Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

O lusodescendente que ainda pode tramar Trump

  • 333

John Kasich arrebatou todos os delegados republicanos no Ohio

Aaron Josefczyk/Reuters

Matt Borges, dirigente republicano do Ohio, é dos poucos capazes de impedir que Donald Trump seja nomeado candidato conservador às presidenciais de 8 de novembro

Situado no coração da América, o Estado do Ohio é o sétimo mais populoso do país. Tem 11,5 milhões de habitantes, dos quais apenas seis mil são lusodescendentes (0,1%).

Espécime raro, Matt Borges conhece pouco as suas raízes, guardando apenas duas referências: uma Bíblia traduzida na língua de Camões e uma camisola da seleção nacional de futebol, que veste sempre que há um Europeu ou um Mundial. “Quando somos eliminados, visto a do Brasil”, graceja.

Presidente do Partido Republicano no Ohio, Matt Borges é das escassas figuras políticas nos Estados Unidos capazes de impedir que Donald Trump seja nomeado candidato conservador às presidenciais de 8 de novembro. O plano passa por... ignorar o voto popular.

Apesar de o magnata americano continuar a liderar as primárias (numa altura em que falta votarem 23 Estados e territórios), corre o risco de não conquistar a maioria dos delegados (1237) necessários para a nomeação. A “culpa” é do rival John Kasich, que, nas primárias de terça-feira, arrecadou a totalidade dos delegados do Ohio (66), Estado onde é governador. Em segundo lugar na corrida está ainda Ted Cruz, que, como Trump, é da ala radical do partido. Ficando os três em liça até ao fim, a maioria absoluta é teoricamente mais difícil.

Perante este cenário, o núcleo duro do Partido Republicano prepara uma “convenção concorrida” (contested convention), na qual, como mandam as regras, após uma primeira votação sem maioria, existirá uma segunda em que, automaticamente, todos os delegados se tornam independentes. Deixam de estar adscritos ao candidato em cujo nome foram eleitos nas primárias.

É aqui que Matt entra em jogo no papel de árbitro e jogador. Enquanto presidente do partido no Ohio, será anfitrião da Convenção e supervisor dos trabalhos. Apoiante de Kasich e homem do aparelho, terá a missão de convencer os delegados de que o governador merece a nomeação. Em entrevista exclusiva ao Expresso, o lusodescendente descodifica este jogo de bastidores.


Caso Trump não obtenha a maioria dos delegados, como decorrerá a Convenção republicana?
Tenho a certeza de que será um momento histórico. Na verdade, só estamos admirados com o cenário de contested convention porque não acontece há mais de 60 anos, a última vez em que o vencedor das primárias não foi nomeado candidato. Antes disso, as convenções deste tipo eram normais. Abraham Lincoln foi nomeado numa e nem por isso deixou de ser um grande Presidente.

Porque deve o Partido unir-se à volta de John Kasich?
Porque ele é o único candidato capaz de vencer em novembro. Repare que nunca nenhum republicano foi eleito Presidente sem vencer no Ohio. John é o único que garante isso.

Não considera esse processo antidemocrático?
Só estamos a falar de convenção antidemocrática porque temos memória curta. Os vencedores nas últimas décadas, como Romney ou Bush, conquistaram a maioria dos delegados nas primárias e quando chegaram à convenção não tiveram de convencer mais ninguém. As pessoas habituaram-se. Desta vez será diferente e a culpa é de Donald Trump, que, provavelmente, não irá recolher os tais 1237 delegados necessários. As regras não são novas e todos os que partem para esta corrida sabem que o que está em causa são os delegados e nada mais. Temos sido muito transparentes quanto a isso. Em julho teremos um processo ordeiro e certamente democrático. O que não é democrático é o que se passa no Partido Democrata, onde existem superdelegados, figuras escolhidas a dedo no seio da elite partidária e que nunca vão a votos. Bernie Sanders tem o apoio popular, mas não tem hipótese, porque Hillary Clinton tem centenas de superdelegados reservados.

Por falar no partido rival, porque é que tantos democratas do Ohio votaram em John Kasich na terça-feira?
Porque têm medo de Trump e querem uma alternativa a Hillary. No Ohio há mais democratas do que republicanos, mas somos nós que vencemos eleições. E porquê? Os democratas conservadores do centro, os Blue Dog Democrats, votam em políticos como Kasich, que são republicanos moderados, capazes de firmar compromissos com os liberais. Veja-se este exemplo: em 2012 Obama venceu no Ohio com uma vantagem de 260 mil votos sobre Romney. Dois anos depois, Kasich foi reeleito, depois de ter dominado nos condados onde Obama vencera. Ele tem o otimismo clássico de um velho republicano, ao estilo de Reagan.


As primárias têm sido marcadas pelo voto de protesto, daí os bons resultados de Donald Trump e de Ted Cruz. Voltando à Convenção, como é que Kasich irá convencer os delegados daqueles candidatos a mudarem para o campo do sistema?
Kasich não é um candidato do sistema.

É o governador do sétimo Estado mais populoso e esteve 18 anos no Congresso.
É verdade, mas nunca se coibiu de votar contra o próprio partido. Juntou-se a Ralph Nader para acabar com uma série de benefícios fiscais para as grandes empresas, votou contra uma proposta de orçamento da Administração Reagan, criticou os gastos excessivos do Pentágono, opôs-se a várias intervenções militares…

Disse que aguarda uma Convenção ordeira. Porém, Trump já ameaçou com uma revolta popular caso o partido escolha outra pessoa. Enquanto anfitrião do encontro, e tendo em conta a violência que grassa nos comícios do multimilionário nova-iorquino, está preocupado?
Não conheço um único republicano do Ohio que tenha medo do senhor Trump. Isto aqui é o coração da América, as pessoas são rijas. Ninguém irá aparecer na Convenção intimidado e a votar em Trump por receio. Tenho a certeza de que irá existir muita luta e debate, no bom sentido. Se Trump quer converter a Convenção num combate de boxe o problema é dele, mas tenho certeza de que os republicanos não irão deixar.

  • Vitória de John Kasich no Ohio alimenta esperanças anti-Trump

    Donald Trump venceu em três dos cinco estados que foram a primárias esta madrugada mas perdeu no Ohio para o governador daquele estado — que deverá chamar a si grande parte dos eleitores e delegados que até agora apoiavam Marco Rubio, o grande derrotado da noite. Do lado democrata, Hillary Clinton cimentou liderança da corrida ao bater Bernie Sanders em quatro estados