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Internacional

Alegado bombardeamento russo mata mais de 50 pessoas na Síria

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Embora Raqqa, cidade onde ocorreram os bombardeamentos, não esteja protegida pelo acordo de cessar-fogo, por ser a 'capital' do Estado Islâmico, a verdade é que o ataque vem minar as já suficientemente minadas negociações que decorrem em Genebra entre representantes do Governo sírio e grupos da oposição

Helena Bento

Jornalista

Um novo ataque aéreo na cidade de Raqqa, norte da Síria, levado a cabo alegadamente pela aviação russa, resultou na morte de pelo menos 55 pessoas, a maioria dela civis, afirmaram no sábado ativistas da oposição síria.

De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, grupo que monitoriza o conflito sírio a partir de uma rede de ativistas no terreno, 13 das vítimas eram crianças e mulheres grávidas. O ataque, diz o observatório, teve como alvo áreas residenciais. A agência Aqma, com ligações ao autoproclamado Estado Islâmico, fala, por sua vez, em 43 vítimas mortais e 60 feridos, e divulgou um vídeo para mostrar “o massacre cometido pela aviação russa numa das mais movimentadas ruas de Raqqa”. Apesar das muitas certezas sobre quem terão sido os responsáveis pelo ataque, o Governo russo ainda não se pronunciou sobre o sucedido - e provavelmente não o fará.

Embora não se possa afirmar que a investida corrompa o acordo de cessar-fogo que entrou em vigor no fim de fevereiro, resultado do esforço comum entre Estados Unidos e Rússia para atenuar os efeitos da guerra na Síria - a Frente al-Nusra e o autoproclamado Estado Islâmico, cuja 'capital' é precisamente Raqqa, não foram visados pela trégua - a verdade é que ela vem minar as já suficientemente minadas negociações que decorrem em Genebra entre representantes do Governo sírio e grupos da oposição, com a mediação das Nações Unidas.

Em Genebra, precisamente, discute-se o futuro da Síria. Mas discutir o futuro da Síria passa obviamente por discutir o futuro de Bashar al-Assad, e esse é, como se tem visto, um tema delicado. Antes mesmo de as negociações começarem, o ministro dos Negócios Estrangeiros sírio, Walid al-Moallem, dizia que elas iam falhar caso a oposição colocasse em causa a permanência do Presidente sírio Bashar al-Assad no Governo de transição da Síria.

Apesar dos muitos alertas, a saída de Bashar tem sido, como o foi no passado, equacionada. Governo e opositores continuam sem se entender sobre o que significa transição - o primeiro defende um “Governo de unidade nacional” com todos os partidos políticos, incluindo o Partido Baas e incluindo Assad, e os opositores não imaginam um futuro com Assad sendo o que é hoje. A pressão em Genebra sobre os representantes do Governo sírio para apresentaram uma solução concreta para o país - que, de preferência, vá ao encontro do que os Estados Unidos, Europa e oposição pretendem - é enorme.

O enviado das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura, já avisou que não vai, de modo algum, abdicar desse propósito. “O Governo está a focar-se muito nos princípios - que são necessários em qualquer tipo de acordo sobre a transição - mas eu espero que na próxima semana, e é isso que eu lhes tendo vindo a dizer, já saibamos quais são as perspectivas do Governo em relação ao processo de transição política“, referiu Mistura, citado num artigo publicado este domingo pela agência Reuters.