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Lula preso? Fala sério, cara!

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Sebastião Moreira/EPA

O rumor começou na manhã de sábado e ganhou corpo nas últimas horas, alimentado, por exemplo, por uma notícia da revista “Veja”. O juiz Sérgio Moro teria já em cima da mesa, no gabinete que ocupa no Tribunal Federal de Curitiba, a ordem de prisão preventiva de Luiz Inácio Lula da Silva, pronta a despachar

SARA ANTUNES DE OLIVEIRA, ENVIADA DA SIC A BRASÍLIA

É mais um exercício de dedução lógica que uma informação de fonte bem colocada: se o ex-presidente soube, antecipadamente, que o Ministério Público o queria preso por perigo de perturbação do inquérito Lava Jato e Dilma Rousseff antecipou em seis dias a tomada de posse do novo Ministro-Chefe da Casa Civil, é porque a mesma fuga de informação dizia que Moro iria emitir a ordem em menos de uma semana. Agora que o processo que envolve Lula no maior escândalo de corrupção do país voltou para as mãos do juiz de Curitiba, depois do Supremo Tribunal Federal ter recusado o foro privilegiado ao, para já, Ministro-suspenso, é possível que o presidente mais popular de sempre no Brasil já não seja um homem livre no fim-de-semana de Páscoa.

No calor de Brasília, a espera é lenta. Talvez mais ainda para Luís Fernando, abrigado na curta sombra do Monumento Juscelino Kubitschek, com o Supremo Tribunal Federal à direita e Palácio do Planalto à esquerda, à mesma distância. Uma cartolina escrita a marcador explica em maiúsculas a presença do professor de Belo Horizonte ali, sentado no chão: "GREVE DE FOME - LULA: OU É MORO OU EU MORRO".

Garante que não come desde quinta-feira, dia da tomada de posse de Lula. As suspensões sucessivas não travaram o protesto: "se aguentar, só como quando o STF decidir definitivamente que ele não pode ir para o Governo." Os 31 anos de Luís Fernando resistem aos apelos de quem passa, quase todos turistas numa Brasília que tirou o fim-de-semana para descansar das manifestações. "É a sua saúde. Pense bem!". Sorri e abana a cabeça até ouvir "e se Lula for preso esta semana?". "Lula preso? Fala sério, cara!"

A teoria dele é simples: Sérgio Moro não avança com a prisão antes da decisão definitiva do STF sobre a ida para o Governo, para evitar que uma eventual luz verde para Lula levasse a um Habeas Corpus, um pedido de libertação imediata, baseado na nova condição de Ministro - e no direito a um foro privilegiado. "Isso seria ainda pior", diz uma portuguesa, residente há muitos anos no Brasil, que parou para ler o cartaz. "Se fizerem isso, criam um mártir e o Lula vai saber usar o papel de vítima muito bem na campanha para as Presidenciais de 2018.

Esse caminho político, se Lula o trilhar, ficou mais tortuoso nas últimas semanas. O homem que abandonou o cargo de Presidente do Brasil com uma taxa de aprovação de 87%, é agora rejeitado por mais de metade dos brasileiros.

É certo que a sondagem da Datafolha conhecida este domingo continua a colocá-lo como o ex-presidente preferido, logo à frente de Luís Henrique Cardoso, mas revela também que a esmagadora maioria dos inquiridos acha que Lula só aceitou o cargo no Governo para fugir à mão do juiz Sérgio Moro e que Dilma fez mal em nomeá-lo.

Para a Presidente, agora debaixo de uma enorme pressão política, com o número dois Michel Temer já a pensar numa equipa para lhe suceder, os números são ainda mais punitivos: 68% apoia o impeachment que já corre no Congresso (mais 8 pontos percentuais que há um mês) e 65% acha que Dilma devia renunciar de imediato, sem esperar pelo fim do processo de destituição.

A Rousseff falta o capital afetivo que o Brasil, bem ou mal, ainda tem por Lula da Silva. Ronaldo Melo, vendedor de gelados na mesma praça onde Luís Fernando recusa comer, é exemplo disso: já participou em 4 manifestações contra a corrupção e contra "os políticos que assaltam o país", mas não gostava de ver Lula preso: "Prisão é demais. Se recebeu dinheiro, basta devolver."

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