ficar por aqui. O PSC, para onde se mudou há poucas semanas vindo do PP, é o setimo partido por onde passa e o que lhe promete os voos mais altos, mercê da força do movimento evangélico brasileiro, cujos votos todos procuram.

Nasceu em Campinas há 61 anos, fez carreira no exército e é agora um militar na reserva. Um passado que explica também que venham das Forças Armadas os seus maiores apoiantes. Alessandro é um deles, cheio de certezas quanto à “ficha limpa” de Bolsonaro. À saída da mesma manifestação em Brasília, explica: “não é corrupto, tem valores e pulso firme”. A namorada, ao lado, revira os olhos: “você só vai ouvir elogios dele. É militar. Ponto.”

A “ficha” de Bolsonaro está, de facto, aparentemente limpa, no que diz respeito a casos de corrupção, mas o deputado já prestou contas à justiça muitas vezes, sobretudo em processos de difamação que o levaram também à Comissão de Ética e a pedidos de suspensão de mandato. As declarações sobre a comunidade LGBT, por exemplo, valeram-lhe a condenação ao pagamento de 150 mil reais (quase 40 mil euros) de indemnização.

São antigas as posições polémicas do deputado sobre os homossexuais. E sobre os negros. E sobre as mulheres. E sobre tudo e mais alguma coisa. Algumas reveladas em entrevistas e discursos, outras em discussões com manifestantes, por exemplo. Aconteceu em 2008, durante um protesto pela revisão da Lei da Amnistia. Irritado e farto dos gritos do grupo que pedia a punição dos torturadores da Ditadura Militar, Bolsonaro, defensor da tortura como meio útil aos interrogatórios e apoiante da tomada do poder pelo exército, atirou: “o único erro da ditadura foi torturar e não matar.”

A internet não perdoa e repete à exaustão outras frases mais conhecidas, algumas em vídeo. Em 1998 disse à revista “Veja” que “Pinochet devia ter matado mais gente” e mais recentemente chamou “vagabunda” a uma colega deputada, em plena sessão parlamentar, e disse que nunca a violaria porque ela “não merece”. A propósito do polémico “Kit Gay” nas escolas, disse a Dilma Rousseff: “se o seu negócio é amor com homossexual, assuma!” e respondeu à cantora Preta Gil que os filhos nunca namorariam com uma mulher negra “porque foram muito bem educados”.

“Isso são coisas do passado”, diz Ricardo Roque, um dos 70 manifestantes acampados na principal Avenida de São Paulo há quase uma semana a exigir a queda do Governo. “Todo o mundo muda”, continua o apoiante do pré-candidato. “Quem de nós nunca disse coisas de que se arrependeu? Ele não tem esse direito?”.

Bolsonaro dispensará o ato de contrição e cavalga a onda do combate ao PT e ao Governo, enquanto alguns começam a falar num fenómeno semelhante ao do também polémico e conservador Donald Trump, ainda que sem a força da máquina do Partido Republicano nos Estados Unidos.

O brasileiro não parece incomodado com a comparação e, no Facebook, respondeu a um fã: “Trump é um dos homens mais ricos do mundo e eu talvez seja o deputado federal mais pobre do Brasil”.