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As ruas da minha cidade encheram-se de blindados do Exército. Outra vez

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Getty Images

“Pela segunda vez em pouco tempo, as ruas da cidade onde vivo encheram-se de blindados do Exército, polícias, ambulâncias, barulho de helicópteros. Cruzam-se nas ruas as pessoas que há dias andavam mais aliviadas com a prisão de Abdeslam. Mas o que mudou, pelo menos para mim, foi o olhar.” O testemunho na primeira pessoa de Miguel Calado Lopes, ex-editor do Expresso que agora vive em Bruxelas

Manda a rotina diária que eu leve o meu filho de 12 anos à escola. Mandam também outras razões que eu me encontre várias vezes por ano no aeroporto de Zaventem a apanhar um avião para Lisboa. Já tinha feito o “check-in” para esta quarta-feira. Manda também o meu quotidiano que utilize o Metro várias vezes, sempre na linha que passa por Maelbeek. Manda também um diálogo musical entre pai e filho, a caminho da escola, que fica na direção do aeroporto – ele quer ouvir hard rock ou hip-hop, e eu a mais clássica Musiq3. Entre os dois botões da rádio, ouço as primeiras notícias.

Sossego o meu filho, digo-lhe “olha, parece que houve uma explosão no aeroporto”. Talvez não tenha sido nada. Deixo-o na escola com o coração nas mãos e uma sensação de não pertença fortuita a uma tragédia cuja dimensão, dez minutos depois do ocorrido, ainda não era conhecida. Adeus, até logo. Amo-te. É assim que nos despedimos.

Regresso a casa, mas não chego ao destino. Faço inversão de marcha, volto à escola e pergunto estupidamente à professora que está a servir de guarda de segurança se o meu filho fica bem na escola, se fica seguro, se não corre perigo de vida, quero eu dizer, sem lhe dizer. Sim, sim, está tudo normal. O aperto entranhado no meu corpo não me larga e hesito em ouvir as más notícias.

epa

Mas não consigo deixar de ouvir. Sou um jornalista, apesar de tudo. Sigo a avenida de Woluwe, que conduz ao aeroporto, ouço e vejo as primeiras ambulâncias que começam a chegar ao Hospital Universitário de Saint Luc, ali perto da escola. A polícia estava a fechar a avenida para deixar livre o caminho para as urgências. E o que eu vejo não é o meu trajeto diário de ida e volta. O que eu vejo é uma paisagem urbana que de repente me surge enovoada por uma angústia pessoal que também sei ser coletiva. Ouço os primeiros relatos da explosão de Maelbeek. Bruxelas fica imobilizada, sem transportes, e eu fico paralisado num tempo vazio de sentido.

Pela segunda vez em pouco tempo, as ruas da cidade encheram-se de blindados do Exército, polícias, ambulâncias, o barulho dos helicópteros, cruzam-se nas ruas as pessoas que há dias andavam mais aliviadas com a prisão de Abdeslam. Mas o que mudou, pelo menos para mim, foi o olhar. A vida surge com uma fragilidade ainda maior. A antecipação da dor, da perda e do sentimento de impotência instala-se até se desvanecer quando dificilmente nos deixamos convencer que iremos ser daqueles felizardos que não se encontram no lugar errado à hora errada.

FRANCOIS LENOIR / Reuters

Não tenho alternativa nem refúgio. Não posso fugir. Não posso enfiar-me em casa, rodeado de brinquedos, de livros e de desenhos animados à espera que o mundo melhore. Não posso refugiar-me numa ilha solitária a ver o sol a nascer. Não posso deixar de andar de Metro, não posso deixar de ir ao cinema ou ao teatro. Não posso deixar de viajar, de gozar a beleza das pequenas e grandes coisas. Não posso deixar de ser livre.

Estou condenado por juízes de causas assassinas a olhar o meu próximo como se fosse um alienígena, habitante de um planeta com o qual não me faço entender. Falamos línguas diferentes. Na tentativa quimérica de me pôr a salvo de um destino desejado por gente desconhecida, tento descobrir no seu olhar, ou na sua ausência, uma intenção malévola. Não consigo. Não sou capaz de ver na cara de uma pessoa o que lhe passa pela cabeça e se ela me estende uma mão, para me ajudar ou para me matar, eu sou muito capaz de levantar os braços em sinal de rendição sem condições. A natureza humana é capaz do melhor e do pior, mas os atentados fazem pender a balança para um perigoso equilíbrio. Eu estou no prato dos bons mas a leveza dos meus valores não contrabalança o chumbo posto no prato dos maus.

Não posso deixar de viver como vivo, feliz por existir numa Terra que é um grão da grande poeira cósmica, só porque há gente que faz da morte um instrumento de vida. Tenho de viver como um anjo da guarda em guarda constante. Tenho de cuidar dos meus, assim como os meus cuidam de mim. Tenho de viver com um medo acrescido, e isso muda muito o modo como encaro o outro. O que é que ele leva debaixo do anorak? O que é que ele leva naquela mala? Porque é que ele me olha assim? Porque é que eu tenho de ser constantemente confrontado com este medo? É este um medo civilizacional encarnado na minha pessoa ou um medo individual e egoísta resultante do meu conforto? Não tenho resposta.

Apenas sei que continuarei a não ter medo de andar no meio da cidade porque também sei, embora nunca tenha presente, que posso ser atropelado por um condutor distraído. Tenho de continuar a andar nesta vida descontente sem pensar que posso morrer a qualquer momento. Por vontade de um terrorista ou por um azar da vida. É fraca a consolação na medida em que agora, e por enquanto, é mais difícil definir a margem de erro no cálculo das probabilidades da minha sobrevivência.