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Bombistas-suicidas de Bruxelas eram irmãos conhecidos da polícia

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Polícia federal belga

Autoridades já identificaram Jalid e Ibrahim El Bakraoui como os responsáveis pelo duplo atentado no aeroporto de Zaventem na terça-feira

As autoridades belgas identificaram Jalid e Ibrahim El Bakraoui como os dois bombistas-suicidas que, esta terça-feira, se fizeram explodir na zona de partidas do aeroporto de Zaventem, provocando pelo menos 14 mortos e muitas dezenas de feridos. Os irmãos estavam no radar da polícia, mas não por suspeitas de radicalismo, antes por "atos de vandalismo e delinquência". Tudo aponta para que tenham sido eles os responsáveis pelo primeiro dos dois atentados que ontem mergulharam Bruxelas no terror.

As informações estão a ser avançadas pelo canal público belga RTBF. Citando uma fonte da polícia, a televisão francófona aponta ainda que Jalid, de 27 anos, alugou uma casa na rua Dries, no sul de Bruxelas, sob uma identidade falsa, para preparar os ataques desta semana. A vivenda fica situada no bairro de Forest, onde as autoridades belgas, em conjunto com as francesas, levaram a cabo buscas na semana passada que, em última instância, conduziram à captura de Salah Abdeslam na sexta-feira. Abdeslam era o único dos suspeitos envolvidos nos atentados de novembro em Paris ainda em fuga.

Foi em Forest que as duas forças policiais foram atacadas durante buscas num apartamento, onde foi encontrada uma bandeira do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) e um livro sobre salafismo, uma corrente extremista do Islão. A troca de tiros nesse dia feriu quatro agentes, três belgas e uma francesa, e resultou ainda na morte de um suspeito, com outros dois a fugirem do local. Crê-se que um desses dois fugitivos era Salah Abdeslam, que viria depois a ser capturado no subúrbio de Molenbeek.

O Bakraoui mais velho, Ibrahim, de 30 anos, terá participado num outro tiroteio com a polícia belga em 2010, um ano antes de o seu irmão ter sido condenado por roubo, avança o jornal "Dernière Heure". Tal como os irmãos Abdeslam, os irmãos Bakraoui terão vivo sempre em Bruxelas. As identidades dos alegados suspeitos, avançadas em exclusivo por fonte da polícia à RTBF, parecem comprovar as ligações entre os ataques do ano passado que vitimaram 130 pessoas na capital francesa e os atentados desta terça-feira no coração da União Europeia.

Terceiro suspeito continua em fuga

O segundo atentado de ontem, que provocou pelo menos 20 mortos na estação de metro de Maelbeek, no centro da cidade, poderá ter sido levado a cabo com a ajuda do terceiro homem captado pelas câmaras de segurança do aeroporto ao lado dos irmãos. A polícia belga está a pedir no seu site oficial a todos os cidadãos que ajudem a tentar apurar a identidade deste terceiro suspeito.

Alguns media belgas estão já a avançar que esse homem poderá ser Najim Laachraoui, de 25 anos, descrito no site DH.be como o possível fugitivo pelas parecenças físicas entre o terceiro homem das imagens CCTV e a foto de Laachraoui divulgada pela polícia belga na terça à noite. O homem já estava na mira das autoridades após o seu ADN ter sido encontrado numa das casas usadas pela célula do Daesh que atacou Paris em novembro, segundo explicou a procuradoria belga na segunda-feira, antes de Bruxelas viver o seu dia mais negro em décadas. De acordo com as autoridades, em setembro Laachraoui tinha viajado com Abdeslam, o cérebro dos atentados de novembro, até à Hungria.

De acordo com o "The Guardian", a caça ao homem a ser conduzida pela polícia belga continua em marcha "de forma massiva", em busca deste terceiro suspeito, não havendo para já confirmações oficiais de que seja o homem apontado pelos media belgas. Durante um dos raides das autoridades na terça à noite, na comuna de Schaarbeek, um subúrbio a norte de Bruxelas, a polícia descobriu um engenho explosivo com pregos, produtos químicos variados e uma bandeira do Daesh, diz a correspondente do jornal britânico em Bruxelas.

De acordo com Angelique Chrisafis, Laachraoui cresceu no bairro de Schaerbeek e terá viajado para a Síria em 2013, tornando-se num dos mais importantes recrutadores de militantes do Daesh entre os jovens de Bruxelas. Em 2014, foi emitido um mandado de captura internacional contra ele, o que não impediu que voltasse para a Bélgica vindo do Médio Oriente. Desde dezembro que, no âmbito das investigações aos atentados de Paris, a polícia procura um homem que usa o pseudónimo Soufiane Kayal e que recentemente se comprovou ser Laachraoui.

O peso da família

Há uma nota que começa a ser comum no rescaldo de atentados em solo europeu, um fenómeno que tem as suas raízes na guerra do Iraque e que ficou notório após o ataque à redação do semanário satírico "Charlie Hebdo" na capital francesa em janeiro de 2015 e que encontrou eco tanto nos atentados de novembro também em Paris como nos que ontem varreram Bruxelas.

Falamos das ligações de sangue entre alguns dos suspeitos envolvidos nesses ataques, mais precisamente o facto de serem irmãos. Em janeiro do ano passado foram os irmãos Chérif e Said Kouachi a matar a sangue frio 11 pessoas dentro da redação do "Charlie", ferindo outras 11. No final desse ano, nos sangrentos atentados de 13 de novembro que vitimaram 130 pessoas, Ibrahim Abdeslam foi um dos terroristas mortos e o seu irmão, Salah, que conseguiu escapar da capital francesa a seguir à onda de ataques, foi o último dos fugitivos a ser detido pela polícia, no final da semana passada, na capital belga. Agora, as autoridades responsabilizam os irmãos Bakraoui por um dos dois atentados desta terça-feira em Bruxelas.

Reagindo à notícia desta manhã, o "The Guardian" repescou um artigo escrito por Jason Burke publicado uma semana depois dos atentados de novembro em Paris, onde o especialista em terrorismo islâmico referia o fenómeno da "jihad pela família", sublinhando que quando membros de grupos como o Daesh se tratam por irmãos, muitas vezes são-no mesmo.

"Há dez anos, oficiais do exército no Iraque identificaram que ter um membro da família já envolvido [em redes extremistas] é um dos maiores preditores de que um indivíduo vai envolver-se em militância violenta, islamita ou de outra natureza", escreveu o jornalista no artigo intitulado "'Jihad pela família': Porque é que as células terroristas muitas vezes são compostas por irmãos?".

Nesse texto, Burke sublinhava que isto não é exclusivo de relações fraternas. "Pode ser um irmão, pode ser um pai. Abdel-Majed Abdel Bary, o britânico aspirante de rapper tornado recruta do ISIS [Daesh], é filho de Adel Abdel Bary, um militante egípcio que chegou ao Reino Unido em 1991e que mais tarde foi condenado em Nova Iorque pelo seu papel no ataque da Al-Qaeda a embaixadas dos EUA no leste de África em 1998. Mais recentemente no Reino Unido, os pais de jihadistas foram detidos e alguns formalmente acusados por ofensas relacionadas com a Síria." No artigo é ainda referido que investigações recentes conduzidas pelo Nova América, um think-tank apartidário dos Estados Unidos, "mostram que mais de um quarto dos militantes vindos do Ocidente tem uma conexão familiar à jihad".