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“Quando um Governo vacila, os partidos ficam logo de olho grande”

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Manifestação de apoio a Dilma Rousseff e ao Governo brasileiro, em Brasília

RICARDO MORAES/REUTERS

A crise política mergulhou o Brasil num caos. Partidários ou opositores ao Governo representam um país dividido, à procura de uma saída

Sara Antunes de Oliveira, enviada da SIC a Brasília

Se o Brasil que não tem sonhos fosse pessoa, seria Amaral, 50 anos, taxista há pouco mais de um.

O sotaque denuncia-o. A Bahia emprestou-o a Brasília para trabalhar; o trabalho em Brasília serve só para voltar, um dia, para casa. “A roça está lá à espera. É bom lá.” Mais que bom? “É bom. Para quem é pobre, bom já chega.”

Não espera mais do Brasil de hoje. Não é Dilma, não é Lula, não é partido ou juiz. “É o povo. O povo sabe que a lei é fraca. E lei fraca não serve não, porque vagabundo não tem medo de nada. Quem tem coragem, enfrenta: mata, assalta, rouba. Pode pedir a um Governo que não seja assim também?”

É Dilma? É Lula? É o caos que se instalou num país que ora tem ministro da Casa Civil, ora não tem? “Não”, insiste. “É o povo. E é o dinheiro. Dinheiro manda muito no Brasil. Dinheiro e poder. Não pode confiar em ninguém. Quando um Governo vacila, os partidos ficam logo de olho grande.”

A viagem entre o Aeroporto Presidente Juscelino Kubitschek e o quarteirão hoteleiro da cidade desenhada a régua e esquadro seria curta, não fosse o trânsito de estradas cortadas por causa da manifestação de apoio a Dilma Rousseff que, àquela hora, final de tarde de sexta-feira, já começou.

O homem que nos conduz nunca foi a nenhuma - não sabe bem se é pró ou contra. Se o Brasil dividido e confuso fosse pessoa, seria Amaral, 50 anos, taxista há pouco mais de um.

Votou em Dilma, agora tem “até vergonha”; diz que Lula da Silva foi o melhor Presidente que o Brasil já teve, mas, “se recebeu dinheiro sujo, tem de pagar”; acredita que só a Justiça pode “pôr o país na ordem”, mas esta “não sabe o que faz”. E atira: “o problema não é demitir a Presidenta. Se você tirar a Dilma, quem é que você vai pôr lá?”

Não é questão que se coloque no imenso relvado em frente ao Palácio do Congresso Nacional. A Polícia Militar diz que ali chegaram quatro mil, vestidos de vermelho, vindos de uma caminhada de um quilómetro desde o museu da cidade. Entre os organizadores, quase todos ligados ao PT e aos sindicatos da Central Única dos Trabalhadores, o número repetido ultrapassa os 30 mil manifestantes.

Nas bandeiras, nos cartazes e nos cânticos trazem quatro nomes de uma “garantida” tentativa de golpe de Estado: Dilma e Lula, as vítimas; o juiz Sérgio Moro (da Operação Lava Jato) e o presidente da Câmara dos Deputados (Eduardo Cunha, responsável pelo processo de destituição da Presidente), os golpistas.

“Sai Cunha, fica Dilma, vem Lula!”, cabe em qualquer ritmo. Não falta samba, chope gelado e pipocas vendidas em sacos de plástico.

O protesto dura três horas e meia, rodeado de polícia a pé, a cavalo, com cães, fortemente armada, preparada para tudo. Acontece nada - por agora. Quando quase todos começam a ir embora, está uma professora ao microfone de um palco improvisado no topo de um autocarro. “Revolucionários do Brasil: fogo no pavio! Fogo no pavio!”

“O Brasil é problema sério”, diria Amaral.