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O que já se sabe e o que continua por desvendar sobre o ataque ao coração da UE

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Getty

Amaq, o portal de notícias online ligado ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), garante que duplo atentado desta terça-feira de manhã na capital belga foi levado a cabo pelo grupo jiadista. Não refere, contudo, se foi em reação à captura do militante Salah Abdeslam, cérebro dos atentados de novembro em Paris que até há quatro dias vivia escondido num subúrbio de Bruxelas. É uma das dúvidas em aberto

O que aconteceu?

Pelas 8h da manhã em Bruxelas, menos uma hora em Lisboa, duas explosões foram sentidas na zona de partidas do aeroporto de Zaventem, o maior da capital belga. Em menos de uma hora, a suspeita de atentado terrorista foi confirmada, com uma nova explosão a abalar a cidade horas depois, desta feita na estação de metro de Maelbeek, mesmo ao lado da sede da Comissão Europeia. O balanço de vítimas ainda não parou de aumentar, com as autoridades a confirmarem, a meio da tarde em Bruxelas, que pelo menos 30 pessoas morreram nos dois ataques, havendo mais de 180 feridos.

Quem levou a cabo estes ataques?

O atentado foi reivindicado pelo Daesh. Este grupo jiadista já tinha feito uma demonstração violenta de terror na Europa há quatro meses, mais precisamente a 13 de novembro, quando uma célula do grupo levou a cabo uma série de ataques na capital francesa, matando 130 pessoas. Ao longo dos meses seguintes, as autoridades de França e da Bélgica apuraram que o grupo de militantes vivia na comuna bruxelense de Schaerbeek, a cerca de 13 quilómetros do aeroporto de Zaventem. O cérebro dos atentados de Paris, Salah Abdeslam, que assumiu entretanto que estava a ser preparado um ataque na capital belga, foi capturado pelas autoridades na semana passada, num outro subúrbio de Bruxelas, Molenbeek. Oficialmente, o primeiro-ministro belga, Charles Michel, diz que ainda não há confirmações de que os ataques de hoje estejam relacionados com a captura de Abdeslam.

A meio da tarde em Lisboa, a Amaq, portal online que funciona como a agência de notícias do Daesh, confirmava que o grupo foi o autor do duplo atentado. "Militantes do Estado Islâmico abriram fogo dentro do aeroporto de Zaventem, antes de vários deles detonarem cintos com explosivos, tal como um bombista mártir detonou o seu cinto de explosivos na estação de metro de Maelbeek. Os ataques resultaram em mais de 230 mortos e feridos", lê-se na publicação.

Já foram encontradas pistas?

De acordo com vários media locais, foi encontrada uma kalashnikov na zona de partidas do aeroporto durante a sua evacuação, a par de um colete de explosivos por detonar, que leva as autoridades a crer que pode haver pelo menos um terrorista em fuga.

A televisão estatal belga RTBF avançou pelas 13h em Lisboa que está a ser conduzida uma operação de buscas na comuna de Schaerbeek, próxima do aeroporto e onde em dezembro foram encontradas pistas que levaram à captura dos responsáveis pelos atentados de Paris.

Entretanto, o jornal belga "La Libre" foi o primeiro a divulgar o que diz ser uma imagem das câmaras de segurança do aeroporto que mostram dois alegados suspeitos dos ataques.

Porquê Bruxelas?

Poderá ser especulado que é pelo facto de ser efetivamente o centro político da União Europeia, mas há outras razões que poderão explicar a escolha. Entre elas destaca-se o facto de a capital belga estar no centro das operações antiterrorismo na Europa desde que Paris foi assolada pelos violentos ataques de novembro passado.

No rescaldo desses atentados, a polícia belga concentrou-se na comuna de Schaerbeek, a cerca de 40 quilómetros de distância da cidade de Bruxelas, onde em dezembro foram encontradas as impressões digitais de Abdeslam e vários cintos de explosivos num apartamento da rua Henri Bergé. Desde então, outras duas regiões da Grande Bruxelas têm estado sob supervisão das autoridades: a primeira Molenbeek, outra das 19 comunas que compõem a região de Bruxelas, onde o cérebro dos ataques de Paris foi capturado na sexta-feira. A segunda, de acordo com o "Libération", a cidade de Bruges, na costa noroeste belga, onde Abdeslam está preso há quatro dias.

Qual é a situação na cidade e na Europa?

