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Ter Lula no Governo é uma questão de sobrevivência para Dilma

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BRASIL PARTIDO. Contestação nas ruas prossegue, indefinição política também

ADRIANO MACHADO / REUTERS

Dilma insiste na aposta de Lula como ministro como tentativa de conter impeachment. Se perder apoio do PMDB, chances de sair do cargo aumentam

Plínio Fraga, no Brasil

Acuada com o início do processo de abertura de impeachment na Câmara dos Deputados, a presidente Dilma Rousseff acertou com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que a prioridade do governo será tentar fazer com que ele tome posse como ministro-chefe da Casa Civil. Durante quatro horas de reunião nesta segunda à noite, Dilma e Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), discutiram estratégias políticas para amainar a crise na aliança governista. A avaliação do governo é que quanto mais demorar a posse de Lula como ministro maior será a dificuldade para tentar barrar o processo de impeachment.

Lula chegou a discutir a possibilidade de desistir de assumir o cargo de ministro, em razão das contestações judiciais que enfrenta. Suspensa por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), a posse de Lula envolve 21 ações na corte brasileira. Na conversa privada no Palácio da Alvorada, residência oficial da presidência, Dilma e Lula decidiram insistir na nomeação do ex-presidente, recorrendo de todas as formas possíveis da decisão de 18 de março do ministro Gilmar Mendes, que suspendeu a nomeação.

epa

Dificilmente o governo conseguirá derrubar a liminar de Mendes antes de 30 de março, data da próxima reunião do plenário do STF, que deverá julgar os recursos do governo.

Os líderes oposicionistas calculam que até meados de maio ocorra a votação no plenário da Câmara dos Deputados do pedido para abertura do processo de impeachment. Para ser aprovado, o pedido tem de ter o apoio de pelo menos 342 dos 513 deputados. Assim, basta ao governo conseguir o apoio de 172 parlamentares para contê-lo. Governistas já calcularam que a base de Dilma estaria em torno de 220 parlamentares, mas a oposição diz que esse número hoje está no limite dos 172 deputados. Assim, a tendência seria de o governo perder apoio a cada semana que passa.

Para tentar conter a sangria, a presidente Dilma Rousseff reuniu-se segunda à noite, antes do encontro com Lula, com os setes ministros do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e o líder da legenda na Câmara, Leonardo Picciani. Propôs articulação para fazer o PMDB adiar sua reunião do dia 29 de março, na qual pode ser anunciado o rompimento da aliança.

ADRIANO MACHADO / EPA

Se o PMDB romper com o PT, o impeachment pode tornar-se irreversível. A tendência no momento é o partido aprovar a saída do governo, mas dando prazo de 30 dias para seus ministros deixarem os cargos. Assim, o PMDB teria o melhor dos dois mundos: seus ministros ficariam no governo Dilma até seus últimos dias (caso o impeachment seja aprovado em maio) e poderiam estar ao mesmo tempo no apoio à posse de Michel Temer na presidência.

Na avaliação do governo Dilma, só Lula seria capaz de conter a debandada de setores expressivos do PMDB. Um terço do partido já é considerado causa perdida. Sem Lula como ministro, sem o poder de liberar verbas e nomeações de cargos, peemedebistas dizem que só lhe restaria a garganta para conter o PMDB. Mas o partido diz que a voz rouca de Lula é mais fraca que a voz das ruas em favor do impeachment.

  • Os brasileiros voltam-se para os magistrados, e em particular para aqueles com um perfil mais justiceiro, porque não encontram no sistema partidário nada de melhor do que o PT. Na realidade, foi essa a razão que os levou, depois das enormes manifestações de 2013, a reeleger Dilma Rousseff. A operação “mãos limpas” parece ser o modelo do juiz Sérgio Moro. O seu resultado em Itália: o sistema político foi dizimado, os partidos tradicionais foram substituídos por fenómenos populistas e a corrupção não só se manteve como até encontrou formas mais sofisticadas e diretas de intervir na política. Em vez de Bettino Craxi, Silvio Berlusconi. Com uma diferença: a democracia italiana era muito mais sólida nos anos 90 do que a democracia brasileira é hoje. Não vale a pena procurar nos tribunais o que só a política pode oferecer. Juízes julgam casos concretos com instrumentos muito precisos e limites muito rigorosos. Porque não dependem do voto, não podem fazer política. A regeneração dos regimes depende da construção de alternativas políticas ao poder que existe. Procurar a saída para crises políticas, económicas e sociais em salas de tribunais é preparar um país para uma catástrofe

  • Uma força de 380 polícias faz rusgas em oito Estados para investigar esquema e contabilidade paralela de subornos da Odebrecht. E há mais indícios que confirmam que o presidente do grupo, Marcelo Odebrecht, sabia da situação