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Você come coxinha ou sanduíche de mortadela?

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RICARDO MORAES/REUTERS

Será das frases mais repetidas nos últimos dias: "o Brasil é um país profundamente dividido". Já não é sequer uma questão de ideologia partidária. Há petistas que pedem a saída de Dilma e se arrependem de ter votado em Lula (duas vezes), como há quem nunca tenha apoiado a esquerda entre os que engrossam agora as manifestações em defesa da Presidente

SARA ANTUNES DE OLIVEIRA, ENVIADA DA SIC A BRASÍLIA

No meio de um turbilhão de decisões contraditórias e de um impasse político e judicial, vale tudo para definir as diferenças. Começou na cor da roupa, entre vermelho, verde e amarelo. Já vai naquilo que cada um come nas manifestações.

Quem chegasse este sábado a Brasília, meio da manhã, sol alto, calor a avisar que a tarde seria irrespirável, dificilmente poderia supor que há menos de uma semana, à mesma hora, já se preparava o maior protesto de sempre no país. Ou mesmo que, há menos de 48 horas, o centro da cidade estava cortado, bloqueado, policiado, ameaçado por mais um manifestação.

Na Praça dos Três Poderes, concebida por Niemeyer para representar o perfeito e harmonioso equilíbrio entre os poderes de quem governa, de quem legisla e de quem julga, ironicamente usada nos últimos dias por milhares que gritam que a balança se desequilibrou, há apenas quatro homens e uma tarja amarela com uma citação de Eduardo Campos, o candidato que morreu num acidente de helicóptero durante a última campanha eleitoral. "Não vamos desistir do Brasil."

Vieram de Cascavel, no Paraná, "lá no sul". Vinicius, um jovem saído da universidade, é o mais bem falante.

"A nomeação de Lula é um atentado à Constituição e à moral", "estamos fartos de políticos que governam para os seus próprios interesses", "a justiça existe para proteger o povo da corrupção, seja com que meio for" - não lhe falta nenhuma das frases memorizadas numa campanha que não sai do ar há semanas. E Lula, foi um mau Presidente? A pergunta incomoda. Vinicius revolve o discurso à procura de uma frase que não o obrigue a emendar a mão. "Lula perdeu o foco." Safou-se. "Nunca votei Lula, mas nos primeiros anos vi coisas boas e esperei muitas mais." E agora? "O poder subiu-lhe à cabeça quando o dinheiro lhe entrou nos bolsos".

ADRIANO MACHADO/REUTERS

A decisão mais recente do Supremo Tribunal Federal acalmou os ânimos. Ou, por outra, adiou a tempestade. Lula não só não é já ministro, como, provavelmente, terá de esperar até depois da Páscoa por uma resposta ao recurso que o Governo vai apresentar. A Via Sacra do ex-Presidente feito Ministro-Chefe-suspenso é mais longa que o esperado porque o STF não agendou uma reunião do plenário para a Semana Santa.
Encostado às baias que protegem a entrada do Palácio do Planalto, literalmente à porta da casa do Governo, Vinicius espera, como o país. Tira fotos a quem pede para posar ao lado da tarja, bandeira nacional pelas costas; acena a quem passa e grita "Fora, Dilma!"; só se irrita uma vez e é a sério.

O insulto parece acertar em cheio no alvo: "Vai embora, Coxinha!", gritado de um carro que contorna a praça. "Coxinha é a sua mãe, oh Mortadela!", foi o que de mais educado se ouviu da resposta. A coisa não é para menos porque o tal insulto é repetido vezes sem conta nos altifalantes dos autocarros que os sindicatos usam como palco nas manifestações de apoio ao Governo. Acusados de serem a elite brasileira, ressabiada pela perda de privilégios para a classe operária que apoia Dilma, os que lutam pela queda da Presidente e pela prisão de Lula são conhecidos por só comerem coxas de frango assado nas manifestações, porque têm dinheiro para as comprar nas barraquinhas que se juntam aos protestos.

Os outros, nas ações pró-PT, pagam 3 reais, menos de um euro, por uma sanduíche de mortadela que os sindicatos levam para alimentar os manifestantes. É comida, sim, mas num Brasil radicalizado na opinião, a comida também é arma.

O carro passa, Vinicius acalma-se. E compra um gelado.