Depois de o aeroporto ter sido totalmente evacuado pelas autoridades federais belgas, numa operação que terminou ao final da manhã, foi anunciado que este só deverá reabrir esta quarta-feira à tarde.

A circulação de transportes públicos dentro e ao redor da capital, suspensa no rescaldo da dupla explosão em Zaventem ao início da manhã, deverá ser parcialmente retomada pelas 16h locais. Segundo informações oficiais, a gare central de comboios não irá ser reaberta para já. Centros comerciais e escolas estão igualmente encerrados até novas ordens.

De acordo com o jornal "L'Echo", a família real belga foi levada para um local seguro logo a seguir ao ataque na estação de metro de Maelbeek. As pessoas estão a ser aconselhadas a permanecerem em casa até novas diretivas, havendo mais de mil soldados armados a patrulhar as ruas da capital belga.

Todos os funcionários da Comissão Europeia, do Parlamento Europeu e das outras instituições da UE com sede em Bruxelas estão dentro dos edifícios à espera de novas informações. Martin Schulz, presidente do PE, ordenou o cancelamento de todas as reuniões, missões e visitas agendadas para esta quarta-feira, pedindo aos deputados e funcionários da instituição que trabalhem a partir de casa, evitando deslocar-se às instalações.

O canal Ring TV e outros media e cidadãos nas redes sociais começaram a organizar uma corrente de solidariedade, pedindo às pessoas da área de Zaventem para levarem cobertores, água, comida e medicamentos até ao ginásio das imediações que está a ser utilizado como abrigo para os que foram retirados do aerporto.

Começam entretanto a surgir mensagens de amor e solidariedade escritas em estradas e ruas de Bruxelas, a par de movimentos cibernéticos com hashtags como #IkBenBelge — a versão flamenga do movimento #JeSuisCharlie, surgido após os atentados de janeiro de 2015 contra o semanário satírico "Charlie Hebdo", também em Paris.

O governo belga já declarou três dias de luto nacional.

Qual está a ser a reação de outros países?

Por toda a Europa, as autoridades estão a reforçar as medidas de segurança nas suas principais cidades em reação aos atentados de Bruxelas. As redes de telecomunicações móveis continuam, para já, saturadas, com as autoridades a pedirem aos cidadãos durante a manhã que trocassem SMS em vez de chamadas numa tentativa de manter as linhas minimamente disponíveis.

Líderes europeus, do primeiro-ministro britânico à presidente da Lituânia, enviaram condolências aos familiares das vítimas e ao povo belga, prometendo total cooperação e ajuda, tal como líderes e chefes de Estado de outros países mundo, desde o primeiro-ministro da Turquia ao presidente dos Estados Unidos (a ABC News faz uma boa compilação das reações oficiais AQUI).

Há reações críticas?

Figuras da extrema-direita estão já a fazer uso dos atentados para defenderem mais barreiras à imigração. É o caso de Jean-Marie Le Pen, o fundador da Frente Nacional (FN), que aproveitou a coincidência de estes atentados acontecerem à hora em que apresentava um novo movimento de extrema-direita para rivalizar a FN, da qual foi afastado pela filha há alguns meses.

Citado pelo site francês "Challenges", o finalistas das presidenciais francesas de 2002 declarou que os atentados em Bruxelas estão relacionados com a falta de controlos imigratórios. "A Bélgica está largamente impregnada de imigração, temos visto isso nas cidades de Molenbeek e Schaerbeek", declarou aos jornalistas presentes na apresentação do movimento "Jeanne au secours!" (em honra de Joana d'Arc, padroeira de França). "Os líderes franceses também deixam entrar no nosso território entre 200 e 300 mil estrangeiros por ano há 40 anos", acrescentou.

Em linha com a postura anti-imigração do francês, Donald Trump, aspirante à nomeação do Partido Republicano para disputar a presidência dos EUA em novembro, também aproveitou para reforçar a sua postura xenófoba e a favor da tortura — dizendo que "o waterboarding faria maravilhas" com Salah Abdeslam. "Temos de ser mais espertos aqui nos Estados Unidos", disse em direto no programa Fox and Friends. "Estamos a aceitar pessoas sem real documentação. Não sabemos de onde vêm, nem de onde são, nem quem são. Podem ser do ISIS [Daesh] ou estar relacionadas com o ISIS", disse, voltando a defender as suas bandeiras de campanha, como o encerramento da fronteira com o México e a perseguição da comunidade muçulmana dentro dos EUA. Pelo meio ainda aproveitou para declarar que Bruxelas é uma "cidade horrível".