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ONG: há 19 mil doentes mentais na Indonésia que vivem acorrentados

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Ainda é prática comum na Indonésia acorrentar os doentes mentais e deixá-los presos dias, meses ou anos a fio, obrigando-os a “comer, dormir, urinar e defecar no mesmo lugar”. “É como viver no inferno”

Durante 15 anos, um homem manteve a própria filha acorrentada no seu quarto, lugar de onde nunca saiu, nem sequer para fazer as suas necessidades ou tomar banho. Nesse tempo, a única "visita" que recebeu foi a das crianças que lhe atiravam pedras e até a comida era recebida através de um buraco na parede. O motivo? Ela tem uma doença mental.

É uma prática demasiado comum na Indonésia. Embora oficialmente a prática de prender e acorrentar doentes mentais tenha sido banida em 1977, um relatório da Human Rights Watch (HRW) estima que ainda haja cerca de 19 mil pessoas a viverem nestas condições naquele país.

Os números oficiais do Governo indonésio confirmam um cenário negro: atualmente, 57 mil pessoas na Indonésia já foram acorrentadas pelo menos uma vez, podendo isto acontecer durante dias, meses ou anos.

Esforços frustrados

O estudo, cujos dados são aprofundados pelo "The Guardian", revela que na Indonésia, onde vivem 250 milhões de pessoas, só trabalham 800 psiquiatras e só estão abertos 48 hospitais para doentes mentais. Para mais, o orçamento anual dedicado ao Ministério da Saúde indonésio constitui apenas 1,5% dos gastos totais, o que leva a que 90% das pessoas que precisam destes tratamentos não os recebam.

Há alguns esforços que estão a ser feitos para mudar esta realidade. O projeto "Indonesia free from pausung" (Indonesia livre do pausung, o nome que se dá à prática de acorrentar estes doentes) visa erradicar este problema até 2019. No website da Mental Health Innovation Network, organização envolvida no projeto, pode ler-se que desde o início do programa em 2012, 4025 casos de pausung foram reportados e 82% desses doentes receberam tratamento adequado.

Prática brutal e muito disseminada

Apesar da ilegalidade da prática e de projetos como este, esta discussão continua a ser muito relevante, alerta Kriti Sharma, autora do relatório do HRW. "Acorrentar pessoas com doenças mentais é ilegal, mas continua a ser uma prática brutal e muito disseminada", avisa, citada pelo "The Guardian". "As pessoas passam anos presas com correntes ou a postes de madeira porque as famílias não sabem o que fazer e o Governo não oferece alternativas boas e humanas."

A referência às alternativas "humanas" é importante: segundo o relatório, mesmo nas poucas instituições que oferecem ajuda a este tipo de doentes, há sobrelotação, sendo que os doentes são frequentemente obrigados a "dormir, comer, urinar e defecar no mesmo lugar". Também se registam muitas vezes casos de violência sexual e tratamentos involuntários usando choques elétricos ou isolamento forçado, por exemplo.

"Muitas pessoas disseram-me: isto é como viver no inferno. E é mesmo", conclui Sharma.

  • Na aldeia de Karangpatihan, algures na Indonésia, vivem 120 pessoas. Destas, 30 têm alguma deficiência. A situação é dramática mas está a mudar graças a Eko Mulyadi, o homem que a população escolheu como líder