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O português que faz colchões em Cuba: “Aqui não se poupa há muito tempo”

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ROLANDO PUJOL / EPA

Há “três gerações que os cubanos não sabem o que é juntar dinheiro”, diz Luís Morim, gerente de uma empresa hispano-cubana que faz almofadas e colchões. Estava “apreensivo” quando foi destacado para Havana, mas confessa: “gostaria de manter-me por cá”. Agora, “Cuba só tem que melhorar”. A mesma Cuba que vive História: o presidente da América está em Havana

Barack Obama deixa Cuba esta terça-feira e Luís Morim também... mas com bilhete de regresso. “Vou ao Porto pela semana santa: Espero que o avião não se atrase a sair de Havana”, por causa da histórica viagem do Presidente dos EUA.

É gerente de uma empresa hispano-cubana com 100 trabalhadores, que produz almofadas e colchões que se vendem na ilha, para a hotelaria, para programas sociais de apoio à populaçao, e para as lojas. A fábrica fica nas imediações do aeroporto Jose Marti, e serve o pequeno-almoço e almoço a todos os que ali trabalham. “Aqui é assim, se precisarmos que fiquem a trabalhar até mais tarde, para além das horas extraordinárias, também temos de assegurar a alimentação”.

Num país onde uma parte significativa dos salários continua a ser baixa, e em que as famílias são obrigadas a viverem em economia de escala - partilhando a mesma casa entre várias gerações - ter um emprego que garanta refeições é um complemento interessante.

Em Cuba vive-se ao “ritmo do Caribe”. Só que esse ritmo não se aplica ao quotidiano da fábrica de espumas que Luís dirige, e onde é preciso “lidar com prazos de entrega. Gerir isto cria algum stress, mas a verdade é que toda a produção que chega às lojas desaparece” rapidamente.

Há 88 anos que nenhum Presidente dos EUA visitava Cuba. Raul Castro e Barack Obama saudados por uma banda militar

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ALEJANDRO ERNESTO / EPA

Os cubanos são “inteligentes”

“Estas pessoas não esperam muito!”, é a resposta de Luis Morim ao Expresso, quando lhe pedimos para falar sobre o que esperam os trabalhadores da sua fábrica da visita de Obama: “Não esperam muito porque são inteligentes, para não terem deceções”. Agora, se perguntarmos o que é que os muitos estrangeiros que vivem em Cuba esperam, esses “aguardam por grandes mudanças”.

Cuba “precisa de muita coisa. As perspetivas de negócio a médio prazo são muito aliciantes, as expetativas são promissoras. Quando fui destacado para vir para cá, em 2003, fiquei apreensivo. Já pensei em tentar sair daqui porque me estava a afastar do mercado europeu, já vivi do lado de cá a crise europeia... mas agora, esta seria a pior altura para sair de Cuba”. Este país “só tem de melhorar”.

Há muita coisa para mudar em termos de atitude, “mentalidade. Há três gerações que não têm o conceito de propriedade” [privada]. Passaram 56 anos desde que o ditador Fulgencio Batista foi destituído em 1959, e Cuba entrou no caminho do socialismo sob a liderança de Fidel de Castro. “Isto foi uma ponta de lança do bloco socialista ao lado do que eles considerava o arqui-inimigo americano. O embargo protegeu Cuba de algumas coisas”, mas teve o outro lado.

A vida no Malécon, a marginal de Havana

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As empresas que vieram à boleia do turismo

Este engenheiro português de 50 anos trabalha para a Dujo Copo, uma empresa de capital misto hispano-cubano, ligada a uma multinacional com quem já colaborava antes de ser destacado para Havana em 2003. Luís foi um dos muitos estrangeiros que vieram trabalhar para empresas de capital misto, constituídas à boleia do turismo: “primeiro vieram os hotéis, e depois veio tudo o que era preciso para fazer funcionar os hotéis: os colchões, o fiambre, a cerveja etc”

Este português veio com a mulher, uma portuguesa que acabou por abandonar a vida profissional como economista porque não havia hipóteses de a contratar “para a empresa onde eu trabalho”.

As duas filhas do casal cresceram, e já são duas adolescentes de 14 e 17 anos, que frequentam uma escola internacional com jovens de todo o mundo; a mãe adaptou-se e já gosta de viver em Havana.

Luís, explica que os preços dos produtos que produz “não têm nada a ver com aqueles que são praticados na Europa; um colchão de casal normal sai da fábrica por 80 dólares, e um de melhor qualidade por 110 dólares. Os cubanos que vão ao exterior e vêem os preços ficam supreendidos...”, mas a verdade é que nenhum poderia pagar um colchão que fosse vendido a preços do mercado europeu.

Cubanos de todas as idades fotografam o Presidente Obama

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CARLOS BARRIA / Reuters

“Quando eu cheguei há 12 anos, Havana era uma cidade fechada ao contacto com o estrangeiro”; era difícil conseguir saber o que se passava no exterior, e até se poderia pensar que as pessoas acreditavam nas histórias que lhes quissessem contar: “Agora já não é assim... logo que têm dinheiro compram iphones, o acesso à net ainda é caro” mas existe em toda a capital. Só que “Havana não é Cuba... anda-se 100 km para um lado ou para outro, e é diferente”.

  • A classe média é o motor da mudança em Cuba

    “Hola Habana, buenas noches mi gente de Cuba!”, disse Mick Jagger a mais de meio milhão de cubanos, que assistiram ao concerto desta sexta-feira em Havana. “Las cosas están cambiando, no?”. Este espetáculo a que assistiram mais de meio milhão de pessoas é a maior prova de abertura do país, depois da visita de Obama. Leia o que dizem dois portugueses residentes em Havana