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Terroristas viram-se para quatro novos “principais alvos”: a análise de Miguel Monjardino

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FABRIZIO BENSCH / Reuters

Os governos, os serviços secretos e as polícias não têm recursos infinitos. É impossível proteger milhares de pessoas nos grandes espaços públicos das capitais europeias, escreve o cronista do Expresso e especialista em política internacional

Uma primeira análise ao nível tático e estratégico dos ataques terroristas em Bruxelas:

1. É altamente provável que a operação policial franco-belga que levou à detenção de Salah Abdeslam na sexta-feira tenha obrigado a célula terrorista a agir rapidamente para evitar ficar comprometida;

2. Depois do 11 de Setembro de 2001, um ataque contra edifícios governamentais ou embaixadas passou a ser muito mais díficil do ponto de vista tático-operacional. Estes alvos estão muito bem protegidos e defendidos por forças policiais e militares;

3. Para ter hipóteses de ser bem-sucedido, um ataque deste tipo exige células terroristas altamente treinadas, uma logística muito grande no terreno e uma grande quantidade de armamento e explosivos. A cooperação política, dos serviços secretos e das polícias na Europa torna este tipo de ataques muito mais difíceis;

4. Os aeroportos, as estações de metropolitano, os hotéis e as grandes salas de espetáculos nas capitais europeias são agora os principais alvos daqueles que usam o terrorismo para atingir os seus objetivos políticos. Os governos, os serviços secretos e as polícias não têm recursos infinitos. É impossível proteger milhares de pessoas nestes grandes espaços;

5. Do ponto de vista dos terroristas, este tipo de alvos oferece grandes vantagens ao nível tático e estratégico: (I) um ataque como o desta manhã em Bruxelas é relativamente barato; (II) não exige um grupo muito grande de operacionais terroristas; (III) tem um enorme impato psicológico; (IV) grande valor em termos de propaganda política e, (V) um impacto económico substancial – um pequeno grupo de pessoas obrigou a Bélgica a parar esta terça-feira;

6. Bruxelas tem sido o símbolo da integração europeia. Este processo assentou na ideias da paz, liberdade e prosperidade económica. A capital da Bélgica arrisca-se a ser vista cada vez mais como a capital do terrorismo na Europa. Um dos objetivos do terrorismo é gerar medo e criar as condições para a fragmentação política a nível interno;

7. Desde 2016, imensas pessoas saíram da Bélgica para combater na guerra civil na Síria contra o regime de Bashar al-Assad. Os números não são muito precisos, mas estamos a falar de centenas de homens e mulheres motivados do ponto de vista ideológico e religioso. Pelo menos, cerca de 100 já regressaram à Bélgica ou aos países europeus;

8. Do ponto de vista logístico, Bruxelas é uma cidade crucial para a atividade terrorista. É lá que estão as principais instituições europeias e euro-atlânticas. Isto explica o ataque na estação de metro de Maelbeek. Além disso, cidades como Amesterdão, Colónia, Estrasburgo, Frankfurt, Berlim ficam perto ou são facilmente acessíveis por causa do acordo de Schengen. O tráfego anual no aeroporto de Zaventem em Bruxelas ronda os 21 milhões de pessoas;

9. A pressão militar na Síria e no Iraque sobre o Daesh e outros grupos sunitas que lutam para manter o poder político e o território conquistado aumentará a necessidade de estes grupos e dos seus aliados retaliarem no Médio Oriente e nas cidades europeias. O terrorismo será a sua principal opção;

10. Os ataques terroristas devem ser vistos no contexto do processo de declínio e implosão da ordem regional do Médio Oriente que está atualmente em curso. A guerra civil na Síria, a fragmentação do Iraque, a ascensão do Daesh e os refugiados que fogem de uma terra sem presente nem futuro são os principais sintomas deste processo. Este acontecimento histórico promete ser longo e violento a nível regional e terá consequências em toda a Europa durante muitos anos.

11. Do ponto de vista estratégico, a questão mais importante é saber se este processo de declínio da ordem regional do Médio Oriente levará as sociedades e os governos europeus a optar por mais ou menos integração política e económica. O referendo em Inglaterra dará o primeiro grande sinal político desta tendência.

12. O dia desta terça-feira está a ser marcado por questões táticas e pelo ritmo das televisões e redes sociais. Contudo, o que será decisivo para todos nós serão as consequências ao nível estratégico. Ao contrário do que aconteceu esta manhã em Bruxelas, estas serão escolhidas por nós.